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Contos de Natal

Olhares de esperança

Crônicas e contos de Natal

Duas semanas, talvez um mês. Lá por julho, por agosto, quem sabe em setembro. Quando tudo fechou em março deste ano e nos vimos trancados em casa ninguém imaginava que passaríamos também o Natal no meio de uma pandemia. Contamos os dias, contamos os meses, cansamos de prever datas. Contamos momentos de ansiedade, momentos de tristeza e solidão. Contamos também, com muita dor, mortes. Chegamos ao final de 2020, naquela que deveria ser uma das épocas mais felizes do ano, agarrados em finos fios de esperança. Com muitas sequelas de dias que passaram devagar e ao mesmo tempo rápido demais. Cansados das mesmas notícias e das mesmas rotinas, mas também com fé em dias melhores. Aquele fio que ainda resta, independentemente do significado que tem para cada um, é forte, e é quem nos segura de pé.

Do Sul ao Norte, do Oeste ao Litoral, na Serra e no Vale do Itajaí, em cada canto de Santa Catarina mora uma história de esperança. Para dar voz às diferentes regiões do Estado, convidamos colegas da NSC para escreverem contos e crônicas de Natal. Seja atravessando a baía da Babitonga, embaixo da figueira da Praça XV, próximo ao Desbravador, pelas ruas de Criciúma ou de Lages ou nos arredores da Vila Germânica, esses fios de esperança, em forma de sons, de silêncios ou de olhares, correm por toda Santa Catarina. Um ano difícil não tirou dos catarinenses a certeza de que tudo vai passar. Enquanto ainda observamos a vida da janela, o Natal segue cumprindo um dos principais propósitos: espalhar amor e esperança.

As três fases
do Papai Noel
Lariane Cagnini
Pelas ruas da cidade, que a essa altura já estava toda adornada de verde e vermelho, laços e pisca-pisca, Paulo seguia alheio ao espírito natalino. Já tinha passado da metade do mês de dezembro, mas para ele aqueles eram somente dias normais no calendário. Nada que remetia às festas de final de ano alegrava o mecânico, que tinha perdido o interesse por essas coisas desde que ficou viúvo.

Paulo nunca foi de muitos sorrisos. Nascido e criado em Criciúma, o pai tinha sido mineiro, e morreu jovem, aos 50 e poucos anos. O rapaz então assumiu o papel de “homem da casa”, e só o que sabia fazer era trabalhar. Forjado nos desafios da vida, também se dava poucos luxos, e os amigos eram raros. A relação com a família também não era das melhores. Ele era fechado, não procurava ninguém, e quase não aceitava convites.

Um belo dia, enquanto almoçava, escutou uma entrevista na televisão. O homem, voluntário há mais de 30 anos em diversas causas sociais, falava sobre uma campanha de Natal. “Na vida a gente passa por três fases: na primeira, a gente acredita em Papai Noel. Na segunda, a gente deixa de acreditar. Na terceira, a gente vira o Papai Noel”. Aquelas palavras não pareciam fazer sentido, mas ficaram na cabeça dele durante toda a tarde.

Enquanto arrumava os carros, todos em revisão para as viagens de final de ano, Paulo começou a ouvir uma música ao longe. O som ficava cada vez mais alto, até que pareceu estar dentro da oficina. Nem deu tempo de assimilar, quando um homem entrou pedindo ajuda. Alto, grisalho, ele vestia um colete vermelho, e contou que um dos carros da caravana que ia distribuir brinquedos nas comunidades carentes tinha estragado. Paulo foi dar uma olhada, era um conserto simples, que ele fez em cinco minutos. O homem perguntou quanto custava, mas o mecânico disse que era “presente de Natal”. O voluntário sorriu, e ao se despedir, comentou: “Na vida a gente passa por três fases: na primeira, a gente acredita em Papai Noel”. Paulo arregalou os olhos, e surpreso, sentiu um arrepio. O homem continuou: “Na segunda, a gente deixa de acreditar”. As lágrimas rolavam, involuntárias, por aquele rosto enrugado e sujo. “Na terceira, a gente vira o Papai Noel, e hoje você foi o nosso”.

