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CARTAS NA PANDEMIA
CARTAS NA PANDEMIA
Jovens de SC e de campos de refugiados trocam mensagens sobre sonhos e aflições


A Letra F em árabe

Florianópolis, 4 de agosto de 2020. Às 12h15min, horário de Brasília, Olívia Miliotti C. von Hohendorff, de nove anos, senta-se para almoçar com os pais e a irmã. No Líbano, seis horas à frente, o menino Mahmoud Elabed, de 10 anos, dorme em uma das casas do campo de refugiados de Ain el-Hilweh, região costeira de Sidon. A tarde de Olívia será de um outono iluminado, com temperatura agradável e céu azul. Para Mahmoud, que dorme cedo por causa da falta de energia elétrica comum no lugar onde mora, o anoitecer será marcado por uma explosão no porto de Beirute, que assusta o mundo. Foram cerca de 200 mortos, 6 mil feridos, 300 mil desabrigados. Apesar dos contrastes, há algo em comum na vida da menina descendente de imigrantes europeus e do garoto palestino: a pandemia do novo coronavírus.

O impacto da Covid-19 no dia a dia de Olívia e de Mahmoud é descrito em cartas trocadas entre eles. Os dois estão entre as 18 crianças e adolescentes de Santa Catarina, no Brasil, e de campos de refugiados em outros países que aceitaram a proposta desta reportagem e escreveram mensagens uns aos outros, relatando sonhos e preocupações durante a pandemia. As primeiras correspondências partiram de jovens catarinenses ao encontro de libaneses e palestinos.

Os pequenos destinatários integram famílias de despatriados, formadas por homens e mulheres que se encontram fora do país de origem devido a guerras e perseguições motivadas por raça, religião, gênero e opinião política. Gente que não pode ou não quer voltar para casa, sob pena de ser morta. São em torno de 79,5 milhões, segundo a Agência da Organização das Nações Unidas para Refugiados (Acnur). Desses, cerca de 31,8 milhões têm menos de 18 anos, e 3,7 milhões estão fora da escola.

aspas

Há poesias nestas cartas, além de sonhos depositados.
Em linhas gerais, cá e lá, as crianças e os adolescentes relatam atividades que gostariam de realizar, mas que são limitadas pela pandemia: brincar, nadar, jogar futebol, estar entre amigos, frequentar a escola. No entanto, seja em Santa Catarina, no Líbano ou na Faixa de Gaza, percebe-se o quanto conseguem ver a vida com mais leveza do que os adultos, apesar das dificuldades impostas pelo momento e, no caso dos refugiados, agravadas por mazelas como miséria, fome e falta de moradia.

Para chegar até os jovens do Oriente Médio, buscamos contatos por meio da organização Círculos de Hospitalidade. Também encurtamos distâncias com o uso de um aplicativo que nos deu mais agilidade, já que o isolamento social interrompeu serviços de entrega de correspondências. Contamos com o apoio e o incentivo de famílias catarinenses, as quais sentiram-se sensibilizadas com a causa dos refugiados. Ouvimos especialistas, como José Martins Abbade, mestre em Estudos da Linguagem.

— Há poesias nestas cartas, além de sonhos depositados, como o da menina palestina Jana, que deseja poder ir ao mercado, comer doce e visitar a Bélgica, o Egito e se tornar médica ou cientista. Tal qual o sentimento de Vicente, de 16 anos, morador de Florianópolis, e que deseja a união da humanidade para superarmos “as dificuldades que o mundo atual nos impõe”.

Maiores campos de refugiados no mundo
Toque nos pontos para ver o nome dos países

PELO MUNDO
População
Mundial:
7,79 bilhões
79,5 milhões (1%)
de pessoas forçadas a se deslocar no planeta
até o final de 2019

Desses:
40%
têm menos de 18 anos
5,2%
são apátridas:
não têm sua nacionalidade reconhecida
por nenhum país
57,5%
deslocados internamente,
dentro do mesmo país
80%
estão em locais com grave
insegurança alimentar e desnutrição
Fonte: Acnur
"Não consigo estágio porque sou refugiada e não tenho direito a trabalhar”, conta Hanan

Com 22 anos, a palestina refugiada no Líbano Hanan Soboh sonha em fazer um mestrado, porém não tem dinheiro suficiente para isso. Outro desejo que ainda não consegue realizar é o de trabalhar legalmente, ainda que formada em Matemática — fato raro para jovens refugiados, pois apenas 1% deles tem acesso ao ensino superior.

— Eu fui a muitas escolas libanesas em busca de oportunidades, mas a maioria não me permite fazer estágio porque sou refugiada e não tenho direito a trabalhar.

A moça toca em uma ferida difícil. Em muitos países, pessoas como ela não podem exercer a própria profissão. No Líbano — nação que abriga a maior população de refugiados per capita do mundo, e onde um em cada seis habitantes é alguém que deixou o país natal para escapar de conflitos e guerras — refugiados são impedidos de atuar como médicos, engenheiros, advogados. Isso também ocorre com outros povos, como os sírios, reconhece a Agência da ONU para Refugiados (Acnur). Para esses, o exercício profissional só é permitido à sombra dos acampamentos. aspas

O sol não entra na minha casa, porque as casas são muito próximas umas das outras.


A vontade de expressar seus anseios e de ser ouvida por alguém fez de Hanan Soboh uma das protagonistas desta reportagem. A proposta inicial era que a troca de cartas ocorresse entre crianças e adolescentes. Mas a jovem palestina, que vive em Ain el-Hilweh, pediu para participar. Ela soube da atividade porque ensina gratuitamente meninas na escola do campo, localizada na cidade costeira de Sidon, a 40 quilômetros de Beirute.

