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    A dificuldade de empresas para se livrar da China

    Para entender como as empresas estão respondendo à dinâmica e aos riscos da mudança, o "The New York Times" analisou três delas em três países que dependem fortemente da China

    29/06/2020 - 17h55

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    Por The New York Times
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    *Por Damien Cave, Motoko Rich e Jack Ewing

    À medida que a pandemia do coronavírus amplifica preocupações de longa data sobre a dependência econômica mundial da China, muitos países estão tentando reduzir sua exposição ao tipo de negócio de Pequim.

    O Japão reservou US$ 2,2 bilhões para ajudar empresas a retirar sua produção da China. Ministros europeus do comércio enfatizaram a necessidade de diversificar as cadeias de fornecimento. Vários países, incluindo a Austrália e a Alemanha, têm feito mudanças para impedir que a China, entre outros, compre empresas prejudicadas pelos bloqueios. O governo Trump também continua a pressionar por uma "dissociação" econômica de Pequim.

    Mas, fora dos círculos governamentais, nas empresas onde as decisões sobre manufatura e vendas são realmente tomadas, os cálculos são mais complexos.

    É difícil se livrar da China.

    Mesmo depois que sua má gestão inicial do coronavírus interrompeu a capacidade do país de produzir e comprar produtos do mundo, expondo ainda mais as falhas de seu sistema autoritário e levando-o a reforçar sua guerra de propaganda, o poder econômico chinês faz dela a melhor esperança para evitar uma prolongada recessão global.

    "Quando tudo isso começou, pensamos: para onde mais podemos ir? Então o resto do mundo também foi comprometido pelo coronavírus, e a China é quem está se reerguendo. E, embora seja apenas um mercado, ele é muito grande", disse Fedele Camarda, pescador de lagosta de terceira geração no oeste da Austrália, que envia a maior parte de seu produto para a China.

    Para entender como as empresas estão respondendo à dinâmica e aos riscos da mudança, o "The New York Times" analisou três delas em três países que dependem fortemente da China. Suas experiências variam, mas todas tentam descobrir quanto um rompimento é necessário – ou se podem enfrentá-lo.

    Implorando para retornar: pescadores de lagosta da Austrália

    Quando Camarda pescava lagosta na costa oeste da Austrália na década de 1990, seu produto acabava em pratos de vários países.

    A lagosta fresca ia para o Japão. A enlatada, para os Estados Unidos. O resto era vendido na Austrália ou para seus vizinhos mais próximos.

    Mas, a partir do ano 2000, a China começou a pagar mais por lagostas vivas e a encomendar mais. Isso levou a uma dependência quase total desse mercado e a um senso de complacência: no início deste ano, 95 por cento das lagostas da Austrália estavam sendo enviadas para vendedores e restaurantes na China.

    "Todos falamos sobre diferentes estratégias para superar o problema, para não depender tanto da China, mas simplesmente não conseguimos", afirmou Camarda.

    E isso ainda não aconteceu, mesmo depois que a necessidade de diversificação mostrou toda a sua força em 25 de janeiro.

    Foi quando a China, no meio de seu surto, parou de comprar. As autoridades fecharam os mercados de carne fresca, verduras e frutos do mar, forçando toda a frota de barcos de lagosta na costa oeste da Austrália – 234 ao todo – a parar de pescar. Mais de duas mil pessoas se viram sem trabalho.

    Camarda voltou para a água há apenas um mês. As encomendas para sua empresa, a Neptune 3, estão começando a vir novamente da China, a preços que são cerca de metade do que eram em janeiro. As encomendas também não são tão grandes, mas a indústria se uniu para tentar reconstruir seu laço com o país, em vez de procurá-lo em outro lugar.

    "Mesmo que o preço esteja baixo e a quantidade de produto seja menor, precisamos encontrar uma maneira de atender esse mercado, porque fornecer para ele é o que funciona para nós", disse Matt Taylor, executivo-chefe da Western Rock Lobster, associação profissional do setor.

    Há cerca de um mês, ainda havia um grande desafio: o envio. As cadeias de suprimentos foram afetadas, pois os aviões de passageiros que transportam grande parte da carga mundial estavam ociosos e o transporte diminuiu. Então, mais uma vez, o governo australiano interveio, dessa vez com cerca de US$ 70 milhões para subsidiar voos fretados para a exportação de frutos do mar.

