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Entrevista

Em SC, Damares diz que não segue "extremismos feministas" nem "exageros conservadores" 

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Por Dagmara Spautz
25/04/2019 - 18h24 - Atualizada em: 25/04/2019 - 21h52
Damares Alves
Damares Alves (Foto: Luiz Carlos Souzal)

Duas versões da ministra da Mulher,da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, foram perceptíveis nesta quinta-feira (25) em sua primeira visita oficial a Santa Catarina. Em Balneário Camboriú para lançar um programa de envelhecimento ativo, a ministra, que ganhou notoriedade pelas polêmicas que protagonizou nos primeiros meses de governo, fez jus à desenvoltura de pastora evangélica ao falar a uma plateia lotada.

Emocionada, disse que foi abusada na infância e chocou os ouvidos mais sensíveis ao relatar casos de pedofilia. Mais tarde, em entrevista exclusiva à NSC, estava mais série e contida. Disse que já fez turismo em Balneário Camboriú e comentou os índices de violência do Estado. Mas não evitou tocar em alguns dos assuntos espinhosos que rondam sua pasta.

Entrevista: Damares Alves

A senhora veio a SC apresentar um programa para idosos. Eles são prioridade no ministério?

Sim, minha pasta tem oito secretarias nacionais e estamos priorizando. Percebemos que são poucas políticas públicas para essa população e precisamos começar a construir, porque o Brasil está envelhecendo. As políticas que estamos construindo são para daqui a 30, 40 anos, (para) um Brasil mais maduro.

Uma das críticas da oposição ao projeto de reforma da previdência é justamente o possível empobrecimento dos idosos que recebem o salário mínimo. A senhora acompanha isso de perto? Qual sua opinião?

É um grande engano. A nova previdência não vai violar direitos, não vai prejudicar idosos. A interpretação que estão fazendo, eles até entendem, mas querem dizer que não, e começam a criticar. O Brasil precisa da nova previdência, inclusive pensando nessa população daqui a 40 anos.

A senhora acompanhou de perto a formulação da proposta?

Acompanhei a formulação e concordo plenamente com ela. Não vemos nela nenhuma violação de direitos, pelo contrário. Acho que o idoso vai ser melhor acolhido pela nova proposta.

Os índices de violência contra a mulher em Santa Catarina são...

Assustadores.

Exato. Há programas federais que podem ser implementados? Sua vinda a aproxima do Estado com relação à possibilidade de parcerias nesse sentido?

Precisamos melhorar a rede de proteção à mulher. A delegacia, o disque-denúncia. Existe no Brasil o projeto Casa da Mulher Brasileira, estamos conversando sobre a possibilidade de trazer para Balneário Camboriú, porque não vai alcançar apenas as moradoras de Balneário, mas também as moradoras da região e a turista. É bom a gente lembrar que muitas mulheres estão vindo para esta cidade e fazem desta a sua última viagem. Algumas estão amarguradas, tristes, e (acham que) o suicídio é o caminho, vêm para recuperar um casamento, estão dentro do quarto do hotel apanhando, sofrendo, então (o programa) vai dar inclusive para essa turista a possibilidade de fazer uso da Casa para denúncia, acolhimento. Estamos estudando se vai ser possível trazer por meio do ministério.

O ministério está aberto para trazer para todo o Estado esse programa?

