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Entrevista

"O governo precisa reverter o desmatamento", diz embaixador alemão Georg Witschel

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Moacir
Por Moacir Pereira
19/10/2019 - 06h00
embaixador
Diplomata alemão Georg Witschel
(Foto: )

Presença frequente nos eventos econômicos e culturais de Santa Catarina, o diplomata alemão Georg Witschel fala sobre as relações comerciais com o Brasil e alerta para os compromissos do governo brasileiro em relação ao desmatamento da Amazônia. Leia a entrevista:

Qual a importância da exposição “Origens Alemãs do Sionismo”?

Em 9 de novembro de 1989, caiu o Muro de Berlin.Fim da separação de Berlin e da Alemanha na Europa, ocasião para celebrar e para recordar. O Muro de Berlin não caiu do céu. Foi o resultado de outro 9 de novembro, em 1938, quando se registraram os incêndios nas sinagogas, os assassinatos de 200 pessoas, a chamada “Noite de Cristais”. Por isso, celebrando a queda do muro e a reunificação da Europa, indica-se também a lembrança do nazismo, da “Noite dos Cristais”, da Segunda Guerra Mundial e o fim da guerra com a derrota total da Alemanha.

A exposição não cobre esta era do nazismo. Mas é importante revelar que existe uma história judaico-germânica, muito mais abrangente do que os anos do nazismo. O sionismo que começou no século XIX tem fortes raízes na Áustria e na Alemanha. A língua do sionismo, por exemplo, era o alemão. Esta relação entre alemães e judaicos havia coexistência entre os dois, mas também uma certa tensão. Por isso, o desejo dos sionistas de encontrarem a própria Pátria, Israel. Uma das raízes do sionismo está na Alemanha.

Esta sua visão é muito pouco conhecida.

Sim! A a exposição procura justamente informar sobre estes fatos históricos. Ela é ainda visível na história de Israel.Veja que 12 mil soldados judeus morreram na Primeira Guerra Mundial, defendendo a Alemanha. Você tem muitas famílias clássicas judias com nomes de origem germânica. Infelizmente, o antissemitismo nunca sumiu por completo. Outra razão da exposição é o de informar para lutar contra o antissemitismo.

Ainda recentemente, no interior da Alemanha, um alemão jovem tentou invadir uma sinagoga. Este homem ainda odeia os judeus. Tinha um plano diabólico de invadir a sinagora. Graças a Deus, não conseguiu o objetivo. Isto nos mostra que, apesar de todas as lições do passado, há radicais. Qual o resultado do nazismo, da Noite dos Cristais, da Segunda Guerra Mundial? Para a Alemanha foi a maior derrota politica, militar e moral da história. Mesmo com uma lição tão clara, absolutamente equivocada, existem pessoas antissemitas, antimuçulmanas, homofóbicas, loucas e perigosos.

A luta para informar melhor tem que continuar.É preciso defender maior integração e, sobretudo, mais tolerância.

Como o senhor viu a Oktoberfest?

Muito boa! Com boa cerveja, salsicha, música e uma banda de jovens mineiros, com autoridades, um ambiente bem alegre, clima maravilhoso, está realmente muito boa. Temos, de outro lado, alguns temas problemáticos, como o ensino da lingua alemã. Há um círculo vicioso: não há professores suficientes para o ensino do alemão. Conversamos como estimular a formação de professores.

Achamos que o governo estadual tem que incentivar mais, planejar melhor o estudo do alemão. Os municípios tem também que pagar professores para o ensino do alemão, italiano ou inglês. Criar as condições para ensino de uma segunda língua estrangeira. Inglês é fundamental, mas em Santa Catarina, por razões históricas e culturais, também o alemão.

E, sobretudo, como ganha pão, um futuro melhor, novas oportunidades. Temos várias empresas alemães em Santa Catarina que tem empregos valiosos, sem profissionais por desconhecimento da língua alemã. A Alemanha tem uma importante lei de imigração de mão de obra qualificada. A partir de 1 de março de 2020, a Alemanha vai importar 270 mil pessoas qualificadas. Pode ser engenheiro, enfermeiro, profissional qualificado. Mais de 50% de países fora da União Européia. São 140 mil pessoas por ano que podem trabalhar na Alemanha. O sul do Brasil, como Santa Catarina, tem uma mentalidade semelhante a nossa, tem mão de obra especial e muitas pessoas que tem uma ideia do alemão. É uma primeira razão para aprender o alemão. A segunda é mais fácil. Jovens brasileiros, entre 18 e 30 anos, pode conseguir um visto especial “Work and travel”, para trabalhar e viajar. Após a formatura podem ter direito a trabalho até seis meses na Alemanha e mais seis meses viajando, sem qualificação.

