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A marca humana (para minha mãe)

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César
Por César Seabra
26/02/2022 - 06h00
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Obra "Guernica", de Pablo Picasso, do Museu Reina Sofia, em Madri, Espanha (Foto: Museu Reina Sofia, Reprodução)

Aquele incidente seria um companheiro inseparável.

– Desce, menina, não brinque aí, é perigoso – avisou a mãe.

Batatas, a linguiça já dourada, cebola, couve, sal, pimenta-do-reino, caldo de carne caseiro, tudo estava na panela. Bastavam mais cinco minutos em fogo brando para a perfeita maciez da couve.

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 O perfume do caldo verde invadia a casa, seduzia a menina de seis anos. Ela não conseguia se manter longe daquela delícia que o pai havia trazido de Portugal e a mãe aprendera a fazer com devoção, uma vez por semana. Adorava aquela mistura poderosa com um fio de azeite.

– Comporte-se, desça daí, está pronto! – disse a mãe, depois de levar a prova final à boca.

> A arte que nos redime

A saída da cadeira em que estava de pé, colada ao fogão, foi fatal. O descuido, o desequilíbrio, as pequenas mãos procurando apoio. A panela desaba sobre ela. Não houve tempo para a reação da mãe, que dava os últimos retoques na mesa. Muito menos do pai, que fumava e lia o jornal sensacionalista na varanda.

O caldo verde sobre o pescoço, a barriga e os braços da menina. A agonia nos bonitos e arregalados olhos azuis.

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Ao chegar ao hospital mais perto de casa, os plantonistas não tiveram dúvidas: ela havia sofrido graves queimaduras de segundo grau, que atingiram a epiderme, a segunda pele, produziram bolhas horríveis.

Enquanto executavam os primeiros socorros, os médicos diziam que seria preciso um longo tratamento para reconstruir os tecidos. Atônitos, pai e mãe aceitavam com leve balançar de cabeça.

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Anos e anos de tratamento, cirurgias e terapias não amenizaram aquela dor, não apagaram as marcas físicas. A menina cresceu, tornou-se uma mulher bonita. Mas sentia vergonha de seu corpo. Temia ser rejeitada.

 Tudo tornava-se pior com a inquebrantável crueldade do pai. Ele jamais a perdoou pelo incidente.

– A culpa foi sua – repetiria até no leito da morte.

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A rigidez paterna ajudou a conceber o caráter. Ela parecia escapar daquelas imagens de menina com uma obsessiva mania de perfeição. Endureceu. Não admitia erros, não tolerava falhas. Com o tempo, os olhos azuis tornaram-se frios, quase-mortos.

Aquele incidente deu a ela uma rigorosa pele da qual jamais conseguiria se desatar.

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As percepções sobre Santa Catarina, o Brasil e o mundo a partir do olhar do diretor de jornalismo da NSC Comunicação, César Seabra.

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