Pela idade e pelos assuntos, Hanan identificou-se com a cartinha de Maria Luiza de Brito, de 17 anos, moradora do bairro Campeche, em Florianópolis, e que deseja ser médica cardiologista. As realidades das duas garotas são bem diferentes. A catarinense convive com a presença do sol; privilégio negado à Hanan.

— O sol não entra na minha casa porque as casas são muito próximas umas das outras.
Hanan
Hanan dá aulas como voluntária na escola do campo de refugiados.


Mas isso não apaga a sua energia vital. Hanan mandou um vídeo para ajudar Maria Luiza a compreender o cotidiano dela. As imagens mostram um corredor comprido, apertado, escuro. Uma espécie de galeria, e um emaranhado de fios.

— Aqui no campo a eletricidade não é constante. Todos os dias há cortes de luz, que chegam a durar duas horas. A conexão da internet é ruim, e a maioria dos estudantes não pode comprar notebooks por causa da falta de trabalho e da condição econômica das famílias.

Hanan despede-se de Maria Luiza movida pelo desejo que a fez personagem desta reportagem. Agora não mais querendo falar. Mas agradecida por ter sido ouvida:

— Muito obrigada por me escutar.

COMO LER

As cartas aparecem no idioma em que foram escritas: português, inglês ou árabe.



Clique no ícone para ver a foto original da carta
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Florianópolis, 29 de junho de 2020

Eu me chamo Maria Luiza, tenho 1,70cm, um tamanho normal para garotas na minha idade, rumo aos 18 anos quase me tornado uma mulher. Não sou gorda nem magra, minhas bochechas são meio rosadinhas e tenho olhos brilhantes. Para mim a coisa mais importante é a família, amigos e escola. Tenho poucas preocupações e meu objetivo de vida é me tornar uma médica cardiologista e construir uma família, ter um filho que possa mimar e amar.
Ter aulas para mim é como respirar, mesmo não sendo aluna nota 10 como sempre quis, para mim aprender é uma coisa que mais gosto e também estar com os amigos. Estava frequentando uma nova escola, uma escola pública que até então nunca tinha estudado, os alunos que ali estudam são sorteados, como estava feliz por estudar ali! Fiz amigos rápido e estava pronta para mais um ano em uma nova escola. Mas aí chegou a pandemia.
Antes da pandemia, todos os dias eu acordava às 5h30min, arrumava meus cachinhos desarrumados de uma noite bem dormida, botava um rímel em meus cílios, uma calça jeans e vestia o uniforme da escola, uma blusa branca com o logo da escola. Seis e dez saía de casa para ir até a parada de ônibus, tinha que andar umas três quadras, nesse trajeto ia escutando música que para mim era quase um ritual, onde eu fosse levava um fone.
Chegando a parada de ônibus, pegava o transporte que me deixaria ao terminal, ao chegar ao local encontrava alguns amigos. Acabei me apegando a eles, todos os dias esperava para encontrar as mesmas pessoas, e pegávamos o segundo ônibus que nos deixaria perto da escola, para chegar ao nosso destino tínhamos que caminhar um pouquinho.
Na sala encontrava mais alguns amigos, gostava de todos, na sala era participativa e nunca tive medo de demonstrar o que pensava, nos intervalos comíamos merenda que a própria escola fornecia para os alunos e confesso que eu amava, para falar a verdade foi uma nova experiência, mas aí veio a maldita pandemia, os primeiros casos foram em dezembro de 2019 na China, mais especificamente em Wuhan uma cidade na China, surgiram então boatos que um vírus estava se espalhando pelo mundo, e este tinha como efeito uma grave crise respiratória em quem o pegasse, essa crise poderia levar ao falecimento dos pulmões e alguns órgãos.
No mês de fevereiro a doença tinha chegado ao Brasil. Quero ter contato com meus amigos novamente, mas também entendo que temos que pensar no coletivo, para todos ficarmos seguros, é importante que haja o respeito pelo isolamento. Mads sei que para muitos é impossível manter as regras do distanciamento. Contei um pouco de como esses últimos meses estão sendo para mim para que você possa me conhecer, e saber que a pandemia mudou a vida de todos nós. E para você, como estão sendo estes dias? A pandemia mudou muito sua vida aí?? Gostaria de escrever para mim e contar como foi, como está sua vida?
Maria Luiza

Hello Maria Luiza

I'm Hanan Soboh living in Ain El Helwi Camp a Camp in Lebanon for palestinian refugees. I'm 22 years old. I lived in 2 rooms with 8 members in my family. I studied mathematics. An association help me to enter the university because of high cost and give me 60% discount.
This year was my last year in university, I went to the university to study the lectures, because the fall was my last semester at university I was searching for school to make a training but most of the lebanese schools didn't accept me to make training because I'm a refugees and had no right in lebanon to work even as a practice for free. In february, Coronavirus virus spread and the economical crisis getting bad effects.
The unrwa schools in the camp closed and the syrian and palestinian students forced to study online. I registered in a computer online for free but I faced a trouble in the electricity and the internet, I lost the electricity during the session sometimes for more than 1 hours,this lead me not understand the session. The sun cant enter to my home because the homes is close to each other. Every day we loses the electrity for more than 2 hours.
I'm dont like distance learning because here in camp the electricity is not as usual and not always active, and the internet connection is not effective. Inaddition to that, here in camp most of the students cant buy laptops to study online because the economical condition is so bad and no work for most of the palestinians.
My dream to study master degree but I cant do this because this needs a lot of money. I am searching for a work inorder to support my self and help my family, but sorry here no opportunity to work. Now I am teaching girls for free without taking money from them because of the economical crisis.
Thank you Maria for listening to me.
Hope to meet soon and be friend together.
Stay safe with your family.
Best regards,
Hanan

Saudade das aulas é sentimento comum entre catarinense e palestino

No último 4 de agosto o dia estava bonito em Florianópolis. Sol iluminado, céu azul, temperatura em torno de 20 graus. Olívia Miliotti C. von Hohendorff, de nove anos, estava prestes a almoçar com os pais e a irmã às 12h15min, horário de Brasília. No Líbano, seis horas à frente, o menino Mahmoud Elabed, de 10 anos, dormia em uma das casas do campo de Ain el-Hilweh. Aquele anoitecer seria marcado por uma tragédia que chocou o mundo e deixou cerca de 200 mortos, 6 mil feridos, 300 mil desabrigados.

