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"Os setores que estão reagindo são todos ligados a crédito", diz Zeina Latif

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Por Estela Benetti
14/11/2019 - 06h29
Economista Zeina Latif será uma das palestrantes no Expert Talks, em Florianópolis Foto: Divulgação
Economista Zeina Latif será uma das palestrantes no Expert Talks, em Florianópolis Foto: Divulgação

Passada a reforma da Previdência, o mercado agora vai acompanhar os sinais de retomada, os ‘brotos verdes’ que estão aparecendo na economia. As afirmações são de Zeina Latif, economista-chefe da XP Investimentos.

Ela será uma das palestrantes no Expert Talks Floripa, grande evento de finanças pessoais e investimentos que a XP fará nos dias 22 e 23 deste mês, no Centrosul, em Florianópolis. Nesta entrevista, ela fala também do momento favorável do agronegócio no exterior e da necessidade de continuar as reformas.

Como vê o cenário econômico internacional para os próximos meses?

Eu penso que o comércio mundial, por questões de guerra comercial e políticas mais protecionistas em alguns países, ainda tem mais para enfraquecer. A gente tem uma indefinição ainda sobre a guerra comercial Estados Unidos e China e, mesmo que seja fechada essa fase 1 do acordo em andamento, é a primeira fase, ainda tímida, muito mais na linha de evitar piora do que eliminar tarifas.

Se algo ocorrer nesse sentido, será ainda marginal. E há dúvida em relação ao próprio time dessa primeira etapa. A China solicitou a eliminação de algumas tarifas rapidamente e é claro que Donald Trump, às vésperas de campanha para a reeleição, não vai fazer essa sinalização. Apesar de negociações, a gente não sabe bem quando, de fato, teremos a fatura e exatamente o conteúdo.

Agora, suponhamos que tenha bom resultado, é apenas a primeira etapa e nada que repercuta no comércio mundial. Então, pensando hoje no cenário geral internacional para o ano que vem, pelo menos no primeiro semestre, está um cenário que vamos ter números da economia mundial ainda mais fraco. O que tem segurado um ambiente de baixa volatilidade do mercado e apetite para risco, foi exatamente o corte de juros pelo Fed, o banco central dos Estados Unidos. Então este ano, que foi de desaceleração, eu tinha muito medo de volatilidade. Aí quando veio a sinalização do Fed de corte de juros isso gerou acomodação grande reduziu a volatilidade lá fora, com repercussões aqui. A minha dúvida é o fôlego disso.

Digamos que o Fed fale que não tem mais razão ou munição para cortar juros e, mesmo assim, a economia mundial não retomou. Está num ritmo estável e desacelerando. Isso é potencial para volatilidade. Então, do ponto de vista do comércio internacional, no ano que vem, teremos pressões por tarifas comerciais com idas e vindas, um mundo que ainda desacelera e eleições nos Estados Unidos. É um quadro muito desafiador, estamos pisando em gelo fino. O quadro é de estagnação, mas é difícil pensar que isso é duradouro. O quadro internacional pode não atrapalhar, mas não vejo algo que vá ajudar internamente a economia brasileira.

A guerra comercial EUA-China está ajudando o Brasil? Quem mais ganha?

Não há dúvida de que a agropecuária está sendo favorecida. Mas não é só a guerra comercial. A peste suína também vem ajudando. O comércio mundial está estagnado, isso atrapalha todos os setores, mas a agropecuária ficou não só blindada, mas se beneficiou na margem. Esse é um canal. O outro canal é a depreciação cambial. Esse comércio mundial fraco implica num fortalecimento na moeda americana. Isso aumenta a rentabilidade das exportações. Então, a agropecuária ganha por dois canais. Pelo volume embarcado e pela cotação do dólar.

Há mais de um mês, o presidente Bolsonaro sinalizou que poderia rever a regra do teto de gastos. Por que a sra. se posicionou contra?

Isso, na minha visão, seria um grande equívoco. A relação custo-benefício de flexibilizar a regra do teto é muito ruim. Isso poderia afetar a política do Banco Central de redução de juros e até de manutenção de taxas mais baixas por um período prolongado e seria uma sinalização muito ruim para agências de rating. Ao mesmo tempo, os ganhos para investimentos públicos seriam muito limitados. Além disso, a qualidade do investimento público é muito ruim. Então, liberar para fazer investimento público de baixa qualidade, francamente eu acho melhor não fazer.

Quando Bolsonaro especulou essa dessa possibilidade, eu, pessoalmente, fiquei bastante preocupada. O Paulo Guedes conseguiu demover o presidente dessa ideia e a resposta para isso são essas medidas de ajuste fiscal que estão sendo anunciadas. Infelizmente, apesar da reforma da Previdência ter tido a estimativa de um bom impacto fiscal, ela não é suficiente para cumprir a regra do teto nos próximos anos e aliviar um pouco o investimento do setor público, que tem previstos para o ano que vem apenas R$ 19 bilhões. Então, é por isso que o ministro Paulo Guedes avançou com medidas de ajuste fiscal.

Como a sra. avalia o pacote de medidas com três PECs anunciado dia 5?

Nesse pacote de medidas que necessitam de mudança constitucional tem de tudo. Pessoalmente, eu diria que é uma estratégia arriscada mandar para o Congresso muitos temas polêmicos num momento em que não há a mesma janela para aprovação de reformas. A gente tem temas polêmicos, medidas constitucionais num contexto de eleição no ano que vem. Então, eu imaginaria que o ideal seria deixar claro que há uma agenda e mandar aos poucos no envio ao Congresso. Até porque se a medida está no Congresso e demora para ser apreciada, fica sujeita a reação da oposição para mudar a medida. Então, do ponto de vista estratégico, acho que não foi a decisão mais sábia.