Paulo respirou fundo, fez um aceno e sorriu de volta. Passou a mão no telefone, criou coragem e discou aquela sequência de números que há muito tempo não chamava. “Filho, sou eu, tudo bem? Mudei de ideia, vou pegar a estrada e passar as festas com vocês, tá bem? Manda beijo pra Ana, beijos nos guris, e pode dizer que o vovô tá chegando”. Desligou, e sentiu uma paz invadir o peito. Lavou o rosto, se olhou no espelho, e ao ver a imagem refletida, se permitiu, mais uma vez, sorrir. Seria coincidência, seria o destino, ou seria um milagre de Natal?


Lariane Cagnini, gaúcha radicada em Santa Catarina, mãe dos catarinenses Rafael e Gabriel. Produtora do Jornal do Almoço Criciúma, aprendo todos os dias a história daqui. O que mais gosto do Natal é o clima de amor, esperança, renovação. Pra mim, os melhores presentes.
Febre
de Natal
Cláudia Morriesen
E se São Nicolau não conseguir chegar?
Os olhos negros de Henry piscavam enquanto tentavam enxergar qualquer coisa no breu sem fim do quintal, que avançava pelo meio das árvores e não encontrava nem um fiapo de luz por toda a colônia. Já não era mais hora de criança de sete anos estar acordada, e diziam que o velhinho que saía da Lapônia não apareceria a não ser que todos estivessem dormindo. Do contrário, nada de surpresa no sapato de manhã.

Mas a preocupação de Henry o deixava de olhos arregalados ao mesmo tempo em que fazia corar suas bochechas e acelerava sua respiração. Tinha sido um menino obediente, limpado o terreno, ajudado as galinhas a ciscar e os porcos a fuçar, lavado atrás das orelhas e feito as orações. O protocolo estava completo, até aquele anúncio no jornal aparecer.

O pai o leu em português, mesmo com toda a dificuldade de Carl com o idioma. Fazia 24 anos que havia desembarcado em São Francisco do Sul, só para pegar outro barco, cruzar a Baía da Babitonga e chegar nas terras da colônia, que agora chamavam de Joinville. Construiu uma casa, uma oficina de marcenaria e uma família que tinha em Henry a única criança sobrevivente àqueles anos de privações e barracões sem vedação.

"A Comissão Sanitária desta cidade, de acordo com a Delegacia de Polícia, resolveu adotar medidas para obstar a introdução da epidemia atualmente reinante. Será colocada uma lancha no Rio Cachoeira, perto do Morro d' Ouro, para funcionar como estação de vigilância. Ninguém poderá passar sem antes ficar em quarentena".

Em 23 de dezembro de 1878, as fronteiras seriam fechadas. Era o que o pai podia traduzir daquele monte de palavras desconhecidas.

O São Nicolau com certeza seria enquadrado! Henry podia imaginá-lo, a barba branca sendo inspecionada pela comissão sanitária e os policiais dizendo: "Hum, hum, hum. Fai ficar na Barra de São Francisco! Non pode passar!", e o São Nicolau levando o saco de presentes para a beira da baía, sentando perto do trapiche, não muito longe de onde os corpos eram empilhados.

Isso também aparecia no jornal. Um morto no dia 5, dois no dia 11, quatro no dia 13, mais quatro no dia 15, e assim por diante, até chegar a 55 no dia 22; e o intendente mandar bloquear a divisa para aquela doença não entrar na cidade.

Era isso que tirava o sono de Henry. Não que tivesse medo da contaminação nem dos corpos. Ele sentia vergonha porque só conseguia pensar no seu direito de receber um presente na manhã de 25 de dezembro. E se o São Nicolau não conseguisse chegar? Ou, pior do que isso, e se o que ele, Henry, sentia naquela madrugada, ainda contasse para a lista de bons meninos, e ele perdesse a chance de encontrar um carrinho ou um boneco de madeira sobre os sapatos?

Duas batidas fortes na porta da rua o fizeram saltar na cama. O pai correu para abrir e a voz de Herr Oskar ecoou pela noite como um trovão.

— Herr Carl, precisamos de caixas de madeira! As senhoras da cidade se organizaram e vão mandar milho, ovos, açúcar, arroz, marrecos… tudo o que puder abrandar a dor do lado de lá da Babitonga. Os lancheiros vão sair na primeira hora da manhã! — esgoelava-se o homem.

O pai enfiou as botas e Henry não precisou receber nenhuma ordem. Saiu pela noite atrás dele, na oficina, e se ocupou com pregos e sarrafos até a luz do Sol aparecer. Depois, viu toda sorte de coisas serem colocadas dentro dos caixotes, de aves vivas a garrafas de cerveja, e pães, e os biscoitos de gengibre que a mãe tinha cuidadosamente montado e assado naquele mesmo dia.