— Eu não vi a explosão em Beirute porque estava dormindo no meu quarto — escreveu Mahmoud para Olívia.

olivia
Olívia contou que considera a cachorra como parte da família.


O menino disse ser solitário. Talvez tenha sido a primeira vez que contou a alguém sobre um sonho, o de ser piloto. Olívia também fez suas confidências: considera a cachorra como membro da família Hohendorff. Apesar dos contrastes, o menino palestino e a garota descendente de imigrantes europeus sentem o impacto da pandemia em suas vidas. Em comum, a saudade das aulas presenciais.

Oi, meu nome é Olívia. Tenho 9 anos.
Moro em Florianópolis com minha mãe, meu pai, minha irmã e minha cachorra Elska!
Estudo na Escola Autonomia e minha comida preferida é hambúrguer.
A pandemia está chata. Não podemos ver as amigas. Tem que ficar em casa, sem ver ninguém. Mas a gente tem aula online e uma sala online onde a professora manda as tarefas para a gente fazer e mandar fotos.
Agora vou fazer algumas perguntas para você:
-Qual é no seu nome?
-Quantos anos você tem?
-Qual sua comida preferida?
-Qual é o seu maior sonho?
Um beijo.
Tchau.
Ass: Olívia Miliotti C. von Hohendorff

مرحبًا أوليفيا،
اسمي محمود العبد، وعمري 10 سنوات. أعيش في لبنان مع عائلتي في مخيم عين الحلوة للاجئين. طعامي المفضل هو المعكرونة. حلمي هو أن أصبح طيارا.
أنا حزين أيضًا لأن فيروس كورونا لا يسمح لنا بالذهاب إلى المدرسة.
أقضي معظم وقتي وحدي. لم أسمع الانفجار في بيروت لأنني كنت نائمًا في غرفتي.
وداعا.

“Está mais difícil de brincar, a gente só fica em casa, mas vai passar”, relata Pedro de 6 anos

Quando foi convidado a escrever para uma criança do outro lado do mundo e que, por causa das guerras, vivia em um lugar diferente, Pedro Morais fez um pedido: comprar folhas coloridas para um cartão. Pedrinho, que tem seis anos e mora no bairro Roçado, em São José, usou um argumento convincente: o amigo — forma de tratamento usada na escola — precisava receber uma carta bem bonita.

Assim foi. Com a ajuda da mãe, ele escreveu sobre a família, disse que gostava de estudar e reconhecia que a pandemia estava atrapalhando sua vida. Mas manteve a esperança sobre dias melhores:

— Agora está mais difícil de brincar por causa do coronavírus, pois a gente só pode ficar em casa, mas isso vai passar.

Hanan
Além da carta, Rama enviou uma fotografia para o novo amigo.


Foi Rama Majzoub, de oito anos, quem respondeu. A menina mora em Sidon, no Líbano, e está no segundo ano escolar. Ela tem uma situação melhor do que outras crianças na mesma condição: cerca de 3,7 milhões dos pequenos refugiados estão fora da escola. Apesar de poder ser considerada privilegiada, Rama ainda tem um desafio nos próximos anos, já que menos de um quarto dos refugiados no mundo alcança o nível secundário, que inclui Fundamental II e Médio.

Um dos fatores que ameaça a educação na infância é a dificuldade de manutenção das escolas, que enfrentam falta de professores e cujos prédios nem sempre dispõem de água e energia elétrica. Outra situação que contribui para a exclusão é que crianças maiores, muitas vezes, são obrigadas a cuidar dos irmãos menores.

Se Pedro caprichou no cartão para o então desconhecido destinatário, Rama também foi generosa e mandou uma fotografia para o novo amigo.

Um em cada seis
habitantes do Líbano é refugiado.
Fonte: Acnur

Oi, amigo
Meu nome é Pedro e tenho 6 anos.
Moro em Santa Catarina com meu pai e minha mãe e meu irmão João.
Estudo na primeira série.
Gosto de estudar e brincar. Agora está mais difícil de brincar por causa do coronavírus, pois a gente só pode ficar em casa, mas isso vai passar.
Espero que você possa estar protegido do lado da sua família.
Um abraço do amigo Pedro

مرحبا بيدرو،
اسمي راما مجذوب، أنا في الصف الثاني الابتدائي، عمري 8 سنوات ، أحب عائلتي كثيراً، أحب والدي وإخوتي وأختي. أعيش في لبنان في مدينة صيدا في المخيم. هوايتي هي السباحة لكن لا يمكنني الذهاب إلى المسبح بسبب فيروس كورونا.
أتمنى أن تكون بأمان مع عائلتك!
صديقتك راما.

