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Sérgio da Costa Ramos

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Crônicas que traduzem os sentimentos do catarinense ao tratar da cultura e características de quem vive no Estado.

Sérgio da Costa Ramos

Os que não trabalham 

Por Sérgio da Costa Ramos

16/10/2018 - 03h00

A greve mais esperada é a dos políticos. Principalmente daqueles tradicionais, que só pensam “naquilo”: na reeleição. Uma vez eleitos, não trabalham mais. Gastam o que não arrecadam e ignoram obras de infraestrutura. Sua missão concentra-se em distribuir empreguinhos e boquinhas,  só para garantir “o futuro”.  O Brasil sonha com o dia em que os oportunistas no poder produzirão uma greve contra o seu próprio desgoverno. No tempo em que os bichos falavam dizia-se que o “o Brasil era um país cordial”, os políticos eram honestos e os governos críveis. Com os tempos tempestuosos do século 21, o país foi ficando irritado e “neurastênico”. Acostumou-se a só concordar em discordar. Com a corrupção ingovernável, faltou poço para abrigar a auto-estima dos brasileiros, açoitados pela mais nefanda das classes políticas que habitam o planeta Terra. As greves passaram a ser o “estado natural” desse Brasil dos “discordantes”. A  primeira greve, como sempre, foi a dos motoristas de ônibus de Floripa. Depois, a já habitual greve do INSS – velhinhos sem atendimento, a não ser os velhinhos  do Senado, atendidos por um plano de  saúde “exclusivo”. Depois, a greve foi contaminando até mesmo as chamadas “autoridades”, os prefeitos culpando os governadores – e estes, o presidente. °°° A greve dos prefeitos, revoltados contra a avareza tributária da União, deixou acéfalos os governos de 5.500 municípios, o lixo empilhado nas ruas, a catinga infestando  os bairros e o centro das grandes e  médias cidades. A greve dos padeiros teve início com o fim do subsídio do trigo. O pãozinho aumentou 100%, com o que não concordaram as autoridades, temendo o recrudescimento  da  inflação. Os donos de padarias resolveram, então, fermentar o pão da desobediência civil: – Vamos fabricar brioches! – debocharam, numa alusão ao pão de massa leve, só com farinha e água, que marcou a rebelião popular da Revolução Francesa. °°° Sem transportes públicos, restaurantes, coveiros, universidades, prefeituras, lixeiros, padeiros, hospitais e até motéis, o país começou a se esvair pelo ralo de um imenso bueiro. Que, aliás, não funcionava, pois estava entupido de lixo.   Leia outras crônicas

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Foto: Juan Barbosa/Agencia RBS

No fio do bigode

Por Sérgio da Costa Ramos

15/10/2018 - 03h00

O mundo não se resume em escolher um candidato. Pior: um daqueles candidatos do tipo “mais do mesmo”. Nostálgico, um amigo me desafia a citar “quatro coisas boas e puras”, ainda sobreviventes nessa emporcalhada atmosfera dos tempos que correm. Difícil. Uma delas era o futebol, esporte em que já fomos mestres, hoje irremediavelmente mercantilizado pela Fifa e pelos tais “empresários”, que o transformaram num negócio altamente lucrativo – menos para a torcida brasileira. Mas nem todas as feridas serão curadas pelo futebol. Será que o jogo da bola ainda servirá de “pomada Minâncora” para os furúnculos da política? De repente, lembro-me logo de quatro coisas boas que ainda sobrevivem. Uma floricultura às vésperas do raiar da primavera; uma criança e seu baldinho de praia, num domingo de sol; um matuto conduzindo o seu curió de gaiola, em pleno feriadão; as vendolas de esquina, aqueles antigos “empórios” que ainda mantém o hábito e a freguesia das  “contas de caderno”. Quando vejo flores e belos arranjos na vitrine de uma floricultura, lembro-me de um verso de Paul Élouard, segundo o qual “o flerte e as flores são a aquarela do amor”. Se há flores sendo embaladas, há alguém tentando seduzir e outro alguém disposto a ser seduzido, o mundo não está perdido. Compre flores também, caro leitor! – e presenteie sua amada com rosas encarnadas. Não despreze sequer os copos de leite, mesmo com sua fama de flor de cemitério. Tudo o que vem da terra e da natureza é belo, é sublime. É puro.

