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As bruxas condenadas ao Brasil

Acusadas. Torturadas. Expulsas.

As bruxas condenadas ao Brasil



Sob a luz de velas verdes, nua diante de um quadro negro onde havia pintado o rosto do Diabo, ela o invocava e o adorava. Feiticeira conhecida, Maria era requisitada para realizar casamentos e encontros desonestos. Com uma pequena pedra batizada em três pias de água benta, ela dava de beber à pessoa a qual pretendia enfeitiçar. Esposa de João Esteves, que partiu para Índia e nunca retornou, Maria Silva, mulher analfabeta de 40 anos, foi presa pela Inquisição de Lisboa em 1664. No primeiro interrogatório, questionada pelos inquisidores sobre a razão de estar presa, Maria não hesitou em dizer que “certamente era devido aos falsos testemunhos de seus inimigos”. Ao longo de todo o processo, ela negou as acusações, o que fez com que fosse conduzida pelo Santo Ofício à câmara de torturas. Desesperada, gritava pela Virgem dos Necessitados e pedia misericórdia. No auto-da-fé de 17 de agosto de 1664, ela foi condenada e expulsa de Portugal. Seu destino, o Brasil.

As informações do julgamento de Maria estão descritas no processo 7020, do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, de Lisboa, e revelam um pouco da verdadeira história das bruxas. O relato faz parte de um período que ainda choca pela crueldade e pela institucionalização da tortura. A Inquisição era formada pelos tribunais da Igreja Católica, que perseguiam os suspeitos de heresia. Muito antes da condenação de Maria, o Santo Ofício já deixava sua marca. Ainda em 1231, o papa Gregório IX criou um órgão especial para investigar qualquer um que professasse práticas diferentes daquelas reconhecidas como cristãs. A Inquisição Medieval, entretanto, tinha penas mais leves - geralmente a excomunhão.

A Inquisição era formada pelos tribunais da Igreja Católica, que perseguiam os suspeitos de heresia.



Foi na Espanha, em 1478, que a versão moderna passou a funcionar com toda a força. As punições eram mais pesadas, e o alvo geralmente era os judeus. O Tribunal do Santo Ofício português foi criado oficialmente, a pedido do rei de Portugal, D. João III, em 1536. Mas ainda antes disso, as autoridades já convertiam à força ao catolicismo ou então expulsavam do país os ditos hereges. A forma como a coroa portuguesa punia aqueles que não cumpriam as normas sociais e religiosas da época está ligada à colonização do Brasil.


No brasão da Inquisição de Portugal o ramo de oliveira representa a “Misericórdia” e a espada, a “Justiça”.

Criminosos do reino, escória da humanidade

Em 1500, quando Pedro Álvares Cabral aportou no litoral baiano, além dos “descobridores” chegaram também os degredados. No livro “Vadios e ciganos, heréticos e bruxas: Os degredados no Brasil-Colônia”, Geraldo Pieroni traça as principais linhas do banimento ao Brasil. Segundo ele, os dois primeiros habitantes portugueses que, oficialmente, fixaram morada na Terra Brasilis foram dois expulsos do reino. Nas viagens de exploração, quando os conquistadores tinham dúvidas a respeito da hospitalidade dos habitantes de uma terra estranha, faziam desembarcar, primeiro, um condenado. Se fosse bem recebido, a conquista dos nativos e das terras era feita. Caso contrário, se fosse capturado e morto, isso significava, simplesmente, um criminoso a menos.

O degredo, pena de desterro imposta judicialmente como castigo, foi uma prática muito utilizada, durante três séculos, em Portugal, pelo Antigo Regime. No Brasil, desde a chegada dos primeiros portugueses em 1500 até a independência em 1822, a forma de punição foi uma prática recorrente.




Castigo. Terror. Morte.

Instrumentos de tortura

Os condenados pelo Santo Ofício eram submetidos a duras práticas de tortura. No livro “Instrumentos de tortura e punição”, publicado pela Câmara Municipal de Castro Marim, de Portugal, são descritos os principais instrumentos utilizados pela Santa Inquisição.
Veja alguns deles:




Emigração. Ocupação. Povoamento.

