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A história de Tite, técnico da Seleção Brasileira 

Simplicidade, lições em títulos e derrotas e valores passados pelos pais formam perfil do comandante da Seleção Brasileira, que estreia neste domingo na Copa do Mundo

16/06/2018 - 02h00 - Atualizada em: 22/06/2018 - 11h31

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Por Redação NSC
Adenor Bachi, o Tite
Adenor Bachi, o Tite
(Foto: )

A história de Tite começa em um caminho cercado por morros descampados, com ovelhas e plantações de frutas típicas do frio, como maçã, caqui, pêssego e ameixa. A via liga a rodovia de acesso a Caxias do Sul ao bairro São Braz, no interior da cidade. O casal de descendentes de italianos Genor e Ivone Bachi morava com a filha Beatriz em uma casa simples ao lado da igreja da comunidade. Era de Ivone a missão de cuidar do local. Lá nasceu o segundo dos três filhos do casal, Adenor Leonardo Bachi. Um parto à moda antiga, em casa, há 57 anos. A família seguiu ali por mais dois anos até se mudar para a rua Sinimbu, bairro de Lourdes, mais agitado e perto do Centro. Nos fins de semana, porém, seu Genor seguia cruzando a estrada do interior para voltar a São Braz.

Entre um jogo e outro de bola de gude e arremessos de funda, o ainda menino Adenor jogava bola com garotos da idade dele, como Jorge Palandi, hoje com 60 anos. Naquela época, conta, ele já demonstrava senso de liderança e gostava de organizar o posicionamento dos meninos em campo. Aos 12 anos, começou a jogar no meio-campo do Esporte Clube Juvenil, o tricolor branco, azul e vermelho do bairro São Braz, fundado em 1930. Genor era o treinador do time, mas não aliviava nas exigências com o filho Adenor.

O primo de Tite, Rufino Gerônimo Mazzocchi, 79 anos, ajudou a construir o campo e também foi um dos maiores artilheiros do Juvenil nos anos 1960. Ele lembra que o time dava sufoco até mesmo em equipes profissionais. Os adversários diziam que os “gringos” (imigrantes italianos na região) do Juvenil eram acostumados à vida no campo e poderiam correr oito dias sem parar. Curiosamente, foi a cadência e a habilidade de Adenor que chamava a atenção.

– Uma vez levei ele e outras crianças daqui para passar 15 dias na praia. Lá, fomos jogar com um time local, mas tive que tirá-lo de campo porque eles começaram a querer bater muito forte nele. Já viam que era um cara diferente – relembra Rufino.

Primo de Tite, Rufino Gerônimo Mazzocchi
Primo de Tite, Rufino Gerônimo Mazzocchi
(Foto: )

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Pão duro e vaidoso, Tite já foi office-boy

Tite e a comunidade de São Braz só se encontravam nos fins de semana. A maior parte da infância dele ocorreu mesmo na nova casa. Para a irmã Beatriz Bachi Marchett, 59 anos, a mais velha dos três filhos de Genor e Ivone, até hoje Tite é apenas Ade. As lembranças delas denunciam que a calma que o atual treinador da Seleção Brasileira parece transmitir hoje não era tão latente na infância. Ade vivia na rua jogando bola. Não importavam os gritos da mãe ou as ameaças feitas com o ferrinho do fogão quente ou com a régua de costura. Mesmo dentro de casa, o assunto na televisão, no rádio e nas conversas de Ade, do caçula Ademir e do pai Genor era futebol dia e noite. Era um alívio para a irmã quando os meninos brincavam de virar figurinha ou quando ela tentava, normalmente sem sucesso, apresentar alguma música aos meninos da casa. Quando isso não ocorria, a jovem Bea ajudava a mãe com a costura em casa e, não nega, às vezes ficava deslocada.

Quando Ade chegou à adolescência e o futebol teimava em não trazer o retorno financeiro esperado pelo pai, dilema comum no esporte que é também ascensão social, veio uma pressão para que o garoto fosse trabalhar. Bea, que era funcionária de uma concessionária de carros na frente da casa da família Bachi, propôs-se a ajudar. Conseguiu uma vaga de office-boy.

– Ele trabalhou por algumas semanas, mas não deu nem tempo de assinar a carteira. Logo surgiu o convite do Luís Felipe (Scolari, leia mais em seguida), ele conversou com o pai e disse que não iria mais. A mãe ajudava, trabalhava mais para conseguir um dinheiro para o lanche dele e não precisar recorrer ao pai – lembra.

