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Entrevista

Empresário defende mais conexão entre polos tecnológicos do país

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Estela
Por Estela Benetti
26/07/2019 - 07h57 - Atualizada em: 26/07/2019 - 07h58
Eduardo Glitz. Foto: André Kopsch, divulgação
Eduardo Glitz. Foto: André Kopsch, divulgação

Ex-sócio da XP Investimentos e um dos acionistas da SatartSe, startup multinacional voltada à educação executiva continuada, o empresário Eduardo Glitz fez palestra sobre tendências em educação e tecnologia na recente inauguração do escritório da Martinelli Advocacia Empresarial, no Ágora Tech Park, em Joinville. Antes de ingressar na StartSe junto com outros ex-colegas da XP Glitz visitou mais de 40 países de todos os continentes para ver o que estava sendo feito de inovador e isso tem pautado muitas das suas decisões de investir. Nascido no Rio Grande do Sul, graduado em Administração de Empresas na UFRGS, com MBA em Finanças, ele avalia que as iniciativas em tecnologia no Brasil ainda estão muito desconectadas e se diz impressionado com o avanço rápido da China. Confira a entrevista que ele me concedeu após a palestra.  

O senhor deixou o setor financeiro e passou a investir educação excutiva. Como atua a StartSe, sua empresa atual?

Nossa ênfase é em educação continuada. A gente entende que a educação, como foi concebida no passado, vai deixar de existir, de ter valor. O conhecimento passa a ser mais perecível. A nossa crença é que com o ritmo de evolução do mundo, da tecnologia, da nova economia, das tecnologias, as pessoas vão estar atualizadas com o que está acontecendo hoje e se preparando para o que vai acontecer no futuro. É para isso que a StartSe existe. Temos uma sede no Vale do Silício e outra na China, os dois grandes polos de inovação. A gente promove educação através de eventos e cursos, programas executivos, sempre voltados à educação continuada, focados no que as pessoas precisam.

As demandas para educação executiva são diferentes nos diversos países?

Eu acho que é muito parecido. A demanda está relacionada à preocupação das pessoas, o medo de ficar de fora. É o medo do que vai acontecer com o meu produto, com o meu negócio, com a minha profissão. Esse é um medo verdadeiro, que gera um movimento. O movimento de eu me aprofundar, de entender o que está acontecendo com o meu negócio. Ver como está evoluindo o mercado em diferentes locais do mundo e já aplicar hoje. A educação executiva atualiza gestores para a nova forma de gerir pessoas, de construir uma empresa com propósito. É criar ambientes que têm mindset, que é a cultura do Vale do Silício, que permite o erro, mas de alguma forma recompensa o lucro e o resultado também.

 Vocês oferecem cursos somente para adultos?

Não. Temos a StartSe University no Vale do Silício. Lá reunimos adolescentes para fazer  exatamente o que oferecemos para adultos. Além disso, a gente tem um programa junto com a Junior Achievement, inclusive o meu sócio é board member do conselho da Junior, onde a gente faz esse programa nas escolas públicas. A gente ensina aos estudantes desde o conceito de empreendedorismo, como começar seu negócio, como identificar um problema, como gerir pessoas, como trabalhar empresas e empreendedorismo nessa nova economia e não mais como era no passado.   

 Na sua visão, qual é o maior desafio da educação básica brasileira, sempre apontada como o nosso grande gargalo para o desenvolvimento?

Eu acho que o nosso maior desafio da educação básica brasileira hoje é identificar e maximizar os potenciais de cada aluno. Hoje a educação é feita de forma linear. A gente quer que os alunos tirem oito em tudo, ou tirem 10 em tudo quando, na verdade, eu tenho alguém que pode ser fantástico em matemática e, talvez, não seja tão bom em português. Então, ao invés de eu maximizar ele na matemática, aquele diferencial dele, eu torno ele mediano mas eu quero que ele melhore no português, que ele tirou seis, por exemplo. Então, a educação básica quer que os alunos sejam medianos em todos os assuntos, sem destacar eles em alguns assuntos.

O senhor é um investidor em startups. O que pesa mais na sua decisão para investir?

Negócios são movidos por pessoas, sempre. Então, apenas como exemplo, eu prefiro muito mais investir numa banquinha de cachorro quente de um empreendedor fantástico porque sei que ele será capaz de transformar aquilo numa grande rede de cachorro quente no mundo inteiro, do que em alguém que tem uma ideia fantástica mas não tem nenhuma capacidade de execução, de transformar aquilo em negócio. Hoje a gente diz que ideias não têm valor nenhum. Muita gente chega para mim e diz: você que fez uma volta ao mundo, viu muitos negócios, me dê alguma ideia. A gente tem cases no Brasil como redes de churrascaria e de fast food que se tornaram negócios bilionários. Elas não são nenhuma ideia fantástica, mas foram muito bem executadas. Quem vai executar são os empreendedores. Isso que faz toda a diferença.

