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Priscila Diana: a primeira sargento trans da PM de SC

SARGENTO DIANA, QUE ATUA NO PLANALTO NORTE DO ESTADO, ARRISCOU A VIDA MUITAS VEZES COMO MILITAR, MOSTRANDO CORAGEM DENTRO DA CORPORAÇÃO. FORA, TAMBÉM. AOS 41 ANOS, É A PRIMEIRA TRANS A DEFENDER, COM ORGULHO, A FARDA DA PM EM SC: “NÓS EXISTIMOS E NÃO SOMOS FRUTO DE IDEOLOGIAS”.


Sargento Diana passou por muitas situações difíceis como militar. Viveu confrontos, presenciou desastres naturais e viu muitas pessoas morrerem. Ela própria quase perdeu a vida. Dentro e fora da corporação, sempre demonstrou sua força quando necessário, com muita coragem. Agora, aos 41 anos, faz história na Polícia Militar de Santa Catarina. Não por algum mérito profissional, mas por uma conquista de vida: ela é a primeira trans na história catarinense a vestir a farda da PMSC.


Nascida em uma cidade pequena do interior do Paraná, na divisa com Santa Catarina, e de família simples e religiosa, Priscila Diana recebeu educação rígida desde cedo. Ainda quando criança, já sabia que era diferente, mas não podia comportar-se como desejava por medo de ser repreendida. Também não recorda que idade tinha quando, furtivamente, começou a pegar as roupas e as maquiagens da mãe, para fantasiar uma realidade que nunca imaginou poder viver.

Foi assim durante a infância. E também durante a adolescência. Somente quando adulta, já com seus 30 anos, conseguiu dar vazão à inquietude que guardava em segredo. E foi então que aceitou sua condição e a encarou corajosamente, mesmo sem ter o apoio que esperava:

- Ao contrário do que muitas pessoas acham ser promiscuidade, influência da TV ou ideologia, eu já me entendia como mulher desde criança. Naquela época não existia informação alguma sobre esses temas. Somente já na fase adulta fui entender o que era e como podia me adequar.




Já estava na corporação há um bom tempo, embora não saiba precisar com que idade iniciou a adequação da imagem: tomar hormônios, realizar procedimentos cirúrgicos para adequação facial, iniciar o acompanhamento psicológico e, finalmente, assumir sua condição.

- Depois corri atrás da retificação dos meus documentos. Como já tinha laudos e acompanhamento foi mais rápido – lembra.

Com tudo pronto em sua vida pessoal, deu um novo e importante passo: informou dentro da corporação que assumiria sua condição, e solicitou a alteração de dados, também, na instituição:

- Meu comandante, para minha surpresa, me recebeu muito bem. E, mesmo sem saber direito como proceder, devido a ser o primeiro caso na PMSC, comunicou os canais superiores e deu início a um processo administrativo.




Em outubro de 2019, teve parecer positivo do comando-geral da PM, mas o procedimento foi concluído sem resolução. A sargento Diana teve apenas o nome social incluído aos sistemas internos, em vez da alteração completa da identidade.

Insatisfeita, Priscila Diana buscou na Justiça os meios para a mudança de nome e gênero dentro da corporação. Com auxílio de um advogado voluntário, ingressou com uma ação judicial e obteve, no Juízo da Vara da Fazenda Pública de Florianópolis, decisão liminar que determinou alteração dos dados funcionais. Agora, ela seria sargento Diana, na farda.

- O que era antes apenas um parecer favorável da PMSC, agora está reconhecido e não podem voltar atrás – comemora.



NA POLÍCIA MILITAR

Aos 19 anos, com forte senso de justiça e incentivada por familiares que já eram policiais, Priscila Diana entrou na PM. Na época foi apresentada à instituição com nome e gênero diferentes aos que a identificam hoje. E, embora seus documentos não a representassem verdadeiramente, não deixou de se especializar e aperfeiçoar sua técnica como militar.

- Sempre me esforcei muito na polícia, desde o início fazendo cursos, inclusive os que exigiam muita perseverança - lembra.