Ele ainda podia sentir o cheiro dos biscoitos enquanto via a lancha partir. Já sabia o que estava por vir.

Quando voltou para o lado da cama, os sapatinhos permaneciam vazios. Na mesa, a mãe preparava novos biscoitos com o pouco de manteiga e canela que sobraram. Mesmo assim, quando encostou a cabeça no travesseiro, seu coração estava cheio. Ele tinha a certeza de que o São Nicolau havia passado por ali.


Cláudia Morriesen é joinvilense e editora do Jornal A Notícia. Quando criança, morria de medo de levantar à noite e encontrar o Papai Noel no meio da sala. Agora, é obcecada por comprar enfeites, montar o pinheirinho e fugir das filas dos papais noéis dos shoppings quando passeia com os sobrinhos.
Memória
de Natal
Jorge Jr.
O Natal vem vindo, vem vindo o Natal.
Quem não lembra disso? Aliás, se você não lembra isso diz muito sobre a minha idade. Os caminhões iluminados daquela marca de refrigerantes fascinaram uma geração, e em épocas sem redes sociais e afins, para descobrirmos quando e onde ele passaria, era pela TV, rádio e jornal de papel. E um informava o outro, boca a boca, e depois era convencer pai e mãe, ou tias, para levar para assistir eles passarem na Beira-Mar Norte, ali na Praça Celso Ramos. E tinha um urso branco nos caminhões, arrepiava de ver, emocionava e todos davam tchau. O legal é que os caminhões não passavam rápido, bem diferente do papa-móvel quando João Paulo II esteve em Floripa. Passou quase tão rápido quanto uma viatura em operação. Trauma.

Mas a beleza do Natal na Capital, além da passagem do caminhão, sempre foi fazer graça na praça: XV! Presépio grande, às vezes com ovelhas de verdade, figueira e demais árvores cheias de pisca-pisca, show com coral e a chegada do Papai Noel na escadaria da catedral. Era lotado, não tinha coronavírus, todo mundo junto e encantado. Tão encantado quanto assistir, até com lágrimas nos olhos, Renato Aragão e Xuxa descerem de helicóptero no centro do gramado do Estádio Orlando Scarpelli, lotado, num calor senegalês de dezembro, e vê-los correr pelas passarelas até bem próximo do público e ouvir infindáveis playbacks de sucessos da Rainha dos Baixinhos e do Didi Mocó Sonrizep Colesterol Novalgino Mufumbo.

25 de dezembro celebramos o nascimento do menino Jesus, seja lá qual for a sua fé. E neste início do mês, também menino, filho de pais adolescentes, uma realidade na nossa sociedade, veio ao mundo o pequeno Luan. Tal qual o aniversariante do dia 25, Luan nasceu em uma casa. A mãe havia ido ao hospital, mas foi liberada para voltar ao lar por não ser a hora. E quem decidiu que era a hora de vir foi o Luan.

O menino nasceu em casa, o Samu foi chamado, como se fossem reis magos. A casa, no entanto, fica numa viela do bairro Monte Cristo, na Capital, que mal passa uma geladeira. Mãe e Luan na maca, a comunidade, como sempre, se uniu para ajudar a passar os dois, pelo alto, sem se machucarem. Luan foi apresentado para a lua no primeiro dia, não numa cena de Rei Leão, mas numa bem real. Os pais, ainda adolescentes, ganharam em dezembro um presente de Natal para toda a vida. O ato de amar um filho é o maior presente que se pode receber. Eu tenho dois presentes.


Jorge Jr., manezinho, pai do Théo e da Iara, produtor da CBN Diário e uma criança que acreditou em Papai Noel até ver o padrinho com um travesseiro na barriga e barba falsa. Já fui Papai Noel e até hoje não esqueço do olhar de uma menina que acreditou que eu era o Santa Claus.
É quase
Natal
Gilmar Fochessato
Da janela do apartamento, olho para o Desbravador, imponente, mantendo seu destaque. Mas hoje, pela solidão...
Não há luzes, não há decoração em torno da região em que fica o monumento. Não há o olho brilhando da criança nos ombros do pai. Não há o sorriso faceiro da senhorinha de cabelos brancos relembrando tantas histórias passadas. Não há famílias interagindo com outras famílias, o reencontro de velhos conhecidos...

