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César

Análise

A metamorfose

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Por César Seabra
08/06/2019 - 16h18 - Atualizada em: 09/06/2019 - 15h15
(Foto: Lucas Figueiredo / CBF)

Alguns anos atrás Tite era considerado um grande administrador de gente e visto como o futuro técnico da seleção brasileira - o que aconteceu merecidamente em 2016. Voltando no tempo, fui assistir, em 2015, a uma palestra do então técnico do Corinthians.  Ele pouco falou de futebol. E muito de como era ser líder de marmanjos tão ricos e tão diferentes. Uns festeiros, outros religiosos; uns mais espontâneos, outros mais tímidos; alguns excelentes jogadores, outros nem tanto. Foi brilhante em sua exposição, deu uma aula de gestão e empatia. Poucos anos se passaram e Tite parece ter sofrido uma radical transformação. Mostra- se verborrágico, lazarônico, inseguro e também inábil na relação com o maior astro da seleção brasileira. Perdeu a mão. 

A impressão é a de que Neymar pode sempre tudo. Pode socar um torcedor na França, pode desprezar e desrespeitar adversários em campo, pode simular faltas nos gramados e provocar a ira de todo o mundo, pode chegar de helicóptero aos treinamentos. Nada importa. Ele sempre será bajulado -até mesmo pelo presidente da República. Afinal, como disse Edu Gaspar, o coordenador técnico da seleção, “ é duro ser Neymar”. Sem comentários.  Não vou me prender à acusação de violência sexual feita a Neymar. Muito menos à estratégia de despejar, nas redes sociais, fotos da acusadora e detalhes vulgares de conversas sexuais que ambos mantiveram. Franz Kafka, autor de “ A metamorfose”, escreveu: “ Você não sabe a energia que reside no silêncio.” Mas o pai de Neymar, em toda a sua erudição e perspicácia, disse: “ Prefiro um crime de internet a um crime de estupro”. Sem comentários de novo.  Voltemos a Tite. Ele mostra- se confuso, desconfortável e abatido ao ser indagado sobre Neymar. Não deveria. Foi escolhido, entre outras coisas, para apagar incêndios. Desta vez uma conveniente contusão o ajudou a fazer o que muitos sugeriram: cortar o controverso “ menino de 27 anos” da Copa América. 

O poder e o ego parecem tê- lo fisgado de jeito. Certo é que o treinador gaúcho, recentemente endeusado e paquerado até pelo mundo político, mudou.  Não há mais sinal de leveza no semblante do metamorfoseado Tite. O “ professor” parece agoniado e aprisionado. Parece refém do desejo de se manter no cargo a qualquer preço. 

Aprecie o silêncio

Voltemos a Kafka ( chamado pelo eminente ministro da Educação de “ Kafta”, a deliciosa comida árabe): “ Queremos livros que nos afetem como um desastre. Um livro deve ser como um machado diante de um mar congelado em nós”. 

Pobre pica-pau

Em recente entrevista à rede britânica BBC, a ministra Damares Alves comentou sobre um antigo astro dos desenhos animados: “ Ele é um personagem arrogante, é um personagem egoísta. Eu questionava a caracterização do Pica- Pau”. Meu deus, onde isso vai parar?

Uma aula

David Letterman, famoso apresentador da TV americana, disse recentemente: “Não ter sido consumido pelo showbusiness me fez uma pessoa melhor”. Falou pouco e disse tudo. 

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