Em 2008, as chuvas que caíram no Vale do Itajaí provocaram deslizamentos de terra, de casas e, por consequência, causaram dezenas de mortes no Morro do Baú, em Ilhota. Entre as pessoas que perderam a vida, uma menina de oito anos foi encontrada soterrada pela equipe que atuava com a sargento Diana. A criança estava enrolada em um cobertor infantil e agarrada a um folheto de oração:

- Eu me lembro de um homem que andava desorientado de um lado para o outro, pois não podíamos subir porque os morros estavam instáveis. Eu insisti para meu comandante que deixasse subir para, pelo menos, dar um alento a essa pessoa. Depois de muita insistência, pois ainda havia risco, meu comandante permitiu e subimos. A menina que foi encontrada era sobrinha desse senhor – conta.


Com uma consolidada carreira militar – Diana está capacitada e chegou a atuar pela Força Nacional de Segurança Pública -, a sargento apela por mais empatia da sociedade. Para ela, a missão agora é provar que pessoas transgênero existem independentemente de área de trabalho, da criação que recebem ou que sejam fruto da “falta de religião”.

- Pessoas trans existem e sempre existiram. Se muitas estão na rua é por falta de oportunidade. Ninguém escolhe ou opta por ser transgênero. Se nasce assim, ao contrário do que se fala, de ideologia. Somos seres humanos e temos sonhos e objetivos. Nosso objetivo não é afrontar a sociedade ou desrespeitar como alguns pensam, apenas queremos viver e sermos felizes - conclui.

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TRANSIÇÃO

Priscila Diana não gosta de pensar em como era antes da transição. Fotos, não guarda nenhuma. A dor de viver por tantos anos dentro de um corpo que não a representava ainda não cicatrizou. Ela lembra com tristeza da vontade que sentia de brincar com um “brinquedo de menina” ou usar a desejada “sapatilha da propaganda”, quando criança. Por outro lado, se orgulha em detalhar como deixou a tormenta interna que sentia no passado, para viver um recomeço consigo mesma.

- O fato de você mostrar às pessoas que independente de seu gênero, elas conseguem realizar qualquer sonho, se acreditarem de verdade, não tem preço.

Diana lembra que iniciou a transição sem qualquer informação. Primeiro, usou hormônios de forma indiscriminada. Somente depois de muito tempo utilizando o medicamento sem orientação foi conhecer grupos dedicados a ajudar pessoas como ela.



- Meus maiores apoiadores foram o CPATT, onde tive o apoio médico e psicológico, a ANTRA e a Aliança, que me ajudaram com assessoria jurídica e apoio institucional – fala, com tom de agradecimento.

No Centro de Pesquisa e Acompanhamento a Travestis e Transexuais (CPATT), em Curitiba, Diana passou por acompanhamento psicólogo e médico. Já amparada pelo grupo voluntário, começou o processo de feminização, que consiste, dentre outros processos, em uma cirurgia facial. Mas enquanto trazia para o mundo toda a sua existência interna, enfrentou os mais diversos preconceitos: foi chamada de promíscua e até ouviu de pessoas que a adequação era uma afronta e um desrespeito.

- Eu sabia que seria difícil, mas só quando você sente na pele para saber como é.

Na própria família, sobraram poucas pessoas. Amigos, também não restaram muitos. Ao menos, não tantos como antes da transição. Foi no trabalho que a sargento se sentiu melhor aceita, “talvez, pelo fato da longa convivência e confiança mútua” entre ela e seus colegas.

- Minha relação com meus colegas sempre foi muito boa. Como sempre fui muito ativa na área operacional, sempre tive o respeito de meus colegas e superiores. E, após minha transição, recebi muitas mensagens de apoio de vários policiais – se orgulha.

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SARGENTO DIANA

No cadastro do SUS, o nome Priscila já existia. Diana veio logo depois, como sugestão de uma amiga que sabia das dificuldades que a sargento enfrentaria como policial, em suas atribuições diárias, e como mulher trans, ao assumir sua condição. "É o nome da Mulher Maravilha, já que você vai ter que brigar com o mundo", brincou a amiga. A sugestão foi aceita, com toda a humildade de uma policial que já enfrentou grandes adversidades e que está prestes a concluir mais um processo: o da formalização da nova identidade no cadastro da corporação.

