nsc
nsc

INCOERÊNCIA

"Somos perversos e adoráveis, somos amorosos e cruéis"

Compartilhe

Martha
Por Martha Medeiros
07/02/2020 - 14h19 - Atualizada em: 13/02/2020 - 17h25
Foto: Pixabay, banco de imagens

Foi muito divulgado. No interior do Rio Grande do Sul, um homem atirou sete vezes na namorada, durante uma briga, e acertou cinco tiros. A moça foi socorrida e sobreviveu. No dia do julgamento, a vítima dava o depoimento quando, de repente, pediu licença ao juiz, aproximou-se do agressor e, de forma totalmente inesperada, tascou-lhe um beijão na boca. Um beijo apaixonado. No dia seguinte, a foto estava estampada no jornal e todos nós de queixo caído.

Nas redes sociais, os palpites resumidos de sempre. “Síndrome de Estocolmo”. “Desserviço ao feminismo”. “Ignorância”. “Cavando a própria sepultura”. Etc, etc. Os psicanalistas foram chamados a explicar. Lembraram que antes de acontecer uma violência física, há um longo período de violência psicológica que estraçalha a autoestima da vítima: ela acredita que não será ninguém sem o amor daquele homem. Por não conseguir se libertar, fantasia que o amor será mais forte e salvará a relação no final.

As estatísticas estão aí para quem quiser ver. O perdão não vai salvá-la. O amor não vai salvá- la. Ela morre no final. A foto perturbou a mim e a todos, pois escancara o quanto somos frágeis e trazemos desejos submersos, originados sabe-se lá por quais desvios. A gente se esforça para manter uma versão ajustada de si mesmo, para entregar à sociedade um perfil que seja condizente com o que se espera de um cidadão sensato, e até que nos saímos bem: ninguém costuma desconfiar das nossas fraturas emocionais e as consequências.

Por não conseguir se libertar, fantasia que o amor será mais forte e salvará a relação no final.

Só dentro de casa, protegidos dos olhares e do julgamento alheio, é que liberamos nossas carências, traumas, fetiches. Entre quatro paredes, nossos sentimentos ocultos e contraditórios ganham permissão para conviverem. É quando a raiva e o amor deitam-se na mesma cama, o ódio e a compaixão sentam-se à mesma mesa, a dor e o prazer dão-se às mãos no sofá.

Somos perversos e adoráveis, somos amorosos e cruéis. Mas temos uma natureza preponderante, essa que postamos no Facebook e Instagram, essa que nos acompanha ao escritório, nas ruas, no shopping. Somos reconhecidos como pessoas perfeitamente adequadas, equilibradas. Poucas são as testemunhas oculares das nossas convulsões internas, quase ninguém conhece a fundo nossas contradições.

O brutal pode vir acompanhado de extrema excitação. É a contradição que a moça agredida revelou às claras, sem nenhuma espécie de censura ou pudor. Ela despiu-se das camadas que revestem nossa pretensa normalidade e deixou a plateia perplexa e, ao mesmo tempo, embaraçada. Exibiu a instabilidade para as lentes dos fotógrafos, demonstrou o efeito tirânico de uma relação abusiva para os jurados e para quem mais quisesse ver – só que nunca queremos.

Leia outras colunas de Martha Medeiros.

Deixe seu comentário:

Martha Medeiros

Colunista

Martha Medeiros

Escritora e cronista best-seller com livros adaptados para a TV e cinema. Escreve sobre o cotidiano, o dia a dia e temas de interesse comum.

siga Martha Medeiros

Últimas do colunista

Loading interface...
Martha Medeiros

Colunista

Martha Medeiros

Escritora e cronista best-seller com livros adaptados para a TV e cinema. Escreve sobre o cotidiano, o dia a dia e temas de interesse comum.

siga Martha Medeiros

Mais colunistas

    Mais colunistas