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A Ilha é bem-amada

Por Sérgio da Costa Ramos

13/10/2018 - 05h00

O que é um paradoxo? É o contra-senso, o absurdo, o disparate. Aquilo que se revela contrário ao senso comum - afirmação aparentemente contraditória, que, no entanto, é quase verdadeira. Dizer-se, por exemplo que a Ilha é um inferno paradisíaco. Houve época em que todos os catarinenses diziam gostar de sua Ilha-Capital. Mas falavam muito mal dela. E até conspiravam contra a Ilha, querendo destituí-la da sua condição de Capital do Estado. - Lá naquela ilha ninguém trabalha. Só tem “mandrião”. Certa “mandriíce” é inegável, especialmente a do poder público. Hoje, qualquer obra estruturante leva 10, 15 anos. Em meados do século 18, o governador Manoel Escudero queria levar a Capital para o lado continental. E em seu segundo mandato (1918-1922), Hercílio Luz chegou a estudar a transferência da Capital para o planalto de Lages, às margens do rio Caveiras, epicentro geográfico do Estado. Terra pra lá de boa e generosa. Mas, sem a capital na Ilha, o litoral e o “hinterland” jamais se integrariam, por paradoxal que possa parecer. Foi o próprio governador-engenheiro quem entendeu a importância de consolidar a Ilha-Capital, ao construir a ponte que levaria o seu nome posteridade afora. Iluminado pela luz do próprio sobrenome, Hercílio teve uma inspiração: construir em tempo recorde a ligação com o Estreito - e “sair para o abraço”. Roído por um câncer implacável, o engenheiro foi rápido: apesar do percalço com o primeiro agente financiador, Hercílio perseverou e assumiu o desafio: a ponte era “uma vez e meia” o orçamento anual do Estado. °°° Não sobreviveu, infelizmente, para assistir à inauguração de sua obra, mas deixou o exemplo para os governantes do tipo bicho-preguiça: fez em apenas quatro anos, o que os seus pósteros ainda não fizeram em mais de 35: e ele não apenas “consertou” a ponte; construiu-a, dos fundamentos à pista, planejada para receber trens e trânsito pesado. Hercílio era ao mesmo tempo um visionário e um pragmático. Não ficava só “em campanha”, distribuindo factóides. Construiu a ponte com o quarto maior vão livre do mundo, num lugar onde não havia mão de obra sequer para construir uma pinguela.   Leia outras crônicas

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Foto: Felipe Carneiro

A Ilha é bem-amada

Por Sérgio da Costa Ramos

13/10/2018 - 04h00

O que é um paradoxo? É o contra-senso, o absurdo, o disparate. Aquilo que se revela contrário ao senso comum - afirmação aparentemente contraditória, que, no entanto, é quase verdadeira. Dizer-se, por exemplo que a Ilha é um inferno paradisíaco. Houve época em que todos os catarinenses diziam gostar de sua Ilha-Capital. Mas falavam muito mal dela. E até conspiravam contra a Ilha, querendo destituí-la da sua condição de Capital do Estado. - Lá naquela ilha ninguém trabalha. Só tem “mandrião”. Certa “mandriíce” é inegável, especialmente a do poder público. Hoje, qualquer obra estruturante leva 10, 15 anos. Em meados do século 18, o governador Manoel Escudero queria levar a Capital para o lado continental. E em seu segundo mandato (1918-1922), Hercílio Luz chegou a estudar a transferência da Capital para o planalto de Lages, às margens do rio Caveiras, epicentro geográfico do Estado. Terra pra lá de boa e generosa. Mas, sem a capital na Ilha, o litoral e o “hinterland” jamais se integrariam, por paradoxal que possa parecer. Foi o próprio governador-engenheiro quem entendeu a importância de consolidar a Ilha-Capital, ao construir a ponte que levaria o seu nome posteridade afora. Iluminado pela luz do próprio sobrenome, Hercílio teve uma inspiração: construir em tempo recorde a ligação com o Estreito - e “sair para o abraço”. Roído por um câncer implacável, o engenheiro foi rápido: apesar do percalço com o primeiro agente financiador, Hercílio perseverou e assumiu o desafio: a ponte era “uma vez e meia” o orçamento anual do Estado.