“Labirinto, onde o ar não circula, e a luz não chega”, diz Bruna sobre campo de refugiados

Bruna Kadletz dedica-se a causas humanitárias. Coordenadora da organização Círculos de Hospitalidade, com sede em Florianópolis, ela é autora do livro “Minha terra mora em mim”. As páginas são um relato contundente sobre histórias de pessoas que foram forçadas a deixar seus países de origem e passaram a viver na África do Sul, Turquia, Jordânia, Líbano, Hungria, Brasil. Formada em Odontologia, Bruna conheceu um campo de refugiados em Johannesburgo, na África do Sul, em 2012 — período de pesquisa para mestrado em sociologia e mudança global da Universidade de Edimburgo, na Escócia. A partir dali, optou por um trabalho que desse visibilidade a imigrantes e refugiados.

Bruna conta que na primeira vez que pisou em um campo, em Beirute, viveu uma sensação de sufocamento.

— Ao caminhar pelas ruelas do campo, que muitas vezes formam labirintos, onde o ar não circula, e a luz do sol não chega, eu não conseguia respirar.

Essa sensação não é consequência apenas da geografia sufocante do lugar, segundo Bruna. É também decorrente do entendimento de que campos de refugiados são espaços de verdadeiro abandono político e social, em que pessoas vivem de forma muito precária.

A ativista relata que lhe chamou a atenção o sistema de distribuição de água, que não funcionava por uma rede subterrânea, mas sim, conjuntamente com a energia elétrica, onde a tubulação se emaranhava com a fiação. Esse “telhado mortal”, nas palavras dela, oferece risco aos moradores e é responsável pelo grande número de pessoas que morrem, todos os anos, eletrocutadas.

Apesar das dificuldades, Bruna conta que os refugiados recebem os visitantes com carinho e hospitalidade. Ela lembra, especialmente, das crianças que falavam os nomes de jogadores de futebol brasileiros como sinal de simpatia.

Uma torneira é usada,
em média, por
250 pessoas
nos campos de refugiados
em todo o mundo.
Fonte: Oxfam
Muitos refugiados têm
menos de 3,5 metros
quadrados de espaço para viver,
o que torna o isolamento
social quase impossível.
Fonte: Oxfam
“Em dias de isolamento, eu lia o Alcorão e poesia”, conta a palestina Sana

A Geopolítica, ramo da Geografia que busca interpretar os fatos atuais e o desenvolvimento dos países por meio das relações entre eles e das estratégias do poder político, é um assunto que interessa Kian Godinho. Prestes a fazer vestibular, o adolescente que mora em Florianópolis gosta de estudar sobre o mundo. Foi com “é um prazer poder ajudar”, segundo suas próprias palavras, que o rapaz de 18 anos aceitou escrever uma carta. Nela, inclusive, revelou uma feliz coincidência sobre leituras, já que a pandemia havia suspendido algumas atividades:

— Os cursos de inglês e de aviação que eu fazia estão parados, não estou mais trabalhando e passei a ler sobre a situação no Oriente Médio.

Hanan
Prestes a fazer vestibular, Kian gosta de estudar sobre o mundo.


Assim, era natural que a carta de Kian fosse enviada para Gaza. A resposta de Sana, de 10 anos, veio rápida. Ela é uma das moradoras de um campo com cerca de 3 milhões de palestinos. Sana é bastante criativa e participa de um projeto de educação para crianças de até 12 anos. Foi Razan Alsa’Fin, responsável pela atividade com as meninas, quem auxiliou Sana a contar sobre sua rotina.

— Em dias de isolamento social, por causa da pandemia, eu lia o Alcorão e poesia, e orava. Eu gosto de passar meu tempo no YouTube, onde assisto a desenhos, recito poesia e memorizo ​​um poema popular sobre a Palestina.

O cotidiano de Sana mostra que nem todos os campos de refugiados no mundo são iguais. Alguns possuem mais estrutura, consequência do tempo de existência, da organização interna e da articulação internacional. Em 1950, a ONU criou a Agência de Assistência aos Refugiados da Palestina — Unrwa, pela sigla em inglês —, que administra 58 acampamentos. Com a primeira invasão à Cisjordânia e à Faixa de Gaza por forças militares israelenses, em 1927, os palestinos se espalharam.

Muitos encontram-se distribuídos por Gaza, Cisjordânia, Síria e Líbano. No total, são 8 milhões de refugiados da Palestina pelo mundo, número pouco superior ao da população de Santa Catarina, estimada em 7,2 milhões em 2020, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ainda que longe, defendem seu território e sonham com a volta.

Quando Sana escreveu para Kian, apesar do avanço da pandemia que levou ao fechamento do campo, havia um clima de paz aparente em Gaza. Porém, em 16 de setembro, foguetes e ataques aéreos elevaram a tensão com Israel. Consequência da assinatura, em Washington, dos acordos de normalização das relações entre Israel e Emirados Árabes.

Ocorre que tanto a Autoridade Palestina, que governa a Cisjordânia, quanto o grupo Hamas, presente em Gaza, reivindicam a parte oriental como a capital de um futuro Estado Palestino. A área está ocupada por Israel desde 1967. Quem sabe o “até depois” escrito por Sana a Kian, ao final da carta, seja prenúncio de um pacto definitivo de amizade, que termine com o que é considerado um dos impasses mais emblemáticos da geopolítica mundial.