Ade nunca deu trabalho com namoradinhas nem com festas. Era mão fechada, mas também vaidoso. Então, nada melhor que juntar a fome com a vontade de comer. Quando a jovem irmã vinha da farmácia com perfume, o irmão já esfregava as mãos para se aproveitar da nobreza e das compras de Bea. A vaidade se manteve até os dias atuais e chegou a causar problema no início da carreira. Ele foi um dos primeiros a romper com agasalhos e usar terno à beira do gramado. Nada que Tite não tenha conseguido superar, sem arrepiar um fio do cabelo grisalho penteado para trás.

O jeito de falar de Bea e também do irmão mais novo Ademir, o Miro, já entrega o parentesco com Tite. Os gestos com os braços, o olhar concentrado e a entonação e repetição das palavras-chave do discurso, com força na letra R, fazem lembrar as coletivas do treinador. Tudo, segundo a irmã, herança de seu Genor. Da mãe, Ade herdou a religiosidade. Até hoje a estante da mãe Ivone é tomada por imagens de santos. Tite recebe uma bênção de um padre de São Paulo todos os dias no celular. Só não gosta que se reze para vencer, em respeito ao adversário. Orar é apenas para pedir luz divina.

CAXIAS DO SUL , RS ,BRASIL 15/06/2018. ESPORTE: Perfil do técnico da Seleção Brasileira.Mãe Ivone Mazzochi Bachi
Tite Foto: Leo Munhoz / Diário Catarinense

Foto histórica de Parreira, Felipão e Tite: outras imagens mostram bastidores do encontro

O segredo da evolução constante de Tite

Tite lê muito. Já presentou a irmã com um livro da escritora gaúcha Martha Medeiros, recebeu um livro com dedicatória do ex-jogador argentino Jorge Valdano quando visitou o Real Madrid, algo que guarda com carinho. Nos fins de ano, quando vai à praia de Torres (RS) com a família da esposa Rose, que conheceu ainda adolescente na churrascaria da família dela, está sempre com livros sobre futebol, liderança e motivação. Um dos livros favoritos é Cestas Sagradas, de Phil Jackson. O ex-treinador do time de basquete Chicago Bulls conta como liderava o grupo que tinha estrelas como Michael Jordan, na década de 1990. Coincidência ou, de certa forma, uma preparação para o momento atual, em que Tite lidera um grupo que é o terceiro mais valioso da Copa do Mundo.

Esse desejo de se aperfeiçoar sempre, para a irmã, é parte do segredo para a evolução constante. Um sucesso que faz Tite ser adorado por diferentes torcidas, até mesmo rivais. Quase uma unanimidade em um país que adora se dividir a cada nova polêmica ou escândalo político. Os outros motivos estão associados à própria personalidade do treinador.

– O comportamento, o caráter, o respeito que ele oferece, mas também exige. A disciplina, o profissionalismo, a seriedade, tudo isso é visível. Se tu te propões a fazer alguma coisa, faça com o maior esforço possível. Todos da família temos essa característica. Essa evolução foi tão gradual que às vezes a gente tem que se beliscar para dizer que é verdade – conta a irmã coruja Bea, que lista ainda a capacidade de ouvir e de tirar o máximo de cada jogador.

CAXIAS DO SUL , RS ,BRASIL 15/06/2018. ESPORTE: Perfil do técnico da Seleção Brasileira.Entre as camisas da seleção a Irmã Beatriz Bachi Marchett, 59 anos.
Iirmã de Tite, Beatriz Bachi Marchett Foto: Leo Munhoz / Diário Catarinense

Como Tite era nos tempos de escola

Tite é um estudioso do futebol. A opinião é frequente entre os que acompanham a trajetória do técnico. Pesquisa dados dos adversários e novidades táticas, tirou um ano para se aperfeiçoar com técnicos estrangeiros como Carlo Ancelotti na Europa.  

Mas nem sempre foi assim. Na escola estadual Henrique Emílio Meyer, na época chamada de Ginásio Guarani, no bairro Exposição, a ficha escolar mostra que o menino Adenor era um aluno apenas com conceito S, de satisfatório. Isso quando não pulava o muro dos fundos e trocava a aula por uma pelada na quadra do lado de fora do colégio. Apesar disso, no registro escolar os professores já sinalizavam que era um estudante que se destacava pelo interesse. Mesmo depois de tanto tempo, Tite mantém uma relação próxima com a escola e reconhece a importância do local na formação como pessoa.

