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César

Crônica

Força bruta

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Por César Seabra
16/03/2019 - 15h59 - Atualizada em: 16/03/2019 - 15h59

Gosto de fumaça, buzinas, sirenes de ambulâncias e de carros dos bombeiros. Cinemas, teatros, restaurantes cheios, gente nas ruas, metrô lotado, vozes, gritos. Sou urbano, admirador do caos das grandes metrópoles. E sempre tive medo das viagens mais contemplativas, cuja relação com árvores, baleias, tartarugas e afins se torna obrigatória. Até que apareceu a Islândia.

Uma ilha entre a Europa e a América com 350 mil habitantes. A capital, Reykjavik, tem 130 mil pessoas. O país é um pequeno povoado que ficou mais conhecido em 2010, quando a erupção de um vulcão de nome complicado (o Eyjafjallajökull) paralisou os europeus, assustou o mundo e ajudou a impulsionar o turismo.

Somente ano passado a Islândia recebeu cerca de 2,5 milhões de visitantes. Outro valioso empurrão foi a série "Game of Thrones", que usou paisagens islandesas como cenário de uma de suas temporadas.

No meio da viagem, Cíntia me perguntou o que eu estava achando daquilo tudo. Cachoeiras, gêiseres, fiordes, lagos, pedras, rios, piscinas naturais, fendas abissais, glaciares, aurora boreal, a areia preta da praia, casas encravadas em rochas... Respondi sem pensar:

— Nunca vi nada igual.

E Cíntia devolveu, rigorosamente doce, certeira e sucinta:

— É tudo tão bruto.

É isso, a natureza lá é bruta e deslumbrante, com a vegetação e o solo forjados pelas lavas de anos e anos de erupções vulcânicas. Os olhos invariavelmente embaçam com tanta coisa bonita.

Mas não é só isso. O país é considerado o melhor do mundo para as mulheres. No Global Gender Gap Report de 2018, que mediu a igualdade de gêneros através de temas como participação econômica, representatividade politica, educação e saúde, a Islândia ficou em primeiro lugar. A Noruega está em segundo e a Suécia, em terceiro. No ranking de 149 países, os Estados Unidos ficaram em 51 lugar e o Brasil, em 95.

Eles têm também uma fortíssima escola literária. Há livrarias por toda parte da pequena Reykjavik. Com Halldór Laxness, a Islândia ganhou o Nobel da Literatura em 1955. E nas festas de Natal é tradição dar livros de presente aos parentes e amigos.

Os islandeses também amam o futebol. E idolatram o verdadeiro futebol do Brasil, aquele de Pelé, Romário, dos Ronaldos (o gorducho e o dentuço). Falam de nossos craques e de nossas conquistas com orgulho, como se brasileiros fossem.

Somos um país de amadores. Temos muito o que aprender. A pequena Islândia não é grande por acaso.

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Para quem gosta de música e deseja ver um pouco da Islândia, o DVD "Heima" ("Em casa"), da banda local Sigur Rós, é imperdível. Para quem gosta de ler, a dica é um primor da literatura contemporânea que se passa na Islândia: "A desumanização", do português Valter Hugo Mãe.

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O ano de 2019 é uma sucessão e coleção de tristezas: a tragédia da Vale em Brumadinho, o incêndio no Flamengo, as chuvas no Rio e em São Paulo, os assassinatos na escola de Suzano. Onde isso vai parar?

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A frase da semana: "O condomínio é bom. O que mata é a vizinhança".

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