Florianópolis, 09/07/2020
Caros companheiros palestinos,
Prazer, eu sou o Kian, tenho 18 anos de idade estou estudando para ingressar na faculdade, gosto de estudar sobre o mundo, ler sobre aviação, política e sociologia.
Ultimamente meus planos foram parados pela pandemia, os cursos que eu fazia de inglês e aviação estão parados, não estou mais trabalhando e passei a ler sobre a situação no Oriente Médio.
Como estão as coisas por aí?
Li algo sobre a anexação da Cisjordânia e me deixou revoltado, mas deixemos este assunto para outra carta.
O que vocês têm feito para se divertir? Vocês estão conseguindo estudar? Eu realmente espero que as coisas melhorem, liberdade à Palestina
Atenciosamente,
Kian

مرحبا كيان كيف حالك؟
اسمي سناء وعمري 10 سنوات. أنا أعيش في مخيم للاجئين في غزة. نحن أكثر من 3 ملايين فلسطيني. لدي أب وأم وشقيقان، في أيام العزلة الاجتماعية بسبب الوباء كنت أقرأ القرآن والشعر وأصلي. أحب أن أقضي وقتي في مشاهدة موقع يوتيوب حيث أشاهد الرسوم المتحركة وألقي الشعر وأحفظ القصائد الشعبية عن فلسطين.
جزء منها سأكتبه لك هنا:
أنا مقيد بالسلاسل في العالم بسبب العذاب. أعاني من آلام تلك التي تجعل رأسي يتحول إلى اللون الرمادي، لا أعتقد أن الحكم الشديد يخيفني ...
أفتخر أنني فلسطينية وأرفع رأسي...
كما تعلمت أشياء جديدة في هذه الفترة ، مثل القراءة ورواية القصص الجميلة.
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Paixão pelas artes une menina da Palestina e garoto de SC

Vicente Mitzra é um garoto que ama os Beatles. Tem 16 anos, mora com os pais e irmãos no bairro Carianos, no Sul da Ilha de Santa Catarina, em Florianópolis, e tem a guitarra como companheira. Acredita que "a música liberta" e está ligado ao que acontece no mundo. Por meio de leituras, aprofundou seu conhecimento sobre os palestinos que vivem espalhados por diversos locais. As dificuldades trazidas pela pandemia despertaram nele o sentimento de empatia pelos mais vulneráveis do Oriente Médio:

— Tempos difíceis que estamos vivendo. Tento imaginar como está a vida de vocês aí...

vicente
Fã dos Beatles, Vicente acredita que “a música liberta”.


Uma criança palestina de Gaza respondeu. Tolloen, de 10 anos, foi pragmática:

— Eu fiquei em casa isolada dos amigos e do mundo.

A menina de 10 anos tem algo em comum com Vicente: o gosto pelas artes, que se intensificou durante o isolamento.

— Pratiquei muitas atividades, como memorizar 16 suratas (capítulos) do Alcorão Sagrado, e descobri meus talentos: recitar poesia, cantar, atuar.

Assim como outros jovens, Tolloen encontra distração no YouTube. Pela internet, compartilha músicas e clipes, como um sobre o Eid al–Fitr — celebração nas mesquitas e casas islâmicas que marca o fim do jejum do Ramadã, o nono mês do calendário islâmico, considerado sagrado para os muçulmanos.

Além da escrita, Vicente e Tolloen fizeram trocas. Ele encaminhou um vídeo solando a guitarra. Escolheu a música “Imagine”, um clássico de John Lennon sobre um mundo sem fronteiras ou barreiras. Ela enviou um áudio com a melodia do Corão, com reverência a Alá, como os praticantes do Islamismo chamam a Deus, a quem consideram criador do universo e juiz da humanidade.

Florianópolis, 11 de julho de 2020.
Olá!
Meu nome é Vicente, tenho 16 anos, moro com meus pais e três irmãos. Minha família vive em Santa Catarina, na região sul do Brasil.
Nesse momento estamos passando por muitos problemas causados pela pandemia da Covid-19. Tempos difíceis que estamos vivendo. Tento imaginar como está a vida de vocês aí no Líbano.
Li algo a respeito, mas, quero saber de vocês sobre a realidade local. Por isso, gostaria de fazer algumas perguntas sobre o campo onde estão vivendo.
Vocês estudam?
Eu sou jovem e gosto de me distrair tocando guitarra e ouvindo música.
O que vocês fazem para se distrair?
Qual é a condição do lugar que vocês moram?
O que vocês gostariam que acontecesse para melhor a vida da sua família e do seu povo?
Quero dizer que eu gostaria muito da união da humanidade para que todos pudéssemos superar todas as dificuldades que o mundo atual nos impõe. Não tenho dúvidas que todos nós queremos um mundo de paz e liberdade.
Eu e minha família mandamos um grande abraço para vocês.
Vicente Mitzra

مرحبا،
اسمي تولين، أبلغ من العمر 10 سنوات، وأعيش في قطاع غزة التي يعيش فيها أكثر من 3 مليون نسمة.
بسبب الوباء كنت في المنزل معزولة عن الأصدقاء والعالم، ومارست العديد من الأنشطة في هذه الإجازة مثل حفظ سور القرآن الكريم، فأحفظ الآن 16 جزء منه، واكتشفت مواهبي مثل: إلقاء الشعر، والغناء، والتمثيل.
كنت أدرس عبر الانترنت وأكملت الدراسة.
لدي كليبات أغاني للأطفال تم إنتاجها العام الماضي، وشاركتها مع أصدقائي هذا العام أحدها عن العيد والآخر عن رمضان.
تم إنتاج كليب شعري لي عن القدس، ويظهر كثيرا على الفضائيات واليوتيوب…
أنا مشهورة بين أصدقائي عبر وسائل التواصل الاجتماعي، وأحب قراءة القصص الخيالية والأدبية.
أحب التصوير والصحافة والإعلام…
وكنت أيضا في العزل المنزلي أشاهد قصصا دينية وتربوية على اليوتيوب أيضا.

“Quero voltar à natação e cortar o cabelo”, diz palestino sobre pandemia

A família de Joud Mourad, de nove anos, escolheu o Brasil como novo destino. Em 2015, eles deixaram a Síria, fugindo da guerra civil que já matou cerca de 500 mil pessoas, conforme o Observatório Sírio de Direitos Humanos. O que começou como uma série de protestos populares conhecidos como Primavera Árabe contra o governo de Bashar al-Assad evoluiu para combates com grupos armados entre governo e oposição, com interferência internacional.

