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    A China pós-coronavírus: sinais de vida, de censura e paranoia

    Em uma rua comercial no centro da cidade, as pessoas passeavam, mas as lojas estavam praticamente vazias

    03/05/2020 - 07h00

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    Por The New York Times
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    *Por Paul Mozur

    Hefei, China – Mais uma vez, estávamos sendo seguidos. O policial interrompeu nossa entrevista com um trabalhador da construção civil. Em seguida, assustou um comerciário que estava prestes a falar sobre o rígido lockdown da cidade.

    Por fim, ele saiu à paisana, tirou a farda e nos perseguiu por um shopping, vestindo uma camisa preta de manga longa. Quando eu olhava para trás, ele entrava em alguma loja. Em determinado momento, percebi que nos observava de trás de uma arara de roupas.

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    Para alguém que tentava ser discreto, ele era ridiculamente óbvio. Mas não importava. Sempre que eu e minha colega tentávamos conversar com alguém, ele assustava nosso entrevistado. Apesar de toda a propaganda xenofóbica, a intimidação e a censura na China, as pessoas comuns quase sempre estão dispostas a conversar sobre suas experiências. O policial estava lá para garantir que não falassem.

    Chegamos a Heifei, uma cidade de classe média na região central da China, para registrar como o país está superando a devastadora batalha contra o coronavírus. Desde o primeiro surto registrado em Wuhan, em janeiro deste ano, o vírus levou o governo chinês a fechar boa parte do país, interrompendo a vida diária e congelando setores importantes de sua enorme máquina de crescimento econômico.

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    Acreditávamos que em Hefei encontraríamos histórias de alegria e alívio, assim como das ansiedades e das dificuldades do retorno à vida cotidiana. O povo de Hefei traria lições para um mundo que enfrenta agora os mesmos problemas, e o trabalho e os gastos dessas pessoas poderiam representar o reinício necessário para o crescimento.

    Nosso amigo à paisana nos contou uma história diferente. Ele nos mostrou, mais uma vez, a preocupação das autoridades em controlar, por qualquer motivo, a narrativa que sai da China. Sua presença constante também foi um lembrete doloroso de que essa seria minha última viagem à China durante um bom tempo. Ao fim da semana, tive de sair do país, como parte da expulsão da maioria dos repórteres do "The New York Times", do "The Wall Street Journal" e do "The Washington Post".

    O policial nos impediu de contar uma história sobre renovação. Os sinais de vida são abundantes em Hefei. O trânsito ficava congestionado nas vias principais durante a hora do rush. O metrô andava com os vagões relativamente cheios e os parques estavam repletos de idosos fazendo exercício.

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    Hefei dá uma mostra de como as coisas são na China real. Similar a muitas cidades enormes, mas desconhecidas, do interior da China, oferece um retrato mais preciso da vida comum no país, ao contrário de megacidades riquíssimas, como Pequim e Xangai, onde vive a maior parte dos correspondentes estrangeiros.

    Hefei é uma capital regional com oito milhões de habitantes, que trabalhou para superar seu passado agrícola e manufatureiro, com o objetivo de criar e manter uma economia voltada para a alta tecnologia. Ainda assim, apesar de todos os seus prédios de escritórios e torres residenciais luxuosas, trata-se de uma cidade operária.

    Em uma rua comercial no centro da cidade, as pessoas passeavam, mas as lojas estavam praticamente vazias. Uma delas, a China Gold, parecia desesperada por clientes. A maioria dos funcionários estava na calçada, repetindo passos de dança ao som de música pop. Alguns seguravam cartazes. Outros, vestidos com uniformes de luta vermelhos, faziam referência a uma situação em que muitas famílias chinesas compram ouro. Porém, apesar de todos os esforços, ninguém queria comprar.

    Um dos funcionários nos chamou para dentro da loja para conversar. Ele admitiu que as coisas estão complicadas desde que as lojas reabriram as portas. A maioria das pessoas ainda está se recuperando do isolamento, segundo ele, e quase ninguém quer saber de gastar dinheiro com brincos de ouro.