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Direto de Marte

Por Sérgio da Costa Ramos

12/10/2018 - 04h00

Do planeta Marte, onde mora, o galo cósmico Meyer Filho manda uma soturna mensagem aos brasileiros pagadores de impostos: - Venham pra cá, antes que essa turma que está sendo gradualmente expulsa da política se vingue dos eleitos! Ernesto Meyer Filho, mestre do surreal, o maior dos nossos autodidatas, viajava em vida para pintar seus “galos cósmicos”. Quando pendurou uma Lua Vermelha no ambiente dos seus galos siderais, poucos entenderam. Não era uma Lua. Era Marte. Quem entrasse no Bar Topázio, “baixo” Bocaiúva, às margens do Campo da Liga, o nunca assaz tão lembrado Pasto do Bode, haveria de encontrar um avaiano apaixonado, óculos de grau, jeitão de professor Pardal, voz estridente, mãos marcadas pelo vitiligo e um cacoete oral que consistia em pontuar suas frases com um metálico e exclamativo “nééé, ô!” – como se fosse a interjeição de uma araponga. - A taxa dos juros siderais é muito mais baixa do que a do Brasil, nééé,ô,ô,ô! Em Marte, não tem agiota! Quem, por sua vez, fosse, pelos anos 1970, ao Banco do Brasil da Praça XV, lá haveria de encontrar aquele torcedor avaiano compenetrado em sua missão profissional de caixa do BB. Olhar de tédio, neurastênico com a freguesia, o caixa pintava galos nas horas vagas – “sim, durante o expediente, néé,ôôô!” - Eles pensavam que eu não pintava no trabalho. Se não pintasse, morria. Fiz pra mais de 5 mil galos no Banco do Brasil! Mas nunca roubei! O poeta T.S. Eliot, pioneiro do modernismo de Wasted Land -  que em 1922 “amargava” como caixa do Barclay’s Bank, em Londres, e vivia deprimido por isso - não conseguiria torcer pelo Chelsea no domingo e se apresentar ao trabalho de “caixa” na segunda-feira. Era penoso e o bom humor caía a zero. °°° Muito mais do que Eliot - resgatado desse trabalho maçante graças a uma “vaquinha” organizada em Paris por Gertrude Stein e Ernest Hemingway – Meyer Filho mereceria ter, em vida, tempo livre e paz de espírito para criar os seus quadros coloridos de deslumbrantes e desvairadas hipérboles emplumadas. Livre das agruras da vida terrena, Galo Meyer teme a chegada de políticos brasileiros no seu planeta de adoção. - Já imaginaram se o Congresso revolve manter um “Anexo” aqui em Marte, só pra faturar mais um “adjutório-viagem”, um “auxílio-paletó”, uma “bolsa-cósmica”?   Leia outras crônicas