A pequena Joud escapou de uma realidade perversa. Quase 40% da população que não conseguiu deixar o país, em torno de 14 milhões, é formada por crianças e adolescentes. Ainda que os combates sejam mais localizados, a vida ficou insegura em todo o território sírio. Muitos refugiados morreram em travessias no Mar Mediterrâneo e tiveram que enfrentar a recusa de países europeus em acolhê-los.

joud
Joud deixou a Síria e vive no Brasil há quatro anos e meio.


A família de Joud mora em Florianópolis e gostou da ideia das cartinhas. Porém, fez uma ressalva: evitar falar da rotina na Síria. O pedido fez lembrar Eurípedes, 430 a.C, “Não tem maior dor no mundo que a perda da terra natal”.

— Vim para o Brasil e moro aqui há quatro anos e meio. Por causa do coronavírus, aqui todo mundo está em quarentena e ficando em casa — escreveu Joud.

Muyad Allah, de 11 anos, foi quem respondeu. O menino, que tem quatro irmãos e mora com os pais, escreveu de Gaza. Explicou estar cansado do coronavírus, e revelou um desejo: o de cortar o cabelo.

— Espero que o coronavírus desapareça para eu voltar a praticar natação, cortar o cabelo e jogar futebol.

Joud é uma entre os 1.018 sírios que vivem no Brasil, conforme dados do Conselho Nacional de Refugiados (Conare), ligado ao Ministério da Justiça. Há países em que os refugiados sofrem com ameaças de apagamento da memória histórica e com o corte dos vínculos com a pátria. O Brasil encontra-se entre os 192 países membros das Nações Unidas que estabelecem cotas anuais de reassentamento, além da aceitação das pessoas que chegam espontaneamente às fronteiras.

Não se tornar um país xenofóbico é tudo de que precisamos. Com isso, outras crianças poderão fazer como Joud e desenhar a bandeira do Brasil em suas cartinhas.

8.7.22
Oi,
Meu nome é Joud, tenho 9 anos, e eu sou da Síria. Vim para o Brasil e moro aqui há quatro anos e meio. Por causa do coronavírus aqui no Brasil todo mundo está em quarentena e ficando em casa. A minha rotina é assim: eu acordo, tomo o café da manhã, depois fico estudando em casa com a minha mãe e minha irmã por três horas. Depois assisto televisão por uma hora, brinco com a minha irmã por 2 horas. Às vezes eu, minha mãe e minha irmã saímos de casa com máscaras para dar uma volta perto de casa. Com máscaras e sem encostar em nada por causa do coronavírus. Fazemos isso depois do almoço junto com a minha família. Depois assisto um filme comendo pipoca ou fruta. Em seguida eu escovo os dentes e durmo, até as 9h. Esta bandeira é do Brasil.
Joud.

مرحبا
أنا مؤيد بالله وعمري 11 سنة،
لدي 4 إخوة وأم وأب، كنت أدرس عبر الانترنت فترة العزل المنزلي، وأشاهد قصصا بالعربية.
أنا تعبت من كورونا بسبب الحجر المنزلي، حيث أحب لعب كرة القدم والسباحة.
أتمنى أن تختفي الكورونا وأمارس هوايتي في السباحة والشعر وكرة القدم.

“Receber uma cartinha de outra criança pode significar esperança”, afirma psicóloga

A pandemia afetou o estado emocional de todas as pessoas, de uma forma ou de outra, explica a psicóloga Shahla Costa Othman. Independentemente do lugar onde vivem, da religião que pratiquem ou da situação socioeconômica que tenham, crianças e adolescentes foram impactadas de forma particular. O tempo excessivo dentro de casa, a falta da escola, a saudade dos avós são queixas bastante comuns. Porém, devido às condições em que vivem, meninas e meninos em campos de refugiados sentem um peso maior.

— Se pensarmos em um dos campos de Gaza, o Al Amari, onde 8 mil pessoas convivem num espaço de um quilômetro quadrado, podemos imaginar o que significa ter que ficar trancado — observa.

Outras privações existem além da escassez de espaço, como o acesso negado à saúde, à habitação, à infraestrutura. As dificuldades financeiras das famílias restringem opções de entretenimento, o que agrava a situação do confinamento. A psicóloga lembra que devido à vulnerabilidade, as crianças nos campos podem crescer com marcas profundas nascidas do medo, da insegurança, das violências. Mas considera que algumas ações, ainda que simples, podem ajudar na cicatrização: aspas

Se pensarmos no campo de Al Amari, onde 8 mil convivem num espaço de um quilômetro quadrado, podemos imaginar o que significa ter que ficar trancado.


— Receber uma cartinha escrita por outra criança, e de um lugar tão distante, pode significar esperança para elas — diz.

Para Shahla, a mensagem recebida é de que existe um lugar melhor, que alguém se importa com a vida dela, que nem todo mundo é ruim.

Menos de um quarto dos refugiados
do mundo chega ao
ensino secundário
Apenas 1% dos refugiados
tem acesso ao
ensino superior
Fonte: Oxfam
Garota de SC e menino palestino sentem falta do contato com amigos

Em julho, quando Sarah Liz Santana, de 13 anos, escreveu sua cartinha destinada ao Oriente Médio, Santa Catarina enfrentava uma escalada assustadora da pandemia. O Estado onde mora a garota registrava aumento no número de infectados e incremento da taxa de ocupação de leitos nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs). As pessoas davam sinal de cansaço, e o isolamento social de mais de três meses virou assunto.

— Nos últimos 120 dias, por causa da pandemia, estou em casa isolada e tendo aulas on-line. Mas isso não ameniza a saudade que eu sinto dos meus amigos.

