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Crônica

Cinema da memória

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Por Sérgio da Costa Ramos
08/11/2018 - 04h00 - Atualizada em: 08/11/2018 - 04h00
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(Foto: )

Uma breve incisão no tempo e a Floripa do passado ressurge em meu “cinema” mental.

As lembranças saltam na memória como lambaris num aquário. Por essas horas, num domingo à tarde de eras chamadas priscas, a gurizada, “manecraticamente” reconhecida como “rapaz pequeno”, já estava “a postos”, diante do Cine Roxy, trocando gibi diante da vitrine do seriado de “Nioka, a Mulher das Selvas” ou do “Cavaleiro Negro”.

Na própria palavra saudade está contida a lembrança de cada vivente e a reencarnação dos seus momentos “eternos”, cujos efeitos se recusam a passar, como uma espécie de giz mágico, que não se submete a nenhum apagador. Quadro negro, giz, apagador – logo esses “equipamentos” serão também longínquas lembranças, quando vivermos tempos de inteligência artificial num mundo só digital. Esse ânimo saudoso insiste em circular pela memória, como uma barata, o inseto mais resistente e inexpugnável do mundo. Não existem Neocids ou Memoricidas confiáveis. Todos sucumbem ao “revival”.

Este meu coração, tão piegas, bate também por coisas comuns e prosaicas, bobagenzinhas como as antigas garrafas do Crush e da Coca-Cola, aquelas “gordinhas”, nada de enlatados. E mais: doces folheados da confeitaria A Soberana, a tão pranteada bala Rococó, o pastel do Bar Rosa, a empada do Chiquinho, a canja americana das carrocinhas de pipoca, enquanto rolava o “comércio” de gibis à porta do Roxy.

De tardinha, na praia de Fora, brotinhos - coisa mais antiga chamar-se meninas de “brotinhos” – se encontravam na Sorveteria da Cocota para um Grapete ou um Chic-Chic - o “Esquibom” da casa.

Os rapazes exibiam com orgulho o primeiro fio de barba, celebrado com Cuba Libre no Doze, Hi-Fi no Lira, Jamelão no Carnaval e Celly Campelo com seus gritinhos em Rocks traduzidos.

Melhor ainda era dançar de rosto colado nos “grandes bailes” de orquestras (Valdir Calmon e Cassino de Sevilha), assistir no Cine São José aos memoráveis musicais da Metro. Viver, enfim, sob as letras imorredouras dos  poemas de Vinicius de Moraes, as crônicas do velho Braga e os versos do poeta Carlos Drummond de Andrade.

O Brasil era feliz e sabia.

 

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