    Apesar dos apelos por maior autossuficiência, diversificação e soberania, bem como das atitudes da China que prejudicaram as exportações de cevada e carne bovina, a Austrália não está fugindo do mercado chinês. Está subsidiando a volta.

    O otimismo da Alemanha em relação à China diminui

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    Na última vez em que a indústria alemã enfrentou uma grave crise, o alívio veio da China. O crescimento explosivo do país e a fome pela tecnologia ocidental ajudaram os exportadores alemães a se recuperar rapidamente da profunda recessão de uma década atrás.

    "Em 2008, recorri a dois mercados: China e Oriente Médio", afirmou Olaf Berlien, executivo-chefe da Osram, uma das maiores empresas de iluminação do mundo, com sede em Munique. Mas ele não espera que as vendas chinesas salvem a indústria alemã novamente. "A China ainda é um mercado, mas não é um mercado em crescimento", resumiu ele.

    A Osram já via uma baixa no mercado chinês mesmo antes que o coronavírus forçasse o país a entrar em quarentena. As vendas de carros caíram em 2019 após anos de crescimento na casa dos dois dígitos, em grande parte por causa da guerra comercial com os EUA.

    O problema é que não há outro mercado para assumir o lugar da China como um motor do crescimento mundial. A Índia tem potencial, mas é muito desorganizada, observou Berlien. Países do Oriente Médio como a Arábia Saudita e o Catar não são mais tão ricos, agora que os preços do petróleo caíram.

    As expectativas reduzidas da Osram para a China refletem um aprofundamento do ceticismo em toda a Europa em relação aos benefícios de recorrer à superpotência asiática em tempos de necessidade. Phil Hogan, comissário de comércio da União Europeia, ecoou as preocupações de autoridades da Alemanha e da França quando convocou um debate em abril "sobre o que significa ser estrategicamente autônomo".

    A Osram, que fornece lâmpadas para carros e outros usos, não precisou dessa deixa. Segundo Berlien, ela tem quatro fábricas na China, mas a empresa fabrica seus produtos mais sofisticados na Malásia, na Alemanha e nos EUA, devido à falta de proteção à propriedade intelectual na China. "A China não é mais o chão de fábrica do mundo", disse ele.

    Privadas de luxo do Japão

    A Toto faz o que os novos ricos da China realmente querem: privadas eletrônicas com assento aquecido, jato de água morna, bacia de cerâmica com uma bela forma e tampa automatizada.

    A empresa, maior fabricante de privadas do Japão, abriu seu escritório em Pequim em 1985, e sua dependência da China cresceu junto com a ascensão do país, que foi responsável por metade de suas vendas no exterior no ano passado. A Toto tem sete fábricas no país.

    Mas, mesmo depois que o bloqueio da China fechou a linha de montagem da Toto em janeiro e fevereiro, a empresa nunca considerou sair.

    Por um lado, é um mercado enorme com uma alta taxa de propriedade de imóveis e aumento da renda disponível. Por outro, muitos de seus trabalhadores têm o tipo de habilidade técnica de que a Toto precisa.

    "A China está perto do Japão e tem a força de muitas pessoas", declarou Sonoko Abe, porta-voz da Toto.

    Em reuniões diárias, os executivos discutiram "como podemos nos adaptar à situação", contou Abe. Embora a empresa tenha fábricas na Tailândia e no Vietnã, não tentou deslocar a produção, mas contou com um grande estoque.

    Muitas outras empresas japonesas, mesmo quando há incentivos para se instalarem em outro lugar, afastam-se lentamente da China, se é que o fazem.

    A fabricante japonesa de máscaras Iris Ohyama, por exemplo, tem fábricas em Dalian e Suzhou, que produzem mercadorias para os mercados chinês e japonês. Ela vai usar fundos do governo para abrir novas fábricas no Japão para acomodar o mercado interno, e está explorando opções na França e nos EUA.

    Mas não tem planos de parar de fabricar na China. "Achamos que o mercado chinês é muito importante no longo prazo", disse a porta-voz Atsuko Kido.

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