Temos 1.000 vistos de brasileiros na Alemanha e 1.000 de alemães para o Brasil. Este programa tem muitas vantagens. Jovens podem viajar, enriquecer, visitar famílias, trabalhar um pouco e encontrar oportunidades de trabalho, fazer novas conexões. São dois programas com muitos estímulos que abrem novas perspectivas.

Temos este ano datas históricas sobre imigração alemã. São celebrações do dr. Herman Blumenau e de Fritz Müller, a cargo da municipalidade e do Consulado em Porto Alegre. No próximo ano os 200 anos da imigração alemã no Brasil, a comemorar em São Leopoldo. Mas queremos mostrar também a nova Alemanha, um país moderno, uma nova relação diplomática, oferecer oportunidades aos jovens, sem esquecer o passado.

:: Embaixador da Alemanha no Brasil rouba a cena na Oktoberfest de Blumenau

Como estão as relações Brasil-Alemanha?

Relativamente bem. Claro que temos relações um pouco difíceis com este governo. Falamos com o governo do Brasil e não sobre o governo do Brasil. Tivemos duas visitas de ministros da Alemanha e dois telefonemas da sra. Merkel ao presidente Bolsonaro, e três visitas de ministros brasileiros a Alemanha. Estamos dialogando, mas temos preocupações, sobretudo sobre desmatamento. Fizemos apelos ao governo para reduzir os desmatamentos. Dialogamos em pé de igualdade e não numa perspectiva arrogante. Apesar das preocupações sobre o meio ambiente, as relações são sempre intensivas.

Há perspectivas nas relações comerciais?

Sim, e são boas. Em destaque, em infraestrutura, mercado de ônibus, caminhões e veículos, mercados de produtos químicos melhorando. O trabalho do governo em economia, com o ministro Paulo Guedes, é bastante bom. Empresários alemães sempre me relatam que há portas abertas, diálogo construtivo. E fatos positivos: reforma da Previdência, reforma tributária, sobretudo facilitar o sistema de pagamentos, “menos Brasília e mais Brasil, muito bom. Nossas preocupações são os indígenas, alguma coisa de direitos humanos. Mas, sobretudo, o desmatamento. Neste âmbito é muito ruim que alguns do governo digam que as estatísticas são falsas. Isto é muito ruim.

O importante agora é que o governo diga publicamente quer vai reduzir o desmatamento ilegal a zero por cento. Esta seria uma boa mensagem para o mundo. Palavra é uma coisa; ação é outra. Acionar o Ibama, os governadores, as Policias Militares, ações concretas para reduzir o desmatamento ao nível de 2016. Isto seria um grande sucesso, uma virada no plano mundial.

>> Saiba como o desmatamento na Amazônia afeta Santa Catarina

O que está faltando?

Precisamos de um sinal público do presidente, dos ministros: “Sim, vamos lutar contra a criminalidade. Vamos lutar contra o desmatamento ilegal, que é uma forma de crime organizado. Não são os pequenos fazendeiros. São palavras, medidas e atos corretos, que ajudariam muito para acertar a ratificação do acordo do Mercosul. Ao contrário, mais desmatamento, faz o trabalho do meu governo, que quer a ratificação do Mercosul. Cada vez mais difícil.

E o apoio à OCDE?

Havia a promessa do presidente dos Estados Unidos de apoiar a indicação do Brasil na OCDE, que é a mesma posição do governo alemão. Infelizmente, o ministro a Relações Exteriores dos Estados Unidos, só menciona Argentina e Romênia. E nada sobre o Brasil. Acreditamos que temos que abrir a OCDE e apoiamos o Brasil. Queremos a ratificação desses acordos. Todavia, no Parlamento Europeu, nos Parlamentos da Alemanha, Áustria, etc, a resistência é cada vez maior. Como convencer os deputados que a assinatura faz sentido, sem lutar contra o desmatamento?

É tão importante assim?

Sim, é de fundamental importância. O governo precisa mudar o discurso e a ação. A questão ambiental é vital. Aqui, a prioridade é a segurança. Na Europa, é meio ambiente. A ministra Tereza Cristina compreende isto. O ministro Ricardo Salles me disse que a meta do Brasil é lutar contra o desmatamento ilegal. Mas, em Nova Iorque, a palestra do presidente não confirmou. Há uma ligação entre exportações do Brasil, o Mercosul, a OCDE e o desmatamento.

É mesmo tão importante assim?

