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    Entrevista

    "Há consciência de que não deve haver dependência de produtos asiáticos", diz presidente da Fiesc

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    Pedro
    Por Pedro Machado
    13/09/2020 - 12h26 - Atualizada em: 13/09/2020 - 12h43
    Mario Cezar de Aguiar
    Para Mario Cezar de Aguiar, SC pode ser uma alternativa de fornecimento de produtos hoje concentrados na Ásia (Foto: Marcos Campos, Divulgação)

    Com alta de 10,1% na produção em julho, na comparação com o mês anterior, a indústria catarinense aos poucos vai juntando os cacos dos estragos provocados pela pandemia do novo coronavírus. Os sinais de estabilidade e retomada fazem o presidente da Fiesc, Mario Cezar de Aguiar, projetar que o setor, mesmo com todas as adversidades de 2020, pode até chegar próximo do resultado de 2019. O industrial também acredita que Santa Catarina, pela diversidade industrial, tem condições de se colocar como alternativa de fornecimento de insumos e produtos hoje concentrados na Ásia. Confira na entrevista a seguir:

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    Com os números da pandemia se estabilizando, qual a situação atual da indústria catarinense?

    A situação corrobora aquilo que nós prevíamos no início da pandemia, que Santa Catarina seria um estado que se recuperaria muito rápido. Logicamente que alguns setores ainda estão muito prejudicados. Posso citar o setor de confecções, que ainda tem um déficit no saldo de empregos. O calçadista é outro. Mas vários setores do Estado já se recuperaram, inclusive com níveis de emprego e desempenho acima do que vinham praticado antes da pandemia. Esperamos que até o final do ano, se não zerar, se não chegar no mesmo PIB de 2019, que fique um pouco abaixo apenas. Isso mostra que Santa Catarina, pela pujança e pela diversidade da sua indústria, pela resiliência dos seus empresários e pela rápida adaptação às novas demandas provocadas pelas mudanças de comportamento do consumidor, teve uma recuperação bastante rápida, que foi favorecida também pela participação do agroalimentar, que é forte. Outro fator que colabora é que temos uma indústria exportadora, embora ainda haja um déficit na balança comercial. O câmbio tem ajudado, compensando um pouco daquilo que tira a competividade da indústria, que é a legislação complexa e o custo logístico mais elevado.

    O senhor já disse em algumas ocasiões que a pandemia pode mudar a lógica da distribuição da cadeia global de insumos. O que quer dizer com isso?

    O mundo todo se surpreendeu quando viu que havia uma dependência muito grande de produtos asiáticos, desde respiradores a produtos como máscaras e equipamentos de proteção individual. Essa dependência realmente não é benéfica. E aí está uma grande oportunidade para o Brasil, mas principalmente para Santa Catarina, que tem uma indústria diversificada e pode ser uma alternativa de fornecimento a esses produtos, insumos e componentes da Ásia, notadamente da China. Nós temos essa condição. Mas temos que melhorar esse nosso ambiente de negócios, que precisa ser mais favorável para a produção.

    É possível alcançar esse status com as atuais condições regulatórias que nós temos?

    A indústria catarinense é bastante competitiva, embora exista essa legislação complexa que só agrega custos e não agrega valor nenhum. Nós exportamos impostos. E há também um custo logístico. Nós temos muitas deficiências, mas elas foram agora beneficiadas pela valorização do dólar em relação ao real. Temos condições, sim, de ser uma alternativa para alguns produtos asiáticos, até porque outros países querem comprar de outros fornecedores que não sejam a China. Os próprios Estados Unidos não têm condições de fabricar tudo que precisam e estão elegendo outros fornecedores que não sejam asiáticos. Também temos a facilidade do Mercosul, podemos ser uma alternativa de fornecimento para o Paraguai, Uruguai, Chile e Argentina, embora a Argentina esteja hoje com uma economia bastante fragilizada.

    A indústria catarinense é bastante competitiva, embora exista essa legislação complexa que só agrega custos e não agrega valor nenhum.

    Foi um erro concentrar a maior parte da manufatura na Ásia?

    Eu diria que não foi um erro ou uma atitude equivocada. Isso foi muito favorecido pelas condições difíceis de se produzir no Brasil. A participação da indústria na produção de riquezas do país tem diminuído muito por conta de que, ao invés de investir aqui, em um ambiente que não lhe é favorável, é mais prático trazer produtos importados a um custo menor. Você tem que atender mercados. O mundo inteiro, baseado no baixo custo de produção da China, que a gente sabe que é um custo subsidiado pelo próprio governo, acabou se abastecendo lá, e quando acordou viu que essa dependência cria um problema. Vou dar o exemplo dos respiradores: o respirador que se vendia a 5, 6 mil dólares passou para 15 mil, 25 mil, 30 mil. Os próprios chineses se prevaleciam dessa condição de serem praticamente os únicos fornecedores de equipamentos e insumos e botaram sobrepreço bastante elevado. Há uma consciência no mundo de que não deve haver essa dependência de produtos asiáticos e principalmente da China.

    O senhor acredita que essa situação pode desencadear um processo de reindustrialização no Brasil?

    Esse é o grande desejo, não só em Santa Catarina, mas no Brasil. A indústria, depois do sistema financeiro, é quem paga os melhores salários. A indústria agrega valor. É fundamental que tenhamos uma indústria desenvolvida. Somos um país empreendedor, principalmente Santa Catarina. Temos aqui uma vocação industrial muito forte e podemos, sim, ter uma participação maior na produção de riquezas no Brasil e na corrente internacional de comércio. Já estão identificadas as causas de perdermos competitividade: burocracia, carga tributária elevada, uma legislação complexa que exige toda uma estrutura que não agrega valor ao produto, só custo à produção. O país precisa enfrentar essa questão e criar um ambiente favorável de desenvolvimento dos negócios. Isso passa por um pacto institucional forte das entidades, da sociedade organizada discutir com o governo sobre as causas que fazem com que produzir no Brasil seja tão caro.

    Temos aqui uma vocação industrial muito forte e podemos, sim, ter uma participação maior na produção de riquezas no Brasil e na corrente internacional de comércio.

    Recentemente a Fiesc e outras entidades elaboraram um projeto chamado Travessia, que já foi apresentado ao governo do Estado. Em que pé que está isso e o que é possível esperar?

    Isso iniciou como um projeto e hoje é um programa já instituído. A pandemia está provocando mudanças comportamentais muito fortes no consumidor. Então a indústria vai ter que se reinventar e precisa estar atenta para essas mudanças. O programa Travessia tem basicamente quatro pilares: olhar para a reinvenção da indústria, melhorar o ambiente dos negócios, melhorar a infraestrutura, que em Santa Catarina é bem precária, e fomentar o setor produtivo com crédito a custos compatíveis. São quatro pilares principais, que depois se desdobram em outros. É importante que esses norteadores possam ser aplicados no Estado para que a gente possa fazer com que a nossa economia cresça acima da média nacional e que a nossa indústria tenha uma participação cada vez mais significativa.

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