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Crônica

Garapuvu, ilha loura

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Por Sérgio da Costa Ramos
10/08/2018 - 05h00 - Atualizada em: 10/08/2018 - 05h00
(Guto Kuerten, Diário Catarinense)

O Brasil que floresce nas encostas está mais belo do que nunca, nem se parece com o país dominado pelas flores do mal. As cabeleiras louras que se derramam das copas dos garapuvus redimem a beleza do país e da Ilha de Santa Catarina, de cujas terras santas são a árvore símbolo. É o garapuvu, ou a canoa de um tronco só,  “pau de vintém”, monumento de 30 metros de altura com sua inconfundível cabeleira florida, em cachos patriotas – unindo o verde da Mata Atlântica ao amarelo ouro dos seus galhos em forma de taça.

Cálice onde se processa a consagração da beleza da mata nativa, sob o pomposo nome científico de Schizolobium parahyba. Por causa do tronco espesso, com galhos que se abrem somente na copa, o garapuvu era utilizado na fabricação de canoas de um pau só, entalhadas pela mão do pescador. Deslizavam, deitadas, pelas águas espelhadas das baías.

*** 

O florescer da árvore-símbolo está em pleno curso, começou nesta gelada pré-primavera e vai até dezembro, oferecendo aos viventes uma inesquecível visão do Paraíso ilhéu. Mas não a única. Há mais belezas balançando ao vento. Cumprimento dois ipês, sentinelas de minha porta, que trocaram de roupa, topete e tapete.

O primeiro, rosa, de um delicado matiz, fornece à minha calçada um inefável tapete, como aqueles só merecidos pelos cardeais da procissão de Corpus Christi.

O segundo, de um amarelo inebriante, embriagaria o próprio Van Gogh, obrigando-o, quem sabe, a cortar sua segunda orelha e a  “carregar” nos amarelos solares dos seus girassóis – de sorte a desafiar o próprio Sol.

***

Um amigo telefona, alheio à mudança de roupa nas árvores, e desfolha a sua última indignação: 

- Escuta, não vais criticar esses ministros do STF que acabam de se outorgar um aumento salarial de mais de 16%, quatro vezes a inflação oficial? 

Não. Hoje não deitarei sobre este canto de página um único pingo de tinta que remotamente se relacione com os malfeitos de um Brasil insensível. Estou usando o meu tesourão de jardim para decapitar o noticiário da má política amarelo-esverdeada. De amarelo, hoje, só os garapuvus da Ilha e o ipê do meu jardim.

 

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