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    #TBT NA PANDEMIA 

    A foto que voltou as minhas mãos 54 anos depois

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    Mário
    Por Mário Motta
    12/06/2020 - 14h09 - Atualizada em: 12/06/2020 - 15h33
    São Joaquim
    São Joaquim foi testemunha de mais uma emoção vivida em Santa Catarina. (Foto: Notiserra)

    Dezembro de 2012: depois de dar um giro pelo Estado de Santa Catarina na condição de âncora do Jornal do Almoço, à frente de um interessante projeto denominado Redação Móvel, estava voltando para casa.

    O Projeto Redação Móvel levantou as prioridades estabelecidas nas propostas dos candidatos que venceram as eleições dois meses antes nas principais cidades do Estado e a TV me encarregou de entregar essas prioridades por escrito aos eleitos, representando os habitantes de suas cidades, seus eleitores ou não.

    Depois de passar por Lages, que em 2012 elegeu como prefeito Elizeu Mattos (PMDB) e lhe entregar o documento em praça pública e ao vivo na TV, voltava para Florianópolis com mais um trabalho concluído.

    Rumo a capital eu viajava só e também por isso resolvi ir sem pressa. Tracei o caminho via São Joaquim e assim era possível aproveitar para rever amigos. Faço isso sempre que posso e há qualquer tempo sempre é possível entrar em uma pequena ou grande cidade e visitar alguém que você não vê há algum tempo. Nem que seja apenas para lhe dar um abraço, saber como ele está, indagar dos familiares e seguir adiante. Afinal, nunca se sabe quando isso não mais será possível, por você ou pelo amigo visitado. Essa definição de tempo está fora do nosso controle.

    Em São Joaquim, me esperava o radialista Rogério Ramos, com quem trabalhei por muitos anos na cidade de Lages e que já aposentado, mantinha como hobby um programa de entrevistas aos sábados pela manhã na Rádio Difusora/1530 AM, emissora pertencente ao empresário Rogério Pereira (Pirata).

    Tão logo subi os degraus que levavam ao segundo andar do pequeno e agradável prédio em que a emissora funciona no centro da cidade, fui recebido por algumas pessoas que me conheciam pessoalmente ou apenas pela televisão, mas que atraídos pelas chamadas feitas pelo Rogério de que eu estaria no programa com ele, foram me dar um abraço, um carinho, enfim uma atenção como se fôssemos velhos conhecidos (e na verdade éramos mesmo).

    Essa é a magia do picadeiro eletrônico chamado Televisão e é um dos mais importantes legados que ela nos dá e que se bem compreendido nos enche de alegria e faz valer cada segundo em vida. Depois da entrevista que tomou quase toda a manhã, muitas outras pessoas vieram aos estúdios da Difusora, afinal a cidade não é tão grande, a emissora é bem ouvida e o sábado era de um sol deliciosamente quente para um dezembro relativamente frio.

    Findo o programa, um senhor bem vestido, de cabelos brancos, sentado calmamente num canto da sala mantinha-se em silêncio, atento a tudo. Perguntei quem era e o Rogério me disse: “Aquele é o seu Zé da Celesc”.

    José Santos de Martim chegou em São Joaquim no dia 20 de julho de 1965 já casado com dona Nair de Martim. Ele subiu a serra juntamente com uma turma da Centrais Elétricas de Santa Catarina – Celesc para implantar em São Joaquim, a primeira subestação que permitiria o fornecimento da energia elétrica para a cidade.

    A inauguração dessa unidade aconteceu em dezembro daquele mesmo ano e quase todos que trabalharam em sua implantação foram embora, mas ele ficou e desde então tornou-se o “Zézinho da Celesc”, uma espécie de gerente regional que subia em postes quando necessário ou recuperava quedas de energia nas residências com muita dedicação e capricho. Aposentou-se há alguns anos, mas continuou residindo em São Joaquim juntamente com sua esposa.

    Quando todos se foram, o estúdio da emissora ficou liberado, ele veio em minha direção, se apresentou humildemente e me entregou um envelope em cujo interior havia uma fotografia já amarelada pelo tempo. Na foto, eu criança.