Sarah
Com 13 anos, Sarah adora estudar artes e português.


Ao Sul da Capital de Gaza, no bairro de Zeitoun, que significa azeitona, Mohammed, de 10 anos, também reclamou:

— Estou cansado desta história de pandemia do coronavírus porque é cansativo estudar pela internet.

Tanto a catarinense como o garoto palestino reclamam da falta de contato com amigos e das rotinas tão importantes para o desenvolvimento e a socialização.

Florianópolis, julho de 2019
Oi, meu nome é Sarah. Eu tenho 13 anos e moro numa ilha com 700 mil habitantes ao sul do Brasil. Ano que vem vou passar para o Ensino Médio e adoro estudar a Língua Portuguesa e Artes.
Nos últimos 120 dias, por causa da pandemia, estou em casa isolada e tendo aulas online e por meio de vídeo chamadas e site da internet. Mas isso não ameniza a saudade que eu sinto dos meus amigos. Atualmente estou de férias.
E você, tem uma rotina de aulas, de escola?
Durante estes dias confinada eu redescobri minha vontade de desenhar e estou me dedicando muito a isso. Você também descobriu alguma atividade legal neste período?
Eu soube que você vive num campo para refugiados e tenho muita curiosidade em saber como são seus dias aí? Você gostar de ler, que tipo de conteúdo? Gostar de estar com seus amigos e o que mais gosta de fazer com eles? Eu gosto de ouvir música de diferentes estilos. E você, gosta de música? Que ritmo?
Espero que você esteja saudável e bem. Felicidades e tudo de melhor.
Sarah

مرحبا
أنا اسمي محمد
عمري 10 سنوات.. أعيش بأكبر أحياء غزة في الزيتون، أحب أكل الفواكه،
وأحب لعب الكرة... ورسمت لكم حلمي بملعب أخضر حرمت منه فترة العزل المنزلي
تعبت من قصة وباء كورونا بسبب الدراسة الالكترونية المتعبة.

“Gostaria de poder ir ao mercado e comer doces”, relata Jana, que vive na Faixa de Gaza

Mais do que procurar respostas na internet sobre a vida dos refugiados, Gabriel Pedro, de 13 anos, preferiu fazer perguntas. Quis ouvir dos próprios moradores desses lugares como é a rotina de quem convive com dificuldades diferentes de um garoto como ele, que apesar da família grande, mora só com a mãe; e a despeito da violência que existe no nosso país, tem um mínimo de segurança assegurada pelo Estado.

— A pandemia mudou alguma coisa para você e seus amigos?

Jana, de 10 anos, que vive em um campo em Gaza respondeu para Gabriel.

— O período de isolamento em casa foi muito difícil. Eu fiz muitas coisas, inclusive ajudei minha mãe nas tarefas, mas gostaria de poder ir ao mercado e comer doces.

gabriel
Interessado pela rotina dos refugiados, Gabriel fez várias perguntas.


As restrições de locomoção e a necessidade de se evitar contato físico para impedir o avanço do coronavírus alteraram os cotidianos. No início da pandemia, em março, a Autoridade Palestina impôs o confinamento para impedir a propagação do vírus. Com a flexibilização do isolamento, a partir do fim de maio, a quantidade de casos iniciou uma trajetória de alta.

Os números são atribuídos ao desrespeito às restrições de reuniões e ao deslocamento de trabalhadores entre a Cisjordânia e Israel, país que também registrou aumento do contágio nas últimas semanas. O uso de máscaras tornou-se obrigatório. Assim como no resto do mundo, os moradores dos campos esperam pela vacina. Será a partir da vacinação em massa que Gabriel poderá pedalar com mais tranquilidade pela pracinha do bairro. Da mesma forma, Jana conseguirá ir ao mercado e voltar a comer doces.

Florianópolis, 12 de março de 2020
Oi, prazer.
Meu nome é Gabriel Lehmkuhl Pedro, tenho 13 anos e moro no Brasil, em Florianópolis.
Tenho uma família muito grande, mas moro com a minha mãe no apartamento.
Eu soube que você mora num lugar de refugiados e quem mora lá têm muitas dificuldades.
Vou te fazer perguntas. Você pode responder?
- Como você estuda passando tantas dificuldades?
- Quais são as comidas que você gosta?
- Você se sente seguro onde você mora?
- Agora nessa pandemia mudou alguma coisa para você e seus amigos?
Abraços,
Gabriel :-)

مرحبا
اسمي جنى لدي أختين وأخ .. وأنا بالصف الخامس الابتدائي …
لقد كانت فترة العزل المنزلي صعبة جدا…
كنت أعمل اشياء عديدة منها مساعدة أمي بالبيت، وتمنيت لو أخرج للسوق وتناول الحلويات
حفظت أغاني وسور من القرآن الكريم، ولعبت مع إخوتي وكنت أكتب قصصا مع أختي..
قرأت بتلك الفترة كتبا مرعبة وأخرى لطيفة، وكنت أمارس هوايات كالتمثيل والغناء والرسم واللعب..
أيضا كنت أدرس على هاتف الموبايل، وأتواصل مع أصدقائي عبر فيسبوك.
أتمنى الآن السفر إلى بلجيكا ومصر وأصبح دكتورة أو عالمة.
سوف أكتب لكم مرة أخرى
إلى اللقاء

“Tenho muitos medos, mas o maior deles é perder quem eu amo”, relata Luísa

Luísa Miliotti C. Von Hohendorff, de 10 anos, é irmã de Olívia, que também escreveu sua cartinha, enviada ao Líbano. Quem responde para ela é Mousa Majzoub, de 8 anos, que igualmente tem uma irmã: gêmea, chamada Rama, que também participou da troca de cartas. Luísa é aluna na Escola Autonomia, em Florianópolis, gosta de estar com amigos e tem muitos objetivos:

— Meu maior sonho é ser cantora. E o seu?

luisa
Luísa conta que sua fruta predileta é o açaí, e que ama cantar.


