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Crônica

O consolo da natureza

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Por Sérgio da Costa Ramos
27/11/2018 - 05h00 - Atualizada em: 27/11/2018 - 05h00
ipê
(Foto: )

Num primeiro momento as árvores estão desfolhadas e tristes. E logo estão de “cabeleira nova”, em penteados armados, coloridos e desalinhados, como um “ninho de pássaro” natural.

O primeiro sinal de que a primavera começa a “trocar de roupa” para o verão, é a mudança na indumentária das árvores, desde a íntima floração junto aos galhos, até a orgulhosa cabeleira na copa das trepadeiras lenhosas - como os ipês e as buganvílias, explodindo em cores tão vivas quanto um quadro de Tércio da Gama.

Os dois ipês, sentinelas de minha porta, já trocaram de roupa e de topete. O primeiro, rosa, de um delicado matiz, fornece à minha calçada um inefável tapete, como aqueles só merecidos pelos cardeais da procissão de Corpus Christi.

O segundo, de um amarelo inebriante, embriagaria o próprio Van Gogh, obrigando-o a carregar nos pincéis dos “Girassóis” – e a pintá-los de novo, de sorte a desafiar o próprio Sol.

De repente, em meio caminho da estação, entendi aquele verso de Shakespeare, atribuindo à “Prima” propriedades rejuvenescedoras: “The Spring puts a spirit of youth in everything”.

Sim, todas as pessoas, todas as coisas, todas as folhagens que tenho em meu jardim, como umas sisudas Costelas de Adão, parecem ganhar um novo viço.

Um amigo telefona, alheio à mudança de roupa nas árvores, e desfolha a sua última indignação:

- Escuta, não vais criticar essa vergonha que é o tal aumento do Judiciário, atribuindo-se 16,38% num momento em que a inflação está em 4%?

°°°

Não. Hoje não deitarei sobre este canto de página um único pingo de tinta que remotamente se relacione com os disparates da vida brasileira. Estou usando o meu tesourão de jardim para decapitar o noticiário da má política, do tipo amarelo-esverdeado, secreção que representa a  pior bile humana. Amarelo, hoje, só o meu ipê. Prefiro dizer ao meu amigo, como Vinicius de Moraes na sua “Mensagem a Rubem Braga”: “É tempo de ipês e de cajus - e nas ruas já se perfumam os jasmineiros. Tempo de poucos crimes passionais, em proporção ao grande número de paixões em volta”.

 

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