E sobre as medidas?

Quando a gente olha o conjunto de medidas, elas vão na direção correta. Aí tem de tudo também. Há medidas emergenciais e há medidas mais estruturantes, de longo prazo. Vou dar um exemplo. Uma das partes da PEC do Pacto Federativo revê renúncias tributárias do governo. Meta de reduzir de 4% do PIB para 2% do PIB. Para as pessoas, pode ser fácil. Vai lá e reduz um pouquinho por ano. Mas não é bem assim. Vai ter que ter medidas legislativas, mais elaboração disso.

O que tem nessa lista de renúncia tributária? Tem o Simples, as várias isenções do Imposto de Renda, tem tributação de instituições sem fins lucrativos, e tem a Zona Franca de Manaus que é constitucional. Então, não é tão simples. São temas que vão necessitar de discussões paralelas. Não é para já. A gente quer reduzir renúncias fiscais. Isso está na decisão correta, o Brasil está destoando da experiência internacional, a gente precisa rever cada uma delas. Tem política pública que continua, como o próprio o Simples, sendo que tem pesquisa acadêmica que mostra que o Simples não foi efetivo para atingir os objetivos. Então é claro que o Brasil precisa reavaliar essas políticas públicas, mas terá que vir com outra legislação.

Aí tem também coisa do tipo divisão de recursos do Pré-Sal com os Estados. São R$ 400 bilhões para os Estados em 15 anos. É muito dinheiro. Mas o governo fala que em contrapartida vai querer reformular a relação do Tesouro Nacional com os entes subnacionais. Aí não poderá mais fazer socorro a partir de 2026, não vai ter mais aval da União para empréstimos, só se for para organismos internacionais, vai acabar com o contencioso da Lei Kandir. A partilha vai ser aprovada. O meu medo é aprovar o bônus e não o ônus. Isso ocorreu em 2016 quando as dívidas dos Estados foram renegociadas. O Congresso aprovou o acordo, mas não as contrapartidas.

Qual é a PEC mais importante?

Acho que a prioridade do governo, provavelmente, será a PEC Emergencial. Eles não falaram mas é a mais importante porque tem a ver com a gestão de curto prazo das contas públicas, de atendimento da regra do teto e da regra de ouro, que precisa de uma reformulação. Acho que, como é emenda constitucional, é praticamente impossível aprovar este ano.

Emenda constitucional tem que passar no Senado e na Câmara. Se passar no Senado, acho que a Câmara a gente tem que esperar. O Congresso precisa aprovar isso no primeiro semestre. Depois, os parlamentares vão cuidar de outros temas e das eleições. Não há dúvida de que são medidas na direção correta. A dúvida é o time e temas polêmicos que vão precisar do devido debate democrático, mas é o caminho a seguir para fazer a tal consolidação fiscal.

A reforma da Previdência já foi precificada pelo mercado?

Já foi precificada. A grande questão era a aprovação. Quando Senado aprovou a bolsa mudou de patamar e os preços dos ativos melhoraram. Mas daqui para a frente, acho que não terá mais impacto no mercado. Foi a Previdência. Viramos a página. O que o mercado agora vai monitorar é a capacidade de entrega das reformas e, obviamente, acompanhar esses sinais, esses brotos verdes que a gente está vendo na economia.

O que a sra. chama de brotos verdes na economia?

São esses sinais mais positivos de atividade econômica. Os setores que estão reagindo são todos ligados a crédito num primeiro momento. O Banco Central começou a cortar juros ainda no governo Temer. Isso demorou para a gente sentir na economia porque a situação das empresas ainda está financeiramente frágil. Mas esses indicadores frágeis para as empresas limitavam também a oferta bancária.

Temos que lembrar que, no Brasil, enquanto as empresas estão com dificuldades há uma limitação do impacto na atividade econômica. O mercado de crédito, com uma dinâmica muito mais produtiva, está sofrendo menos essa estagnação. O crédito livre está com uma dinâmica positiva. Os primeiros setores econômicos a retomar são os sensíveis a crédito. Estou falando de construção civil e da venda de bens duráveis.

Então, por esse aspecto, a gente ainda está nos estágios iniciais desse movimento de recuperação que tende a ganhar tração. A dúvida é que, para ter um movimento melhor, a gente precisa de retomada do mercado de trabalho e isso ainda é uma grande dúvida. Aqui há uma preocupação tanto por mercado de trabalho tradicional quanto estrutural. Se a gente fala de uma indústria fragilizada, claro que o potencial de geração de emprego na economia não é o mesmo. Se você tem uma parcela de desempregados que não está conseguindo recolocação, é que o desemprego estrutural pode ser maior do que se imagina.

Olhando para alguns números, pode-se pensar que a economia vai voar. Mas há questões estruturais que limitam essa recuperação.

Quanto a XP está prevendo para a alta do PIB no ano que vem?

A nossa projeção aqui na XP é de 2,1%. Está em linha com o consenso do mercado. Na minha visão, a boa notícia é que há recuperação, ainda que modesta, e que os riscos de ter grandes decepções diminuíram. A gente vê, de fato, a economia ganhando uma tração. Esses efeitos são ainda dos cortes de juros do passado, não os mais recentes, porque isso demora para se materializar na economia. E o mais importante, que não são coisas de impacto imediato, mas vão gerando lentamente uma dinâmica mais favorável para o investimento, que são os leilões de infraestrutura e o próprio Pré-Sal. O leilão da Petrobras, apesar da decepção, vai resultar em investimentos.

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Especialista na economia de Santa Catarina, traduz as decisões mais relevantes do mercado, faz análises e antecipa tendências que afetam a vida de empresários, governos e consumidores.

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