A praça não tem casa do Papai Noel, bonecos dançantes, renas e outros bichinhos que chamam a atenção dos pequenos. Nem vendedores ambulantes disputando espaço pra fazer um último “troco” no fim de ano. Nem o artista que podia, ali, mostrar mais uma vez seu talento. Ou até, quem sabe, pela primeira vez...

Sinto falta de tudo isso? Claro que sim. Mas penso imediatamente em quem está em outro lugar, também sem decorações brilhantes. Quartos brancos, cores opacas... Gente à espera de uma boa notícia. Uma informação que traga conforto e que estanque a aflição e o sofrimento. Quantas pessoas passaram por isso e veem neste fim de ano realmente a chance da renovação. Ou de fazer valer a pena – a partir daqui – por quem merece que o façamos assim.

Na avenida principal da cidade, carros seguem indo de lá pra cá. Sempre tem quem deixa algo pra última hora. Tem loja aberta ainda… A pé, passam também pessoas fazendo exercícios. Ou só quem está na rua por pura curiosidade mesmo. Tomara que depois desses afazeres, que não me dizem respeito, o caminho desta gente seja em direção a conscientização. Precisamos ter aprendido a como fazer uma comemoração da maneira mais prudente possível.

O cenário, com movimento mas sem brilho, do centro da cidade, reflete o que vivemos até aqui.

Volto meus olhos para ti, Desbravador. Você, que é símbolo de um povo que luta e não desiste até alcançar. O próximo Natal estará mais iluminado a sua volta, creio... Não só de luzes que piscam, mas pela esperança que aprendemos a renovar após momentos tão difíceis. Ao seu lado, na Catedral Santo Antônio (ou onde cada um tiver seu refúgio de oração), seguiremos rezando para respeitar a história de quem não está mais entre nós. E também para que a empatia e o cuidado com o outro sejam nossos presentes: pra nós mesmos, pra quem gostamos e até mesmo pra quem nem conhecemos. Presentes que durem bastante (quem sabe, pra sempre) e representem um novo jeito de viver, uma nova vida, como o verdadeiro espírito do Natal.


Gilmar Luiz Fochessato, 43 natais, 18 deles com o Lucas, 11 deles com o Augusto. Tenho fotos com cara de assustado ao lado do papai noel quando criança, mas ainda acredito na mensagem de inspiração do bom velhinho a cada fim de ano. Já fui repórter, apresentador, editor-chefe e hoje coordeno o jornalismo da NSC TV em Chapecó.
O ano do
Espírito natalino
Eduarda Demeneck
2020 foi o ano em que o espírito de Natal esteve presente na vida de muitas pessoas e não só nesta época. Foi o ano em que aprendemos a olhar para o outro de verdade. A solidariedade pulsou forte em muitos momentos desta pandemia. Quem ajudava se viu na missão de fazer ainda mais. Exemplo disso está no bairro Guarujá, em Lages, um dos maiores da cidade, com quase 15 mil habitantes. Por lá uma ONG fez a diferença. Uma pizzaria foi transformada em um local de esperança. Quase todos os dias marmitas quentinhas saíam direto para a mesa dos mais necessitados. Famílias que perderam emprego, e que tinham naquela marmita o único alimento do dia.

No meio de tantas incertezas, irresponsabilidades e sentimentos de ódio... Encontramos também o amor, a empatia, a doação. Foi o ano em que mais nos colocamos no lugar do outro. Em que ajudar nunca foi tão fácil. Teve gente cuidando dos mais velhos, fazendo o mercado para quem não podia sair, se solidarizando, levando esperança de dias melhores. Aliás, vivemos um ano esperando dias melhores, sem perceber que pra ser melhor muitas vezes dependia da gente. Reclamar menos, viver mais com as possibilidades que nos eram apresentadas. Curtir a casa, a família. Talvez nunca mais tenhamos a chance de ficar tão próximos dos nossos filhos, de vê-los crescer tão de perto...

Demos mais valor à escola, a família, a um encontro com os amigos. Sem falar nos abraços... Ah, como os abraços fazem falta. Nos tornamos virtuais para aprender a importância da presença. Foi preciso coragem para levantar todos os dias e encarar 2020 de frente, com determinação, responsabilidade e resistência.