Sim, a Casa da Mulher Brasileira tem vários formatos. O mais conhecido é aquela casa enorme, com vara judicial, delegacia, tudo no mesmo espaço. Mas existe um formato pequeno, menor, casas menores que podem ser trazidas para o estado inteiro. É uma questão apenas orçamentária, estamos buscando o orçamento para atender as prefeituras que estão querendo esse instrumento que é tão poderoso e eficiente. Mas existem outras propostas, como uso de aplicativo, uso do botão do pânico. Estive no Acre, e lá lançamos o botão da vida. É um aplicativo, que toda mulher pode baixar gratuitamente, e até a foto do agressor aparece se ele chega perto. Está ligado à central da polícia, à Secretaria da Mulher, à delegacia. Estamos pensando, a nível local, qual instrumento usar aqui para dar mais efetividade e proteção à mulher. Mas temos também outra proposta. Temos números que mostram que mais de 50% das mulheres voltam para o agressor. Um dos motivos é porque ele é o provedor. Mas tem um outro ingrediente que não podemos esquecer, que é o sentimento. (Quando) a mulher não volta para o agressor, ele vai constituir outra família, agredir outra mulher. Então esse elemento precisa ser visto com outro olhar. A restauração, a ressocialização do agressor. É um desafio, não é visto com bons olhos por muita gente porque as pessoas querem o agressor apanhando, na cadeia e longe de todo mundo. Mas muitos vieram de lares destruídos, são filhos de pais agressores, reproduzindo comportamentos aprendidos na infância, então temos que desafiar os municípios a olhar com outra visão.

A senhora falou há poucos dias na Câmara dos Deputados sobre a submissão da mulher ao homem. Disse que é um preceito religioso, que não o aplica em seu trabalho, mas o reconheceu como legítimo. Isso não prejudica o combate à violência contra a mulher?

Não, eu estava respondendo a uma pergunta de um recorte. O que gerou essa história, que é um recorte de um recorte. Pegaram uma fala minha dentro da igreja uma vez, em que a Bíblia fala o que é o casamento: mulher, sujeitai-vos aos vossos maridos, aos cuidados dos vossos maridos. E a Bíblia fala: marido, protegei as mulheres com as suas próprias vidas, se possível doem suas vidas. A gente estava falando sobre o que Deus quer da mulher, se sujeitar ao cuidado do marido e para o marido doar sua vida pela mulher. E aí fizeram essa pergunta, a senhora acha que a mulher tem que se sujeitar? Eu disse: gente, é um princípio religioso, que o homem tem que proteger a mulher. Só pegaram essa parte, da mulher se sujeitar aos cuidados do marido. Mas não pegaram a outra, que o homem tem que dar a sua vida pela mulher. E aí tem tudo a ver com o meu trabalho. Queremos homens que tenham a coragem de proteger as mulheres com suas próprias vidas. Não vejo isso como um retrocesso ou uma situação que vai deixar a mulher vulnerável.

A senhora nomeou recentemente a ativista antiaborto Sara Winter para a coordenação de políticas de maternidade. A pauta do aborto está entrando no ministério?

Não, a Sara vem fazer um trabalho de prevenção à gravidez precoce. A Secretaria da Mulher tem um trabalho de prevenção à gravidez precoce em parceria com a Secretaria da Juventude. A Sara ficou grávida muito cedo, abortou, teve outro filhinho solteira, e ela tem uma história de como ter um filho não esperado pode atrapalhar na escola, na faculdade, no trabalho. Ela vem para fazer um trabalho voltado à jovem mãe. Temos hoje famílias sendo constituídas cada vez mais cedo. Casais de 19 anos casando sem saber como cuidar de uma criança. Temos estudos que mostram que o afeto é desenvolvido no olhar. E aí eu vou falar de meu Deus. Meu Deus é tão perfeito que o peito da mulher está aqui para amamentar, não está na perna porque a mulher tem que olhar para o olho da criança. Essa troca de olhar desenvolve afeto. E essas novas mães precisam aprender isso, que precisam olhar para os olhos dos seus filhos. A Sara vem para essa coordenação, para ensinar novas técnicas de cuidado e proteção com as crianças.

A questão do aborto a senhora vai continuar deixando fora do Ministério?

Não é função do Executivo lidar com aborto. É um tema do Legislativo e do judiciário. Eu tenho tanta coisa para fazer, tanta mulher sendo machucada no Brasil, tanta jovem desprotegida, nós temos uma geração hoje no Brasil que é a geração nem-nem. Nem está na escola, nem está no trabalho. Eu preciso alcançar essas mulheres jovens, que estão perdidas, as políticas publicas não chegam até elas. Eu não vou cuidar do tema aborto, esse tema já está sendo cuidado pelos grupos feministas, por instituições, está no parlamento. Não vou entrar numa seara que está muito bem conduzida por outros setores.