– Ele nos visita uma vez por ano e faz palestras para os estudantes. Fala sobre incentivo ao esporte, humildade, como vencer na vida. É muito parecido com o que a gente vê ele falar na televisão. Está sempre mandando jogos de camisas e tênis para estudantes daqui. É uma pessoa especial, carismática, de muita atenção e humildade – desmancha-se a agente de administração escolar Vandelizia Stecanella.

Em um dos corredores, uma camisa da seleção e uma do Corinthians, ambas autografadas, mantêm viva a lembrança de Tite entre os 2,5 mil estudantes da escola, fundada há 87 anos. Um projeto já em andamento com a parceria de Tite prevê a construção de um complexo esportivo no local em que hoje há três quadras de concreto descobertas. Pular o muro vai ficar de vez no passado.

Todo esse ambiente empolga jovens meninos que tentam trilhar caminhos semelhantes ao do garoto Adenor. Alguns perguntam já no ato da matrícula em que mês é a palestra de Tite. Hoje, 39 alunos da Emílio Meyer treinam em escolinhas do Caxias ou do Juventude. Caso de Guilherme Vieira, 16 anos, aluno do 1º ano do ensino médio. Há 15 dias ele se mudou de Passo Fundo para Caxias para treinar na equipe Grená e tentar transformar em profissão o talento que já demonstra com a bola na quadra da escola.

– É uma honra saber que ele estudou aqui, jogou aqui. E hoje está treinando craques como Neymar, Philippe Coutinho. Saber que ele pode vir aqui, ver a gente também. Dá mais ânimo para tentarmos traçar esse mesmo caminho – conta.

 CAXIAS DO SUL , RS ,BRASIL 15/06/2018. ESPORTE: Perfil do técnico da Seleção Brasileira.Mostrando o muro por onde o Tite fugia pra jogar bola - Vandelizia Stecanella, agente administrativa da escola Henrique Emílio Meyer.
Escola que Tite frequentou Foto: Leo Munhoz / Diário Catarinense
 CAXIAS DO SUL , RS ,BRASIL 15/06/2018. ESPORTE: Perfil do técnico da Seleção Brasileira.
Escola que Tite frequentou Foto: Leo Munhoz / Diário Catarinense

Tite, amigo de outro Titi

É também em uma escola, mas a cinco quilômetros dali, em mais um bairro com nome de santo – desta vez, o Nossa Senhora de Fátima –, que o professor Titi passa instruções para seus comandados. Calma, Adenor e o elenco de estrelas liderado por Neymar permanece na Rússia se preparando para a estreia contra a Suíça. Quem está por ali é Altemir Roberto Gauer, 57 anos. Hoje ele é professor de Educação Física no colégio municipal e apita jogos de futsal nos fins de semana, mas em 1975 o baixinho e habilidoso apelidado pelo irmão como Titi por causa da estatura era o camisa 8 do time da escola Emílio Meyer. Ele fazia dupla no meio-campo com um jovem alto, cabeludo, marcador e de bons passes: na época, Ade.

Na final de um campeonato escolar, o técnico da escola adversária era Luís Felipe Scolari. Mais tarde Adenor e Felipão encontrariam suas desavenças. O atual técnico da Seleção viraria meme com o grito “fala muito” dirigido ao conterrâneo. Mas na época, Felipão era zagueiro veterano do Caxias e gostou do futebol de dois meias do time da escola. Convidou-os para um teste no time grená. Titi não foi, mas Ade sim. E agradou.

– O Ade foi fazer parte das categorias de base do Caxias, mas o Felipão disse que Adenor não era nome de jogador de futebol e sugeriu: coloca o nome daquele teu colega que não veio – brinca Titi.

O apelido pegou. Titi e Tite eram amigos de infância, dividiam as tarefas da escola e jogavam bola na rua. Depois que o amigo seguiu carreira de jogador e treinador, perderam contato, o que faz Titi recordar com saudade e se orgulhar do reconhecimento que Tite vem recebendo.

– É muito louco. Como é que tu ias imaginar que teu colega de sala de aula iria crescer e virar treinador da Seleção Brasileira. Nem em sonho. Gostaria de vê-lo e desejar sorte e tranquilidade, porque competência ele tem. É um merecedor – enaltece.