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O começo da reforma

Por Sérgio da Costa Ramos

11/10/2018 - 03h00

O voto está reformando a “velha senhora”, aposentando as oligarquias, expulsando os vendilhões do templo, encostando os “partidões” viciados na inércia e nos “alcances”. Ainda não é a perfeição, mas, quem diria: a renovação dos parlamentos está próxima dos 70% -  no que já se caracteriza como “uma reforma política pelo voto”. Tem eleitor que faz um muxoxo, acha que o voto já não muda mais nada nesta senhora hoje tão mal afamada, Dona Democracia. Todos falam em seu nome. Alguns para usá-la. Pois a Democracia é uma senhora permissiva. Admite que os que nela vivem, dela falem mal. Ou até mesmo tentem destruí-la. Ora, Democracia é uma mulher da vida -, mas, em todo caso, é a “menos feia” desse bordel em que se transformou a civilização governada pelo sistema dito representativo nos dias de hoje. É tanta trampolinagem, tanta “impotência” da cidadania ultrajada, que até mesmo a mocinha outrora tão cortejada passa a ser um ente assexuado e sem graça. Quando o “alcance” do dinheiro público ganha a dimensão de uma endemia - e quando uma justiça ainda hesitante hipervaloriza o direito dos réus e acaricia a fronte dos ladrões – emerge das urnas a dúvida e a perplexidade do eleitor: - Votar adianta alguma coisa? Faz a diferença? Ora, votar é depurar.  Em quem votar? No menos pior? E se o melhor se revelar o pior? Democracia deveria vir com um certificado de garantia, como um carro, um eletrodoméstico. Não adiantou, tá “bichado”? Faz um recall: funciona como aqueles selos colados num bom livro. Sinal de que é possível trocar o presente na livraria de origem, se o obsequiado já o possui. É preciso perseverar no aperfeiçoamento dessa mulher permissiva e difamada. °°° Votar é refinar, escolher. É, primeiro, eliminar os “maus”. É preciso saber separar os homens – que são passageiros – das instituições, que são perenes. É preciso acreditar num processo de depuração – e que, um dia, o povo e o eleitor, votando bem, promoverão a verdadeira revolução das “mãos limpas”.   Leia outras crônicas

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Entrevista com um derrotado

Por Sérgio da Costa Ramos

10/10/2018 - 04h00

Fomos encontrar um anjo caído, derrotado nas eleições de domingo, para a seguinte entrevista imaginária com um corrupto clássico, que nunca se dá por vencido: - Bom dia. O senhor Corrupto da Silva poderia nos dar uma entrevista a respeito do inquérito no qual está indiciado por desvio de recursos da merenda escolar? - Quem lhe disse que sou eu quem está falando? - O senhor não é o Sr. Corrupto Reincidente da Meia e da Cueca? - Meu nome é este mesmo, mas nego que tenha desviado dinheiro do lanche das criancinhas. - Ontem o senhor disse que falaria após ser reeleito. Pois bem, o senhor perdeu a eleição e o foro privilegiado. O inquérito já foi instaurado e o senhor indiciado. É a sua oportunidade de se defender. - Eu, me defender? Dizer o quê, se vocês já me condenaram? É tudo perseguição dos meus adversários políticos, já que estou muito bem nas pesquisas para o governo. - O senhor não disse que daria uma coletiva hoje? Pois é. É a sua chance de se defender. Que dia é hoje? - E eu sei? Vou consultar primeiro o meu advogado. Se for sábado, não posso falar. Na Câmara, só trabalhava às terças e quartas, depois era dia de visita às bases e apoio às creches. - Apoio às creches das quais o senhor subtraiu o dinheiro da merenda? - Sai pra lá, satanás! Você é quem está dizendo essa blasfêmia, seu filisteu! Precisamos botar uma mordaça nessa imprensa abusada!     - O senhor confirma sua participação por fraude na compra de leite em pó para uma creche, em nome da ONG fantasma? - Não confirmo nada! Não reconheço minha voz nesses diálogos que vocês publicaram ontem. Tudo forjado. Tudo mentira. Coisa armada pelos meus inimigos políticos. - Mas o senhor comunica à sua mulher que já saiu o dinheiro da emenda em favor da ONG que ela preside... e acrescenta que é pra comprar leitinho com prazo de validade vencido, roubado de uma transportadora de cargas, cujo valor depreciado permitiria à ONG um lucro de 1000%! - Onde está escrito isso? - Está na degravação da fita da sua conversa, cujo grampo foi judicialmente autorizado. O senhor até comemora: “Querida, vai dar um milhãozinho redondo pra gente gastar em Paris!” - “Paris” é o nome, por assim dizer, o “apelido”, dessa outra creche para a qual minha mulher dá assistência! Não é o que vocês estão pensando!   Leia outras crônicas  