Isto é extremamente forte. O meu ministro, que é um lutador a favor do Mercosul, tem não somente fogo inimigo dos outros partidos, mas do próprio partido. Nosso partido conservador – CDU- há vozes que dizem: “Com este governo, com esta situação da Amazônia, não vamos concordar”. Claro que há, as vezes, uma certa histeria na Europa. Os incêndios foram ruins, mas em comparação com 2010, não foram o maior problema. O dilema maior é o desmatamento. Entre 2005 e 2012, havia um queda do desmatamento de 80%. Já durante o governo Dilma começou a oscilar e em 2018 houve subida maior. E 2019 outra elevação maior. Ainda temos tempo para reverter.

O serviço jurídico da União Europeia precisa de 6 meses a 1 ano para examinar o acordo do Mercosul. Ele tem milhares de páginas, em todas a lingas da União Europeia. Agora ainda tempos tempo para reverter. A Áustria e a França já fizeram advertências. Nos próximos meses não haverá ratificação do Parlamento Europeu. Mas é preciso agir para reverter. Necessário muita retórica para acalmar os eleitores. Há pressões dos agriculturas na França e na Holanda.

O que fazer?

O governo precisa agir para reverter o desmatamento. Não pode prevalecer a ideia de que o governo Bolsonaro vá derrubar as florestas, vá matar os indígenas. Ninguém vai convencer nossos deputados se o desmatamento não tiver uma queda maior.

E a alegação de que os europeus denunciam o desmatamento porque querem as riquezas do subsolo?

Besteira! No inicio era o argumento da soberania. A Amazônia Legal é do Brasil. Não há qualquer ameaça à soberania do Brasil. É um grande absurdo. Importante é que o Brasil, como país soberano, tenha certas responsabilidades. A primeira é com o povo brasileiro. Sem a floresta amazônica, sem a proteção, não existirão os voadores que, vindo do Atlântico, fornecem a chuva para Acre, Mato Grosso e outras regiões. Mas há responsabilidade do resto do mundo sobe a Amazônia, no sentido de manter o clima mundial. Por isso, queremos reduzir gases estufa até 2050. Não produzimos mais do que podemos engolir.

Os alemães vão ajudar como?

Com recursos sim, em várias áreas. Acho que há interesse em ajudar. Se o governo brasileiro abrir licitação para estradas de ferro e outras obras importantes de infraestrutura. As empresas alemães querem investir no Brasil. O argumento de que queremos proteger a floresta para explorar os recursos naturais não é possível. Para uma mina pequena terá que desmatar. É argumento absurdíssimo. Entendo outro argumento, também errado. Dizem: vocês europeus desmataram as florestas da Europa para industrializar e agora querem que nos vivamos de um museu verde.

Entendo o argumento, mas considero equivocado. Preservar a Floresta Amazônia é desenvolver economia sustentável, que já existe. Já há projetos no âmbito do Fundo Amazônico, em torno do desenvolvimento sustentável, seja pelo turismo, pelo extrativismo, para produção de essências, óleos, cosméticos, etc. Não favorecemos um conceito de floresta com indígenas dentro de um museu de árvores. Sabemos que é preciso estabelecer uma base de ganha pão, de fonte de renda, com a floresta intacta. Sem ela, a base do ganha pão também estará destruída, o que será ruim para a agropecuária no sul do Brasil.

Leia também: Por que os alemães emigraram para as Américas

Como foi possível um povo com pais arrasado em duas guerras se transforma numa potência econômica em menos de 30 anos?

São duas as razões. Uma é política. Só depois da Segunda Guerra Mundial. Nós alemães compreendemos que o nazismo não era a solução e que a Alemanha deveria ser um pais europeu, mas não a Europa num pais alemão. Aprendemos tardiamente a lição que nacionalismo agressivo, ocupar outros países, atacar, etc, é um suicídio. A outra é que há raízes anteriores a Primeira Guerra Mundial; educação, trabalho, educação. Não somente de colarinhos brancos, mas de colarinhos azuis, quer dizer, a base com formação técnica. Com treinamento técnico a recuperação é imediata. As fábricas foram derrubadas, a rede ferroviária destruída. Mas o que não foi atingido foi a cabeça: engenheiros, mão de obra qualificada, trabalhadores em preparados.

Alemanha perdeu 6 milhões de pessoas, mas tinha uma mão de obra muito qualificada. O mais importante é investir nas escolas, no Senai, nas instituições educacionais. Educação, qualificação e inovação são fundamentais. Além disso, trabalho duro, respeito as regras e ao Estado de Direito e formação cultural.

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Moacir Pereira

Colunista

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Principal nome do jornalismo político catarinense, é respeitado pela classe assim como nos campos empresarial e jurídico. A exclusividade de suas notícias se reflete na sua credibilidade.

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