Últimas fogueiras, crenças a bordo


Cerca de quinze anos depois da chegada de Cabral em Porto Seguro, acontecia a primeira expedição significativa em Santa Catarina, liderada pelo português Juan Dias Solis. Um bom tempo depois, em 1748, chegou ao Estado a primeira leva de açorianos. De 1749 a 1756, mais quatro transportes chegaram, com vários navios, que trouxeram cerca de 5 mil nativos açores para fixar moradia no litoral catarinense.

Segundo o historiador Aluísio Lessa, autor de pesquisa sobre o degredo na formação da fronteira Sul da América Portuguesa (Colônia do Sacramento, Rio Grande de São Pedro e Ilha de Santa Catarina), a vinda dos açorianos está ligada a uma necessidade da coroa portuguesa de povoar a fronteira meridional do Brasil para garantir a posse desses domínios e também, ao mesmo tempo, solucionar o problema de superpovoamento das ilhas dos Açores:

— Nesse período ainda estava sendo efetivada a ocupação do Sul pelos portugueses, com as construções de fortalezas (como as de Silva Paes na Ilha de Santa Catarina) aliada a um projeto que visava trazer novos moradores, pois a região possuía uma população e uma economia ainda incipientes. Em termos de Brasil, ainda se vivia o auge da mineração nas Minas Gerais, e isto levou a um desenvolvimento e maior atenção da Coroa para toda a Região Centro-Sul, desde o Rio de Janeiro até a fronteira meridional, diante das ameaças de invasões estrangeiras, que cobiçavam toda essa riqueza que circulava por conta da mineração.

Apesar de não haver qualquer relação entre eles, além dos casais açorianos o Estado também recebia os banidos de Portugal. Entre ladrões, adúlteros e assassinos, cruzavam o atlântico mulheres acusadas de feitiçaria. Aluísio explica que, embora o auge dos degredos pelo tribunal da Inquisição tenha sido nos séculos anteriores, havia ainda durante o século XVIII a possibilidade de banimento por acusação de feitiçaria:

— Ainda que neste século essas condenações tivessem experimentado um progressivo processo de declínio, elas ainda existiam nesse período de chegada dos açorianos. É preciso deixar claro, no entanto, que esses casais enviados ao Sul do Brasil não tinham qualquer relação com o degredo e os degredados que eram enviados nesse mesmo período.



Origem. Mistura. Cultura.

De uma ilha a outra, a bruxa resiste

A influência dos tribunais da Inquisição e as crenças trazidas pelos europeus ajudaram a criar o imaginário da bruxaria em todo o Brasil, inclusive em Florianópolis. De acordo com o historiador e coordenador do Núcleo de Estudos Açorianos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e presidente da Comissão Catarinense de Folclore, Francisco do Vale Pereira, desde a Idade Média as pessoas que trabalhavam com ervas, orações, cantos, com atitudes diferentes dos costumes e modos de vida da sociedade da época, eram consideradas bruxas ou bruxos.

Esse imaginário não está ligado somente à construção do personagem da bruxa, mas também à mudança de cultura como um todo. Os açorianos trouxeram com eles os medos, receios e incertezas da mudança para uma terra desconhecida. Francisco explica que esses sentimentos se fortaleceram com tantas descobertas que tiveram que fazer: o conhecimento do tempo, das estações do ano, da capacidade do solo de produzir, da alimentação, etc. E ainda a falta de padres para atender às necessidades espirituais daquelas pessoas, que eram, e são, muito religiosas.

— No Arquipélago dos Açores, ainda hoje, há muitas manifestações de eventos sísmicos, vendavais, tempestades, agitações do oceano, e tudo isso faz com que as pessoas se apeguem aos astros, às crenças e às forças divinas e sobrenaturais para acalmar a alma e o espírito — diz Francisco.

