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Entrevista

Com cenário global tenso, Brasil precisará crescer por conta própria, diz ex-consultor do FMI

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Por Pedro Machado
18/09/2019 - 09h17 - Atualizada em: 18/09/2019 - 09h44
Mauro Sayar Ferreira fez palestra em Blumenau nesta terça-feira (Foto: Pedro Machado)

Doutor em Economia pela University of Illinois, professor do Departamento de Economia da Universidade Federal de Minas Gerais e ex-consultor do Fundo Monetário Internacional (FMI), Mauro Sayar Ferreira falou sobre o cenário econômico do país na terça-feira pela manhã a presidentes e dirigentes das empresas participantes do Programa Parceiros para a Excelência, da Fundação Dom Cabral. O evento aconteceu em um dos auditórios da Fundação Fritz Müller, em Blumenau. Depois da apresentação, Ferreira conversou rapidamente com a coluna.

Por que a economia está demorando tanto para reagir?

Houve fatores de risco que pesaram muito na determinação de investimentos e na vontade de os bancos emprestarem e das famílias pegarem dinheiro emprestado. Basicamente o investimento veio mais tímido do que o esperado em função das incertezas na economia, se teria ou não a aprovação da reforma previdenciária. O próprio relacionamento do presidente com o Congresso foi um fator que impactou. O estrago feito na economia brasileira foi muito grande, então demora realmente a reagir, mas as coisas estão acontecendo.

Em quanto tempo se reverte todo esse prejuízo dos últimos anos?

A minha previsão é que o nosso PIB per capita de 2013 seja revisto novamente, em um cenário otimista, lá para 2023. Então é basicamente quase uma década perdida.

Como crescer com a capacidade de investimento público tão reduzida?

Vai precisar contar com investimento do setor privado. A geste está acostumado, em outros períodos, a ver o setor público sempre à frente do investimento, mas ele pode motivar e estimular isso de outras maneiras, com concessões e privatizações. Há várias empresas públicas, como a Eletrobras, que precisam de investimento, mas o Estado não tem condições de fazer. A privatização seria saudável.

O ministro Paulo Guedes comentou que, se dependesse dele, privatizaria todas as estatais. É por aí?

Eu acho que não tem muito sentido e alguém vai ter que me convencer do motivo de ter empresas estatais. A Petrobras, qual o motivo e o benefício dela ser estatal? E se ela fosse privada, que diferença faria? Eu vejo diferenças, mas as diferenças que eu vejo são positivas para a economia, a começar que deixaria de ser um foco de ingerência política. Isso já levaria essas empresas a ganharem mais eficiência, que é o que a economia brasileira precisa: grandes empresas eficientes para permitir ganhos de produtividade.

Como as tensões globais prejudicam a reação da economia brasileira?

Em ciclos recessivos passados, as exportações do Brasil colaboraram muito para o país sair do buraco. Não vamos poder contar com isso nesse ciclo. A Argentina, por exemplo, é um grande destino de exportação de bens industriais e manufaturados. Não vamos poder contar com a Argentina para dar aquela ajudinha. Há uma apreensão de nível internacional que diminui o investimento global em função dessa guerra comercial dos Estados Unidos com a China. E agora tem fatores políticos que nunca se sabe o resultado, como esses drones que atacaram os postos de petróleo na Arábia Saudita. Isso tudo contribui para deixar o ambiente ainda mais tenso, com perspectivas de incerteza mais elevadas. O cenário externo é totalmente adverso. A gente vai ter que crescer por nossa conta.

A Argentina vem de um ciclo eleitoral parecido com o do Brasil, com troca de um governo de caráter populista por outro que propõe uma agenda liberal. Mesmo assim o país está mergulhado em uma recessão. O que dá para aprender com isso?

Primeiro que essa agenda populista sempre deu errado. Outra coisa é brincar com agenda fiscal, achar que pode fazer paulatinamente, que vai ser fácil fazer os ajustes aos poucos. Isso provavelmente não vai dar certo, e foi o que aconteceu na Argentina. O (Mauricio) Macri (presidente argentino) entrou achando que poderia fazer uma agenda fiscal e liberal, mas teve problemas com o Congresso, não teve habilidade para driblar esses problemas, limitou as reformas em função disso. Não deu certo. Então o grande aprendizado é que precisamos encarar o desafio fiscal de forma muito séria. A Argentina não está na crise porque começou a fazer o ajuste fiscal, mas porque não conseguiu fazer. É justamente o oposto.

Além de reformas e concessões, o que mais pode ser feito em curto prazo para reanimar a economia do Brasil?

No curto prazo tem esse estímulo monetário que o Banco Central está fazendo, reduzindo um pouco os juros, o que na minha visão cria um ambiente propício. As taxas de juro de longo prazo, que às vezes são mais relevantes do que as taxas do BC, tiveram grandes reduções. Isso por si só já é um grande estímulo. O nível de desemprego continua muito alto e várias empresas quebraram. Isso gera uma ansiedade para que a gente retome rapidamente. Mas uma crise como essa que a gente enfrentou, durante um período tão intenso, é improvável sair rapidamente do atoleiro. É aguardar e torcer, mas acho que vai reagir ao longo do segundo semestre e do ano que vem.

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