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    Vida em seu sentido original

    Você não estava aqui: o filme não parece ficção, mas um documentário da atualidade

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    Martha
    Por Martha Medeiros
    13/03/2020 - 07h00 - Atualizada em: 20/03/2020 - 13h05
    Foto: Divulgação
    Foto: Divulgação

    Não há como não se sentir angustiado assistindo a “Você não estava aqui”, filme de Ken Loach, o mesmo diretor do multipremiado “Eu”, Daniel Blake, que tratava sobre o isolamento de idosos que não conseguem se encaixar na sociedade informatizada. Desta vez, Loach mostra as consequências da informalidade e do trabalho autônomo como única opção. Nada de férias remuneradas, seguro saúde, seguro desemprego, aposentadoria. É pegar ou largar.

    No filme, Ricky, 44 anos, é um ex-empregado da construção civil que passou a ser um faz-tudo depois da crise de 2008. Sem serviço, ele procura uma franquia de entregas, compra uma van com o resto das economias e vira motorista por conta própria, trabalhando seis dias por semana, de manhã à noite, cumprindo uma escala que não lhe dá tempo nem de ir ao banheiro. Aos poucos percebe que o sonho de ser patrão de si mesmo é um engodo que o deixa cada dia mais miserável, e não só financeiramente.

    Desta vez, Loach mostra as consequências da informalidade e do trabalho autônomo como única opção.

    A família inteira degringola. A esposa dele é uma cuidadora que também passa o dia fora, deslocando-se até os pacientes sem vale transporte. A filha de 11 anos chega da escola e, sozinha, prepara o próprio jantar. O filho de 15 anos mata aula para pichar muros, está cada dia mais calado e prestes a se meter em encrenca. Como dar atenção às crianças estando ausente, mal conseguindo respirar para pagar as contas? Através de gravações de áudio, na corrida entre uma tarefa e outra.

    O que mais deprime é que o filme não parece ficção, e sim um documentário sobre a atualidade. Empreender é uma opção quando se tem suporte, reservas, uma boa rede de contatos. Para quem está sempre começando do zero, é uma ilusão. Você não pode adoecer. Não pode envelhecer. Não pode viver – só trabalhar. Ao longo dos 100 minutos do filme, há uma única cena descontraída: pais e filhos cantam e dançam juntos, dentro da van, uma música alegre. Brevíssimos segundos em que a vida volta ao significado original.

    Ao longo dos 100 minutos do filme, há uma única cena descontraída: pais e filhos cantam e dançam juntos, dentro da van, uma música alegre.

    Um pão quente saindo do forno. Flores frescas enfeitando a sala. Um casaco novo para o inverno. Um encontro com uma amiga para um café e um papo. Tempo para ler um livro. Um passeio até a beira do lago. Passar um batom para ficar mais bonita. Abrir uma cortina e deixar o sol entrar. Adotar um cão ou um gato. Entrar em uma banheira com água morna. Momentos agradáveis. A vida fluindo. Nada disso acontece quando a única missão é sobreviver. Não há relaxamento ou prazer. Contam-se os centavos, reza-se por dias melhores e dorme-se. Sexo? Um raro luxo para os menos exaustos.

    Cinema é arte. Civiliza, humaniza e desperta nossas consciências, por isso é tão imprescindível. Mesmo quando não se vê beleza nem luz entrando pelas frestas.

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