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Na sua volta ao mundo, quais foram os polos tecnológicos que mais chamaram a sua atenção? Por que?

Sem dúvida alguma, o que mais me chamou atenção, disparado, foi a China. Tem alguns aspectos em que a China é absolutamente diferente do restante do mundo. O chinês aprendeu a se adaptar muito rápido às novas tecnologias. É o que a gente chama de “Early Adopter” A China mudou de forma drástica nos últimos 5 a 10 anos. A vida das pessoas mudou absolutamente. Elas veem que alguns lugares que há cinco anos eram descampados hoje têm uma cidade. Então, de alguma forma, a vida delas, a rotina delas muda muito rápido. E quando se muda muito rápido, esse ambiente permite que novas tecnologias surjam, sejam testadas, as pessoas se adaptam a elas e voltam. O que é construir negócio? É ir no mercado, ver o que ele acha e voltar. Para que isso seja possível, é preciso de muitas pessoas testando. Então eles têm um mercado Early Adopter e, ao mesmo tempo, há uma força de trabalho altamente dedicada. Hoje, na China, eles têm um lema de trabalho chamado nine nine six, ou seja, das nove da manhã às nove da noite seis dias por semana. Então eles trabalham muito. E trabalhar na China, hoje, é uma questão de honra, ter sucesso profissional é uma questão de honra. Não é à toa que é lá que se vende as maiores quantidades de BMW, Mercedes, Porsche e Ferrari do planeta. É porque as pessoas querem ter sucesso. Se não tiver sucesso, não vai conseguir uma esposa, não vai ser reconhecido na sociedade. Então eles trabalham muito para ter sucesso profissional e, obviamente, isso gera um impacto na economia.

Comparando o Vale do Silício e o que existe de polos tecnológicos no Brasil, o senhor acha que estamos no caminho certo?

O Vale do Silício é muito mais do que apenas um local de terra entre San Francisco e San José, uma faixa de 80 quilômetros. É muito mais um mindset, uma forma diferente de fazer negócios. É replicável, é possível replicar em outros locais desde que sejam criadas as ferramentas para que isso seja possível. No Brasil, há diversos locais. Florianópolis se destaca bastante. Em São Paulo há muitas iniciativas, mas de alguma forma eu vejo que elas estão muito desconectadas umas com as outras. As pessoas não sabem o que está acontecendo num local ou no outro. Há diversas iniciativas começando, embrionárias, em muitos lugares. Há muitas prefeituras, governos, iniciativa privada dispostas a fazer diferente, mas nada ainda super relevante. Mas, com louvor, tudo o que está sendo feito.

 O senhor acha que tinha que haver mais conexão entre o que está sendo feito?

Sim. O que acontece nos Estados Unidos é que tem um polo muito grande e que muita gente vai para lá. É como se todas as empresas fossem para um único local.

 No aspecto ambiental, o que mais chamou sua atenção na sua volta ao mundo?

Há duas coisas a serem destacadas no mundo nesse tema. Primeiro, uma tendência absurda de produtos sustentáveis, produtos orgânicos de comunidades locais. A gente vê muito isso na Austrália, na Nova Zelândia, cada vez mais as pessoas estão se preocupando em fazer uso de produtos orgânicos e locais. Isso é uma grande tendência. A gente tem cases no Brasil como o do Mundo Verde e outros negócios que estão surfando essa onda.

E preocupação, sem dúvida alguma é o plástico. A gente vê alguns movimentos na Europa de países que proíbem o uso de sacolas plásticas. Na Nova Zelândia, sucos e bebidas não fazem uso de embalagens de plástico. De alguma forma isso me impactou muito na volta ao mundo. Quando estive na Tailândia, fui para um local onde os seres humanos não visitavam há muito tempo, uma praia. Essa praia era absolutamente lotada de lixo, desde a garrafinha de água, canudo, fralda, copinho. Só que alquilo ninguém vê, foi caindo no mar e se acumulando. Me chocou ver um macaco brincando com uma garrafinha de água de plástico que estava boiando no mar. Isso fez eu pensar de forma absolutamente diferente em relação ao plástico.

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Estela Benetti

Colunista

Estela Benetti

Especialista na economia de Santa Catarina, traduz as decisões mais relevantes do mercado, faz análises e antecipa tendências que afetam a vida de empresários, governos e consumidores.

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