Um evento que foi feito pelo Ministério em comemoração ao Mês da Mulher, inclusive com a participação da deputada catarinense Ana Caroline Campagnolo, repercutiu porque teve como tema o antifeminismo. A senhora é antifeminista?

Eu sou feminina. Reconheço o trabalho do movimento feminista, tem muitas conquistas deles. Nós discordamos do extremismo. Mas eu estou junto com elas na luta pelo melhor trabalho, igualdade salarial, combate à violência. Mas quero dizer o seguinte. Há um grupo de mulheres nesse país que precisa ser olhado, que é o das mulheres conservadoras, e Ana (a deputada Campagnolo) é a cara desse grupo. Existem muitas jovens no Brasil conservadoras, e eu preciso olhar pra elas também. Todas têm vez e voz no nosso ministério.

Mas quando o ministério escolheu homenagear as mulheres com esse evento não adotou uma posição ideológica?

Não foi o ministério, foi a Secretaria da Juventude. A secretaria levou iniciativas levadas à mulher jovem, e lembrou dessa mulher jovem conservadora. Essa parte da população jovem que não era ouvida no governo anterior. Isso não quer dizer que a nossa política pública vai caminhar nessa linha dos exageros do conservadorismo ou dos extremismos das feministas. Temos políticas publicas muito sérias, muito coerentes.

A senhora falou em Balneário Camboriú sobre políticas públicas para prevenção do suicídio. Como driblar a falta de recursos, já que há congelamento na saúde?

A gente defende a parceria com instituições, empresas, entidades. Como o CVV, que já faz um espetacular trabalho há anos na prevenção ao suicídio. Balneário Camboriú tem um trabalho de parcerias que está dando certo, e em pouco tempo já atendeu mais de 5 mil pessoas. Está dando resultado porque trabalha em parceria com instituições, é o que nós vamos fazer lá (no governo federal).

A senhora trouxe para a Comissão da Anistia alguns nomes que levantaram críticas sobre seu comprometimento com a reparação das famílias das vítimas da ditadura. A senhora concorda que as famílias devem ser reparadas?

Quando chega na Comissão de Anistia um requerimento em que a pessoa realmente teve os direitos violados e foi um perseguido político, ela merece e está tendo indenização. O que aconteceu é que nos temos requerimentos de 2009 que não foram apreciados ainda. O que o povo estava fazendo que não atendeu esses requerimentos? Tem velhinhos morrendo. A gente trouxe um corpo técnico e vamos fazer um trabalho de mutirão, o pessoal está muito motivado, trabalha muito pra analisar todos os requerimentos. Estão falando de uma ou outra pessoa que está na comissão, mas o critério foi muito técnico. São excelentes juristas. Agora, lembrando que (o processo) não se encerra na comissão de anistia. E não é o membro da comissão que decide. É a ministra. E se alguém se sentir incomodado, e achando que foi injustiçado, tem outro segmento que é a Justiça.

A procuradora da República Eugênia Gonzaga, presidenta da Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos, afirmou recentemente que o governo parecer querer inviabilizar a apuração dos crimes da ditadura. O que a senhora tem a dizer sobre isso?

De jeito nenhum. Quem inviabilizou foi o governo anterior, (com) requerimentos de 10 anos parados. Com as ossadas de Perus, encontradas na década de 90 e até hoje ainda não terminaram esse trabalho.

Mas esse trabalho não está suspenso? (por decreto da presidência)

Não está, de jeito nenhum. Está funcionando a Comissão de Mortos e Desaparecidos, todo mundo trabalhando, então quem não fez nada foram eles. Fui entregar semana passada relatórios que estavam 17 anos atrasados. Direitos humanos não estavam sendo levados a serio nesse país. Tinham apenas o discurso.

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O que acontece de mais relevante em boa parte do litoral catarinense, especialmente Itajaí e Balneário Camboriú. Fontes exclusivas e informações de credibilidade nas áreas de política, economia, cotidiano e segurança.

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