    A fotografia que voltou para minhas mãos 54 anos depois.
    A fotografia que voltou para minhas mãos 54 anos depois.
    (Foto: )

    Sim, era essa foto em preto e branco do menino Marinho, o sanfoneiro de quatro baixos com sua gaitinha e uma dedicatória com a inesquecível caligrafia de minha mãe Nhá Fia:

    “À Senhorita Magali, com o abraço do Marinho. Penápolis, SP, 08 de dezembro de 1958”.

    Tremi na base emocionado.

    Mais de meio século depois, aquela fotografia voltava às minhas mãos e com ela, incríveis lembranças da cidade de Penápolis, por onde passamos com o Circo em pelo menos duas temporadas maravilhosas. Cidade que recebeu esse nome em homenagem ao Presidente Afonso Pena falecido na época em que ela foi transformada em Villa de São José do Rio Preto e mais tarde de Bauru e elevada à condição de município em 22 de dezembro de 1913.

    Em Penápolis estudei parte do meu primeiro ano do curso primário num Grupo Escolar vizinho ao Circo que, em 1964, estava armado em frente a uma grande fábrica de bebidas (Bebidas Pesquero). Anos mais tarde, numa segunda temporada do Circo em Penápolis, já no final da quinta série, estudei no Instituto de Educação Dr. Carlos Sampaio Filho, cujo prédio imponente ainda fica na Praça principal que tem o mesmo nome da unidade escolar.

    Mas, como aquela foto foi parar nas mãos desse senhor em São Joaquim? Minha curiosidade foi satisfeita quando ele disse que sua esposa era paulista e teria vindo da região de Penápolis. Há uns dois anos, quando visitavam seus parentes em Borborema (cidade vizinha à Penápolis), na casa de uma tia de sua esposa a visita coincidiu com o horário do telejornal SP TV 1a. Edição, programa exibido em São Paulo no mesmo horário em que eu apresento o Jornal do Almoço da RBS TV, há 33 anos em Santa Catarina, inclusive com o mesmo cenário padrão da Rede Globo. Na conversa surgiu o assunto do apresentador de SC que era filho de circenses e seu Zezinho lembrou que o Circo de meus pais já havia passado pela região quando eu ainda era um menino.

    Ao ouvir a história, a tia de dona Nair se levantou, abriu a gaveta de uma cômoda com muitas fotos antigas guardadas, tomou essa foto e indagou: “Seria esse o menino da TV lá de Santa Catarina?” Pois não é que era! Pois a tia de sua esposa a quem eles visitavam é a “senhorita” Magali (do autógrafo).

    Emocionada ela pediu: “Então levem a foto e quando o encontrarem, diga-lhe que nós nunca esquecemos de suas passagens com o Circo dos pais por aqui. Diga ainda que um banco que o Motinha doou para nosso jardim continua nos servindo, embora numa praça secundária da cidade. Mas na memória e no coração de nossa gente, eles continuam sendo lembrados e reverenciados”.

    Olha o banco que até hoje está servindo os Penapolenses.
    Olha o banco que até hoje está servindo os Penapolenses.
    (Foto: )

    A história desses bancos pode ser tema para uma coluna próxima, pois bancos como esse estão distribuídos ainda hoje por onde passamos com o Circo, como que agradecendo o carinho recebido e assinando nossa gratidão por tudo o que recebemos do povo de cada cidade.

    O Circo Teatro Motinha e Nhá Fia havia passado por Borborema e uma amizade muito sincera surgiu entre o casal Benedito e Magali e meus pais. Quando o Circo mudou para Penápolis, eles vinham quase todas as noites assistir os espetáculos e numa dessas oportunidades minha mãe lhe deu a foto que selou essa relação por tantos anos. Falei recentemente com dona Nair em São Joaquim e ela relembrou o episódio com muita emoção.

    A foto que ficou guardada por 54 anos, voltou a integrar meu arquivo com um valor imensurável e com o advento do Facebook e demais redes sociais pude dividi-la juntamente com a história, com moradores atuais e antigos daquelas cidades – Penápolis e Borborema - que tanto aprendi a gostar e, agora, com vocês e todos os amigos que tive o privilégio de angariar desde então.

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