Advogado voluntário, ligado a pesquisas que tratam sobre população trans, Marcelo Wacheleski, conta que a PMSC afirmou, na conclusão do procedimento administrativo, que a sargento somente poderia utilizar o nome Priscila Diana como social e, portanto, ela também não poderia utilizar vestiário, banheiro e demais dependências femininas, próprias de sua identidade de gênero:

- Foi para isso que ingressamos com a ação judicial e, com isso, obtivemos uma decisão liminar em que a juíza determinou a alteração do nome para Priscila Diana em todos os sistemas internos e identificações externas de fardamento, além de permitir o uso de vestiário, banheiro e demais dependências femininas que são compatíveis com sua identidade de gênero.



De acordo com o advogado, o reconhecimento em cargos é admitido no Brasil, hoje, para que se compatibilize com a identidade de gênero. Segundo ele, após alteração por decisão do STF, “é obrigação de todos, incluindo os órgãos públicos, respeitarem a identidade de gênero como parte da constituição da personalidade da pessoa”.

- Foi isso que não aconteceu no caso da Priscila Diana e nos exigiu intervenção por ação judicial. Enquanto todos os processos, administrativos e judiciais correram, sargento Diana deixou o cargo operacional, da qual muito se orgulha, e foi transferida para a Reserva de Armazenamentos, um trabalho interno. Deve permanecer na função até que todos os seus dados sejam alterados. Depois que a situação estiver regularizada, o desejo é um só:

- Segundo me falaram, depois volto a minha função. É o que gosto de fazer, estar na linha de frente com meus amigos, apoiando e orientando. Já me perguntaram “porque você se sujeita a tamanha exposição?”. E é justamente por isso, para mostrar às pessoas que nós existimos e que nossa situação é vulnerável, que não somos fruto de ideologias e que podemos exercer qualquer função.


CONHEÇA AS INSTITUIÇÕES DE APOIO
Fundada em 2000 na capital gaúcha, a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) é uma rede nacional de apoio, que desenvolve ações para promoção da cidadania da população de travestis e trans em todo o país. A entidade divulga a causa, denuncia violências e apoia pessoas que buscam nela auxílio. Alem disso, a Antra é autora de um estudo que mapeia a violência contra a população trans todos os anos.

CPATT
Criado em dezembro de 2013, o Centro de Pesquisa e Acompanhamento a Travestis e Transexuais (CPATT) é regulado pelo Ministério da Saúde e habilitado para atendimentos psicológico e hormonal de forma gratuita, através do Sistema Único de Saúde (SUS).
Para receber atendimento psicológico ou hormonioterapia, serviços oferecidos no local, é necessário buscar uma unidade básica de saúde, que fará o encaminhamento, como ocorreu com Priscila Diana.
Segundo a enfermeira Andressa Verchai de Lima, o CPATT de Curitiba é o único estabelecimento habilitado no Paraná para atendimento da população trans e já atendeu, desde a sua criação, 753 usuários. Atualmente, há 350 pacientes em acompanhamento.
- Hoje temos médico endócrino, que trata de hormônios e de saúde geral, psicólogos e a enfermagem que aplica a hormonioterapia em homens trans – diz.
Santa Catarina, ao contrário dos outros dois estados do Sul do país, não oferece serviços gratuitos, através a rede do Ministério da Saúde, para processo transexualizador.

A Aliança é uma entidade nacional, com representação em todos os estados brasileiros. Formada por voluntários de diferentes áreas, auxilia quem a procura de diversas formas, que vai de encaminhamentos psicológicos a acompanhamentos jurídicos. Advogado voluntário na instituição, Marcel Jeronymo Lima Oliveira explica que, sobretudo, a Aliança também trabalha para pressionar os poderes públicos para a garantia dos direitos e de políticas públicas para a população LGBTQI+.
É possível buscar auxílio da entidade através das redes sociais ou através do canal de denúncias da Aliança.

Publicado em 21 de maio de 2020
Edição de texto: Fabrício Vitorino. Design e desenvolvimento web: Maiara Santos.