Enquanto caminhava pelas ruas de Lages, iluminadas e decoradas para o Natal eu pensava, “2020 foi o ano dos fortes, feliz de quem chegou até aqui”. Mesmo diante de tantas perdas, de tantos desafios e tristezas, é preciso enxergar as conquistas, as transformações e o aprendizado. Se chegamos até aqui com certeza nos transformamos. Espero que em pessoas melhores. E para encarar 2021 será preciso ter viva a magia do Natal, ela nos impulsionará a fazer a diferença na nossa casa, no nosso trabalho, na nossa vida e na vida das pessoas que amamos. A esperança é que em 2021 possamos estar mais perto, mais presentes. Mas, enquanto isso não acontece, seguimos aprendendo a valorizar cada momento, cada abraço, cada sorriso, mesmo que por uma tela.


Eduarda Demeneck, repórter da NSC na região da Serra e Meio Oeste. Mãe do Heitor, que ama o Natal (assim como o frio) e que depois de ser mãe viu na data um significado ainda maior. Para mim essa é a época do ano mais mágica, voltamos a ser crianças e acreditar que o Papai Noel existe, sim! Quem não acredita não ganha presente... Como tudo na vida é preciso ACREDITAR!
A sujeira que eu sempre
quero repetir no Natal
Adriana Krauss
O cheirinho da casa já está diferente e me remete à década de 1980, quando minha mãe, eu e meus irmãos passávamos as semanas antes do Natal fazendo biscoitos na casa onde cresci na região Sul de Blumenau. Não era só tradição, era diversão em família. Para nós, crianças, pura brincadeira. Hoje, depois da maternidade, posso dizer que era, também, tempo de qualidade com minha mãe.

Fecho os olhos e me lembro dos detalhes. A massa sendo esticada sobre a mesa de madeira, a textura da farinha, os rostos brancos feito fantasmas, nós três disputando as forminhas de diferentes formatos: anjo, lua, pinheiro, boneco, bota, guirlanda. Minha preferida era a de estrela cadente. Fazíamos biscoitos a perder de vista, enchíamos latas enormes e eles duravam uma boa parte do verão. Era uma delícia estender o gostinho do Natal para a temporada na praia, já que os biscoitos viajavam com a gente. Sempre havia espaço na bagagem para as saborosas tradições de fim de ano.

Dia desses, quando minha mãe – agora vovó – estava lá em casa cuidando das meninas por conta das escolas fechadas nesta pandemia, resolvi fazer uma receita que encontrei na internet e repetir a cena lá dos anos 1980, gatilho proposital para minha memória afetiva (uma maneira, também, de lembrar de meu irmão que já se despediu há mais de dez anos por conta de um câncer. Ele era encantado por esse momento em família).

Fomos as quatro para a cozinha. Ovos, farinha de trigo, açúcar, gotinhas de baunilha, uma quantidade generosa de manteiga e de paciência, e pronto. Duas horas garantidas de diversão. Cozinhar sempre teve esse tom de brincadeira aqui em casa e sinal verde para os deslizes de principiantes.

Rimos, disputamos as forminhas, fizemos bagunça e sujeira até o teto. O empenho rendeu duas fornadas e o cheirinho de infância tomava conta do apartamento. Assim, eu começava a construir a memória afetiva de Natal de minhas filhas, que há dias pediam que eu encarasse o desafio de fazer biscoitos natalinos.

Foi minha primeira vez como protagonista desta lembrança que vem passando de geração em geração, vovó e netas foram as ajudantes. Tive dúvidas, achei que a receita ia desandar, mas juntas conseguimos estrear já com pedido de quero mais.

Os biscoitos desapareceram em poucas horas e as meninas (e até o marido) já fizeram a encomenda para as férias programadas lá para o fim de janeiro de 2021. O gostinho do Natal vai durar mais tempo desta vez e a bagunça na cozinha também. Que bom!


Adriana Krauss é jornalista, mãe de duas meninas: Erika e Louise. A apresentadora do Jornal do Almoço em Blumenau e região, formada também em Letras, estreou como escritora de obras infantis neste ano de 2020. A literatura marcou a minha infância, assim como as tradições de Natal que não esqueço até hoje. Junte as duas, acrescente uma boa dose de imaginação e temos a receita perfeita para um fim de ano divertido e em família.

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EXPEDIENTE

ÂNGELA PRESTES
Texto e
desenvolvimento web

BEN AMI SCOPINHO
Ilustração
e projeto gráfico

MAIARA SANTOS
Produção e
desenvolvimento web

EVERTON SIEMANN
Revisão