Mas também falou dos seus tormentos:

— Você tem algum medo? Eu tenho muitos, mas o que eu tenho mais medo é de perder quem eu amo.

Mousa foi linear nas respostas. Não falou dos medos, e sim de planos:

— Meu sonho é me tornar diretor de escola no futuro.

O garoto respondeu com a mesma gentileza de Luísa: mandou-lhe uma fotografia usando a camiseta da Seleção Brasileira. Por falar em produto nacional, Luísa contou sobre a fruta preferida:

— Eu amo uma fruta chamada açaí. É minha favorita. Infelizmente, ela só tem no Brasil. Eu espero que um dia você possa provar, e espero estar presente.
mousa
Mousa conta que sonha em ser diretor de escola.


Quem duvida? A resposta de Mousa é cheia de expectativas:

— Eu espero um dia visitar o Brasil. Desejo tudo de melhor para você e espero que um dia você possa visitar o Líbano.

Olívia e Mousa exercitam algo que torcemos para que nunca acabe: a amizade entre Brasil e Líbano. Há mais libaneses no Brasil do que no próprio Líbano, país que tem 3 milhões de habitantes, enquanto os descendentes e imigrantes residentes no Brasil variam de 8 a 10 milhões.

Oi! Meu nome é Luísa.
Eu tenho 10 anos, mas logo vou fazer 11.
Eu estudo na Escola Autonomia em Florianópolis. Eu tenho muitos amigos que sempre estão do meu lado para o que der e vier.
Minha melhor amiga é a Júlia. Eu a considero como uma irmã.
Meu maior sonho é ser cantora. E o seu?
Eu amo uma cantora chamada Melanie. Você tem um cantor ou cantora favorito? Quem é?
Eu amo uma fruta chamada açaí. É minha favorita, infelizmente ela só tem no Brasil . Algum dia eu espero que você possa provar, e eu espero estar lá pra ver! Qual é a sua comida favorita?
Você tem algum medo? Eu tenho muitos, mas o que eu tenho mais medo é de perder quem eu amo.
Eu ia adorar te conhecer e brincar com você!
Beijos e tudo de bom pra você!
Luísa Miliotti C. von Hohendorff

مرحبا لويزا ،
اسمي موسى مجذوب، أنا توأم مع أختي راما، أنا عمري 8 سنوات ، أنا في مدرسة برجا. أعز أصدقائي عيسى وحسن. حلمي في المستقبل أن أصبح مدير في المدرسة ، ليس لدي مطرب وموسيقي مفضلة. الفاكهة المفضلة لدي هي الموز والبطيخ. أتمنى أن آتي إلى البرازيل في يوم ما.
أتمنى لك كل التوفيق.
أتمنى منك أن تأتي وتزورين لبنان.
صديقك موسى مجذوب

“As trocas de cartas mostram que de alguma forma somos todos refugiados”, diz professor

A pandemia evidenciou que há muitas crianças brasileiras também vulneráveis. Porém, há diferenças em relação às refugiadas. Para preencher a ausência do Estado, voluntários, organizações e empresas desenvolveram ações como distribuição de cestas básicas, de roupas e de brinquedos, durante a crise do novo coronavírus no Brasil. O cenário é diferente do que ocorreu com a massa de refugiados que, sobreviventes às trajetórias de fuga por terra ou mar, viram a ajuda humanitária encolher pela necessidade de isolamento. aspas

Ouso discordar da máxima de que ‘estamos no mesmo barco’. Definitivamente, não! Estamos, sim, no mesmo mar: uns de iate, outros de barco e muitos lançados ao mar.


A Covid-19 escancarou diferenças em níveis globais, mas também a percepção de que a pandemia vem trazendo experiências únicas para todos. Algumas podem ser consideradas agradáveis, outras, nem tanto, mas sempre resultam em algo construtivo, visto que somos aprendizes por excelência.

— Ouso discordar, inclusive, da máxima de que “estamos no mesmo barco”. Definitivamente, não! Estamos, sim, no mesmo mar: uns de iate, alguns de navio, outros de barco, canoa, jangada, gôndola, bote e, infelizmente, muitos lançados ao mar, nadando a esmo para tentar escapar da onda pandêmica e, como não dizer, das guerras. Desta forma, é impossível não ver o quanto nosso planeta é desigual e excludente – diz o professor José Martins Abbade, mestre em Estudos da Linguagem.

Assim, diz ele, as cartas revelam que, independentemente da geografia, possuímos muito mais em comum do que imaginamos:

— O que temos pode variar, mas o que somos, em essência, em muitos alinhavos se entrelaçam, se tocam, se interseccionam, se interligam. Como se nossa dor, nossa alegria, nossa capacidade de, em meio ao caos, conseguir transpor o cais e através de garrafas digitais passar mensagens com histórias de vida, de resistência, de aprendizado.

Escritor, poeta e professor do curso de Letras da Universidade Católica de Salvador, ele observa que nas linhas e desenhos perpassa algo valioso que as bombas nos céus do Oriente Médio não conseguem detonar. Para Abbade — que é também professor convidado na disciplina Informação e Cultura Popular no Departamento de Ciência da Informação da Universidade Federal de Santa Catarina — , as trocas de cartas nos mostram que de alguma forma somos todos refugiados.

Santa Catarina tem mais de
80 nacionalidades
de imigrantes e refugiados.
Fonte: CadÚnico


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