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A prazo ou à vista

Por Sérgio da Costa Ramos

09/10/2018 - 04h00

No Brasil, os brasileiros já sabem, nada é à vista, tudo é “a prazo”. Só naquelas conversas de antigamente é que o pessoal da velha guarda dizia, ao se despedir: - Até a vista... Sentença judicial nunca se cumpre à vista. Mas a perder de vista. É só não perder o prazo do recurso. E a turma do atraso deseja que a pena privativa de liberdade só ocorra depois do tal trânsito em julgado, que é justiça até onde a vista não alcança. Aumento de salário é sempre a prazo. À exceção da Câmara dos Deputados, onde os aumentos são sempre à vista, sejam os identificados como reajuste ou Petrolão. °°° Com a insegurança das cidades, o brasileiro já está se habituando a outro tipo de pergunta: - A bolsa ou a vida? Ora, a vida, é claro. Mas como a vida anda pela hora da morte, o diálogo entre dois brasileiros bem que pode tomar um rumo inesperado, à vista de um “três oitão”: - A bolsa ou a vida? - A vida, é claro. Na argola em que eu vivo, como é que vou aplicar na Bolsa? - Mas viver ainda é bom... - Com esses juros? - O negócio é viver à vista, não a prazo. - E o meu uísque, que eu tomo em pequenos goles, quer dizer, “a prazo”? - Passe a tomar à maneira cowboy, à vista. Aliás, o Brasil virou um farwest, uma terra sem lei. O crime é sempre à vista e a lei, sempre a prazo. - Será que depois das eleições e das derrotas de figuras como a Dilma, não teremos mais boas notícias no verão que se aproxima? - A prazo ou à vista? - À vista, é claro. Digamos que depois das mudanças eleitorais os ratos do erário sintam um ataque de honestidade e devolvam os milhões roubados do povo brasileiro. - À primeira vista você é um sonhador incorrigível. No Brasil, só as más notícias acontecem à vista. As boas, não tem prazo pra acontecer. - À vista, mesmo, só o encalacramento geral. - E como vão as obras do novo aeroporto e seus acessos? -  A prazo. -  E a buraqueira nas ruas? -  Buraco nas ruas, ou no orçamento, é sempre à vista. -  E obra, no Brasil, é sempre a prazo. O pagamento é que é à vista, desde que sobre algum para a campanha.   Leia também: Viva a democracia

