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Crônica

Amor às miudezas

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Por César Seabra
06/04/2019 - 13h21 - Atualizada em: 06/04/2019 - 13h22

A paixão não é para amadores.

Entra em casa, bagunça quartos e convicções; muda tudo de lugar, discos, livros, certezas; traz desordem a ordens e manias estabelecidas; traz sorrisos, dúvidas, medos, dores, prazeres, alegrias. Não é nada fácil, a paixão.

Neste momento estou duplamente apaixonado. Por Cíntia, com seu jeito de ser, ternura, perfume, olhares, força estranha, meiguice. Também estou apaixonado por um homem, por suas palavras, jeito eterno de menino, visão de mundo tomada de aparente simplicidade e extrema belezura. Estou falando de Manoel de Barros.

Ele nasceu em Cuiabá, em 1916. Nos deixou em 2014, aos 97 anos. Carlos Drummond de Andrade o considerava o maior poeta do Brasil. O escritor angolano José Eduardo Agualusa disse recentemente:

"Manoel de Barros nos ajuda a olhar os outros, os mais invisíveis de entre todos nós, e a encontrar neles a nossa própria humanidade".

E o colega português Valter Hugo Mãe vai além:

"Ler Manoel de Barros cria a sensação de que texto também vem da árvore e amadure ao sol, delicado e generoso".

Recentemente, o diretor Ulysses Cruz e a atriz Cássia Kis montaram a peça Meu quintal é maior do que o mundo, sobre poemas de Barros.

– Ele era como um andarilho que inventava caminhos – disse Cássia, rival imbatível no amor por Manoel.

A paixão é assim. Chega do nada, às vezes brutal ou vagarosa, sem cerimônia, sem bater à porta. Em minha prepotente ignorância, nunca havia lido Manoel de Barros. Hoje, degusto dos escritos palavra por palavra, frase por frase, imagem por imagem. E posso dizer: há muitos anos não lia nada tão bonito.

Os livros são muitos. Memórias inventadas, Livro sobre nada, Retrato do artista quando coisa, Menino do mato, Exercícios de ser criança, O fazedor de amanhecer; O guardador de águas.

Os versos me deixam sem palavras e com olhos marejados:

"Os andarilhos, as crianças e os passarinhos têm o dom de ser poesia". "Buscar a beleza nas palavras é uma solenidade de amor". "Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes". "Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina". "Vi a tarde correndo atrás de um cachorro". "Sapo é um pedaço de chão que pula". "O que desabre o ser é ver e ver-se".

E segue o baile do poeta das miudezas. Ele transborda encantamento e deslumbramento em toda singeleza. É um santo remédio para o desânimo e desesperança. Faz a vida valer a pena.

Tempos modernos

Perspicaz comentário do amigo Mauricio Stycer:

– Tempos Modernos, do Lulu Santos, é uma música que envelheceu mal.

"Eu vejo um novo começo de era / De gente fina, elegante e sincera / Com habilidade / Pra dizer mais sim do que não".

É, faz sentido.

Para fechar bonito

Mais Manoel de Barros:

"Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro./ Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas)./ Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil./ Fiquei emocionado./ Sou fraco para elogios."

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