    "As pessoas só estão olhando as vitrines, mas ninguém quer comprar", disse.

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    A entrevista só foi até aí. Nosso colega de preto voltou. Depois de ter a temperatura checada na entrada da loja, ele foi até o fundo e conversou com o gerente. Minutos depois, nosso entrevistado ficou ocupado demais para conversar, assustado demais para dizer o próprio nome – que geralmente

    é necessário para identificar quem está falando.

    Apesar de todos os sinais de retorno à normalidade, Hefei claramente ainda tem um longo caminho pela frente. As pessoas parecem confusas e preocupadas. Isso se deve, em parte, ao vírus. Mas outra parte são as táticas opressivas que mantiveram as pessoas dentro de casa por tanto tempo. Os vizinhos foram encorajados a relatar sempre que alguém quebrasse as regras e as punições eram severas.

    Em um elevador que levava a um restaurante popular da cidade, o Lady Luzhou, uma mulher cochichou para a amiga: "Se as pessoas do trabalho soubessem que saí para jantar, elas me matariam."

    Dentro do restaurante, um homem com quem falamos ficou visivelmente preocupado. Quando explicamos que éramos da imprensa, ele respondeu: "Não estou usando máscara porque acabei de sair do banheiro. Também estou comendo. Não dá para comer de máscara."

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    Depois de garantirmos que não o estávamos acusando de nada, ele admitiu: "Esse é meu primeiro dia de volta às ruas. Sinto como se tivesse segurado a respiração durante muito tempo." Ainda assim, havia sinais de que as coisas começavam a se normalizar. Os shoppings eram protegidos por homens com termômetros e recebiam uns poucos clientes cautelosos.

    Cafés e restaurantes mudaram a disposição dos móveis para evitar a transmissão do vírus. As mesas foram afastadas e todas as cadeiras estavam viradas para a mesma direção.

    Muitas lanchonetes estavam cheias. Algumas pessoas ignoravam os padrões predeterminados das cadeiras e ficavam frente a frente, conversando a poucos centímetros umas das outras, como na época em que respirar não representava um risco de infecção. No Lady Luzhou, os clientes pareciam beber mais do que de costume. Muitos também fumavam cigarros.

    Mas tínhamos de conversar com pessoas reais e, para fazer isso, precisávamos nos livrar da polícia. Caminhamos por uma viela perto de uma rua comercial, voltamos atrás e depois voltamos mais uma vez para ver quem estava nos seguindo. Agora, o policial estava acompanhado de mais seis ajudantes.

    Entramos em um carro que chamamos por intermédio de um aplicativo. Um dos policiais anotou a placa. Poucos minutos depois, o motorista recebeu uma ligação e, discretamente, descreveu para onde estávamos indo.

    O temor que motivou a polícia a nos perseguir também parecia se estender às pessoas comuns. Com o vírus aparentemente sob controle na China e tomando conta do resto do mundo, a propaganda do governo e os boatos espalhados pela internet têm procurado buscar bodes expiatórios em outros países. A imprensa tem divulgado novos casos trazidos por estrangeiros, sem deixar claro que muitos deles são chineses que retornam ao país. Isso tem gerado níveis alarmantes de xenofobia. Os temores são mais uma camada da nova onda de nacionalismo chinês, cuidadosamente incubada pelo Estado e que carrega consigo a desconfiança e a raiva aos estrangeiros.

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    Uma razão pela qual fomos até Hefei é que essa era uma das poucas cidades em que havia um hotel que aceitava estrangeiros.

    Enquanto comíamos um lanche em um McDonald's lotado antes de nos dirigirmos à estação de trem, minha colega e eu conversávamos em voz baixa quando um jovem de moletom amarelo se aproximou. Ele apontou para mim e disse: "Lixo estrangeiro! Você é um lixo estrangeiro! O que está fazendo no meu país? E você que está com ele, sua cadela!"

    Durante alguns minutos, ele nos cercou de modo ameaçador. Infelizmente, a cena e o fato de que ninguém disse nada no restaurante fizeram todo o sentido. Por mais triste que eu esteja de ir embora da China, pessoas como ele estão felizes por me ver partir.

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