Entretanto, bem antes disso, os hábitos indígenas de práticas de curas com ervas nativas, danças, cantos, preparos de poções à base de areias, barro e veneno de animais peçonhentos contribuíram para a construção desse universo mágico.

— O hábito bruxólico, o ser bruxa, está conosco desde sempre, uma vez com os indígenas, e depois incorporado dos hábitos trazidos pelos que vieram para o território. Temos que destacar que muitos costumes chamados “bruxólicos” vieram para cá com os africanos trazidos para essas terras. Portanto, desde a vinda de expedições com europeus houve a chegada e mistura de conhecimentos e práticas de cura, que para muitos são bruxaria — explica.

Os hábitos indígenas de práticas de curas contribuíram para a construção desse universo mágico.


Uma vertente de narrativa sobre bruxas sem influência católica cristã enraizada foi identificada pela pesquisadora Sônia Weidner Maluf, doutora em antropologia social e autora do livro “Encontros Noturnos - Bruxas e bruxarias na Lagoa da Conceição”. Segundo ela, uma das características da cristianização das crenças e cultos pagãos é a introdução da figura do diabo como protagonista dos rituais e de pactos bruxólicos:

— Nas narrativas de bruxas e embruxamentos que ouvi e recolhi nos anos 80 nas comunidades em torno da Lagoa da Conceição, percebi que não havia a figura do diabo. As bruxas agiam por conta própria, de certo modo. O que me fez pensar que seria uma vertente do imaginário pagão ainda não cristianizada.

Ela recolheu depoimentos de diversas pessoas na comunidade e conseguiu traçar uma narrativa comum nas histórias contadas pelos moradores da Lagoa. Embruxamento de crianças recém-nascidas e roubo de canoas de pescadores pelas bruxas são alguns dos temas mais recorrentes.

Os depoimentos foram colhidos nos anos 1980, mas muitas lendas sobrevivem ainda hoje.


Ilha da Magia

O termo Ilha da Magia foi criado pelo governo como uma campanha publicitária de divulgação de Florianópolis. Mas é fato que o misticismo sempre esteve muito presente na antiga Nossa Senhora do Desterro. Um dos principais nomes que ajudou a documentar essas lendas e perpetuar a cultura local foi Franklin Cascaes. O artista deixou um legado com esculturas, desenhos, livros e até instrumentos antigos usados pelos moradores da Ilha. A pesquisa de Cascaes resultou em 42 conjuntos formados por esculturas representativas de figuras, ferramentas, instrumentos, utensílios e também maquetes de engenhos de farinha, rancho de pescadores e outros objetos. Além das esculturas, ele deixou mais de 1500 desenhos e centenas de anotações. Nos anos 1940, o pesquisador percorreu Florianópolis colhendo histórias, rezas, hábitos e costumes tradicionais.

— A obra de Franklin Cascaes foi fundamental para se conhecer a realidade da cultura popular da Ilha de Santa Catarina e do nosso litoral. Sem essa obra, sem as várias pesquisas de campo, das anotações que ele fez, dos relatos que ele registrou, nada disso do que vivemos, hoje, teria sentido. A obra de Franklin Cascaes é a alma da nossa cultura local, pois ela não se acaba jamais — explica Francisco.

Essas histórias seguem vivas até hoje. Se pelo centro da cidade a vida é mais corrida e não há tanto espaço para a imaginação, nos ranchos de pescadores, entre os nativos e os mais antigos a bruxaria ainda está viva.

— Basta ir num rancho de pescador, num engenho de farinha, numa vendinha ou boteco, numa quitanda de feira. Em todos esses lugares estão histórias que as pessoas têm receio de contar porque elas acreditam tanto que duvidam que quem está ouvindo acredite. Ou porque têm medo de que a Inquisição possa novamente se apresentar por aqui — reflete Francisco.


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EXPEDIENTE

ÂNGELA PRESTES
Pesquisa e
reportagem

BEN AMI SCOPINHO
Pesquisa, ilustração
e projeto gráfico

MAIARA SANTOS
Desenvolvimento web
e projeto gráfico

VINÍCIUS DIAS
Revisão