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O duelo dos rejeitados

Por Sérgio da Costa Ramos

08/10/2018 - 05h00

Quem venceu a eleição dos rejeitados? Começo da noite, ainda não sabemos. Escrevo antes da apuração, em meio a um festival de fakes que prometem a vitória antes da hora. As pesquisas se alimentaram do descrédito geral – e os candidatos competitivos fizeram como Henry Kissinger na guerra do Vietnã: bateram em retirada e proclamaram a vitória! O mais provável seria o caminho de um novo turno – ou teria acontecido a desmoralização das pesquisas e a eleição antecipada? °°° É neste instante que devemos entender aquele carcomido diagnóstico de Sir Winston Churchill: “A democracia é a pior forma de governo, com a exceção de todas as demais”. Democracias plenas são regimes plurais que permitem o voto até mesmo contra si mesmas – embora se pretenda que os eleitores saibam distinguir quem vota para exterminá-las e quem vota para reverenciá-las. “L’Infer sont les autres” é a sempre lembrada frase famosa de Jean-Paul Sartre, o filósofo do ser e do existir. Pois neste fundamental ano de 2018 o eleitor teve, mais uma vez, a oportunidade de ser “o inferno de quem o infernizou”. O voto tem esse condão purificador: permite tratar com ódio os que odiaram a democracia. E com amor os que a respeitaram. A democracia sempre foi o pior - e o melhor dos filtros. Mas os seus controles são precários e, para preservarem a justiça, não podem ser discriminatórios. Mesmo os que “não sabem”, têm o direito de votar! °°° Diante da maquininha eletrônica, cada botão foi, ontem, uma espécie de guilhotina. E quando o dedo do eleitor impactou a tecla “Confirme”, a sentença saneadora desceu sobre os pescoços dos representantes que  desonraram a “procuração popular”. O voto é uma vacina contra a “Zika” que ameaça arruinar a democracia. É hora de escrutinar e avaliar a vida e o caráter de cada candidato a deputado, a senador, a governador. Quadrilhas como as que governaram o Rio de Janeiro ameaçaram todos os Estados e o único antídoto foi a faxina do eleitor. É aí, pelo voto, que o Brasil começará a ser reformado. O eleitor, que já sabe quem venceu, pode puxar a reza. “Ora pro nobis”, ó Senhor dos Justos – e poupe-nos de algum ficha suja que tenha enganado os controles.   Leia também: VÍDEO: Homem leva marreta e destrói urna em SC

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Ruy e o enigma

Por Sérgio da Costa Ramos

06/10/2018 - 04h00

Baiano ilustre, orgulho da raça, Águia de Haia, Ruy Barbosa hoje anda desencantado em seu panteão celestial. Olha o Brasil com muita preocupação. Será que o Brasil não conta mais com as figuras impolutas que davam “peso” e “mérito” a senadores e deputados, governadores e presidentes? Ruy procura um nome para sufragar e não acha, não encontra resposta para o atual enigma. Um refrão ufanista costumava homenagear a qualidade da massa encefálica do brilhante baiano, reclamando igual brilho para todos os nascidos na “Boa Terra”: - Pau que nasce torto, não tem jeito, morre torto; baiano burro garanto que nasce morto. Mas o velho Ruy não parecia assim tão inteligente quando, por alguma alquimia do tempo, deparou-se com o noticiário político de um jornal de 2018: - Novo MDB ameaça não votar mais com o governo, apesar dos seus sete ministérios! - O que é isso? – perguntou o sábio, desconcertado. Tive paciência para explicar o caso do apodrecimento da política nacional, o clima de barganha e a perda dos valores éticos e morais. O velho baiano tonteou ao assistir o representante de um partido que acabava de receber um ministério, “de porteira fechada”, ou seja, com todos os seus empregos e verbas para apaniguados: - Estamos assumindo o ministério para dar apoio ao governo. Mas isso não quer dizer que vamos concordar com tudo. Os partidos, aliás, só apoiam os governos para assumir cargos. Chantagem pura. Mas votam contra para mostrar “independência” e extrair mais uma verbinha, mais umas boquinhas estatais, e, claro, mais uns “pixulecos”, o neologismo que poderia ser bem traduzido pela universal propina. °°° O autor de Oração aos Moços pediu um copo d’água, enxugou um inesperado suor que lhe brotou da fronte – logo ele, um baiano magrinho, acostumado ao calor – e lançou um olhar súplice em minha direção: - Meu filho, certamente estás brincando com este velho. Não me diga que o Brasil de hoje confirma aquele meu amargo discurso: “De tanto ver triunfar as nulidades (...) o homem ainda vai sentir vergonha de ser honesto”?   Leia também: Justiça Eleitoral proíbe propaganda contra Merisio

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