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Sadismo?

'Qual a razão de o WhatsApp comunicar que uma mensagem foi apagada?'

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Por Martha Medeiros
14/02/2020 - 08h00
Divulgação

Tenho certeza de que já aconteceu de você começar a discar um número (na época do telefone discado) e desistir antes de completar a ligação. “Não, não vou ligar agora, é tarde, vou deixar pra amanhã”. Também já deve ter escrito uma mensagem por e-mail e deletado antes de enviar. “Ih, bebi demais, vou acabar me arrependendo de ter escrito isso”.

Em uma noite de sábado, ficou dentro do carro estacionado na frente do prédio de alguém, pensando: “Entro ou não entro?”. Saiu do carro, caminhou até o painel do porteiro eletrônico, chegou a posicionar o dedo em direção ao número do apartamento desejado e pensou: “E se ela estiver com outro?”. Voltou para o carro, deu a partida no motor e sumiu na escuridão, sem saber que ela estava sozinha e que se você tivesse tido a coragem de se anunciar pelo interfone, o destino de vocês teria sido espetacular. Seu banana!

Qual a vantagem de o interlocutor ser avisado de que alguém desistiu do que escreveu pra você?

Ela nunca soube. Ninguém nunca soube das nossas desistências. Aquela vez que quase entramos na sala do diretor para pedir demissão, mas recuamos. A vez que quase tentamos o suicídio, mas caímos na real antes de fazer a besteira. E mais uma tonelada de “quases” que também fizeram parte da nossa história, mas que os outros não foram informados. (Fiquei imaginando agora que meu personagem, aquele que voltou para o carro, deveria se declarar para a moça do apartamento, mesmo com 20 ou 30 anos de atraso – seria uma cena poética, ainda que nada se possa fazer com um amor desperdiçado).

Mas não é sobre poesia essa crônica. É sobre sadismo essa crônica. Chegamos ao assunto: qual a razão de o WhatsApp comunicar que uma mensagem foi apagada? Ora, se a pessoa se arrependeu do que enviou, ela apaga discretamente e fim, encerrado o assunto. Qual a vantagem de o interlocutor ser avisado de que alguém desistiu do que escreveu pra você? 

Sadismo. Você nunca saberá se a pessoa apagou porque cometeu um atentado contra a ortografia, ou porque se deu conta de que estava num grupo onde havia alguém que não poderia ler aquilo, ou porque fez um comentário político e estremeceu ao lembrar a enxurrada de agressões que receberia. Animal! Demente! Ignorante! Vá que não estivesse num dia bom para lidar com o linchamento usual. Melhor não. Nada de política hoje. Essa mensagem foi apagada.

Qual a bomba que terá sido desativada a tempo? Por alguns minutos, ficamos especulando. Uma traição seria denunciada. Viria uma fofoca daquelas. Uma foto que faria o governo cair. O pedido de perdão que tanto aguardávamos. Um nude! Claro, um nude é bem provável. A mensagem não teria sido apagada por causa de um simples erro de digitação, certo que era uma obscenidade das boas – e que nunca adivinharemos.

Sadismo, WhatsApp, sadismo.

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Martha Medeiros

Escritora e cronista best-seller com livros adaptados para a TV e cinema. Escreve sobre o cotidiano, o dia a dia e temas de interesse comum.

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