 CAXIAS DO SUL , RS ,BRASIL 15/06/2018. ESPORTE: Perfil do técnico da Seleção Brasileira.Na quadra com bola no braço - Titi de verdade. Altemir Roberto Gauer, 57 anos.
Altemir Roberto Gauer Foto: Leo Munhoz / Diário Catarinense

Tite já foi comentarista de futebol

Em 1998, Tite já tinha oito anos como treinador de futebol e cinco times no currículo. Como maior destaque, havia treinado o Caxias por 11 jogos em 1991 e conseguido o título da Segundona Gaúcha com o Veranópolis em 1993. Também passou por seis meses no Juventude em 1997, time do coração do pai e dele próprio na infância. Fora do mercado, aceitou um convite para ser comentarista de futebol na Rádio Caxias. Os relatos de quem trabalhou com ele nos microfones não são diferentes do que dizem amigos e familiares: adjetivos como educado, gentil, humilde e estudioso são repetidos em uma sala de reunião da emissora, no 21º andar de um prédio no Centro de Caxias do Sul.

Hoje diretor de programação da emissora, Alessandro Valim fazia plantão esportivo na época e afirma que a passagem pela emissora ajudou o treinador a entender melhor o papel da imprensa – a ponto de não se envolver em discussões e ser benquisto por jornalistas até hoje. Além disso, contribuiu para que Tite se comunicasse de uma maneira um pouco mais popular, digamos assim. Era o início da desconstrução do “titês”, um idioma quase próprio com palavras como treinabilidade, desempeho e “rrresultado” (ler com a voz de Tite). Até ser aceito e aperfeiçoado, a forma peculiar de se comunicar incomodava no início da carreira.

– Uma vez eu disse para ele que o comentário dele estava sendo muito técnico, elaborado. Que ele não tinha em culpa de ter educação e uma forma de se expressar tão correta, mas que para o rádio aquele tipo de linguagem não era exatamente o que se indicava. Citei o exemplo de que ele deveria imaginar que estava abrindo a janela e conversando sobre futebol com um vizinho dele. Ele sempre foi de ouvir muito e aceitou bem – lembra o repórter Edgar Vaz, parceiro de transmissões.

Ao fim de 1998, Tite deixou a equipe da rádio para assumir pela segunda vez o Caxias, time pelo qual no ano seguinte conquistaria o Campeonato Gaúcho e despontaria para o Grêmio e para o cenário do futebol nacional. Ainda assim, em 2014, durante o ano sabático que tirou para se aperfeiçoar, voltou às cabines para comentar um clássico entre Caxias e Juventude, no Estádio Centenário.

 CAXIAS DO SUL , RS ,BRASIL 15/06/2018. ESPORTE: Perfil do técnico da Seleção Brasileira.RadioEsquerda - Alexandre Valim, diretor de programação dá rádio Caxias que trabalhou com o Tite na sua passagem pela rádio em 1998.
Alessandro Valim e Edgar Vaz Foto: Leo Munhoz / Diário Catarinense

Como foi a primeira glória de Tite no futebol

O ano é 2000. Duas ou três décadas antes, torcedores da Sociedade Esportiva Recreativa Caxias do Sul ouviam de adeptos do rival Juventude que o time só seria campeão justamente no, à época distante, “ano 2000”. Pois 2000 chegou e o time grená, comandado por Tite, havia se classificado para a segunda fase na última rodada. Depois disso, venceu o turno de ida e garantiu lugar na decisão contra o poderoso Grêmio de Danrlei, Ronaldinho Gaúcho e companhia.

Na preleção que antecedeu o primeiro jogo da final Tite separou cartas e gravações de familiares dos jogadores para motivar o grupo, que tinha quase três meses de salários atrasados. O vice-presidente de futebol do Caxias da ocasião, Alceu Fassbinder, foi também quem o contratou para o segundo clube como treinador, no próprio Caxias, em 1991. Sentiu que os jogadores entendiam Tite no primeiro clube dele e que ele poderia ser um novo perfil de técnico. Não deu certo e Tite foi desligado após 11 jogos. Nove anos depois, na final de 2000, Alceu sentiu que o desfecho seria outro.

– Eu disse para ele: se eles já tinham sangue nos olhos, você deu algo a mais. Quando chegamos aqui, o estádio estava vibrando. Eu disse: não tem para ninguém. Chego a me arrepiar hoje ainda do baile que o Grêmio levou – recorda o dirigente, que o considera um dos melhores gestores de grupo.

O Caxias venceu o Grêmio por 3 a 0, resultado que administrou na segunda partida com um 0 a 0 no Olímpico. O título que quebrou uma hegemonia da dupla Grenal – desde 1955 apenas Juventude (1998) e Novo Hamburgo (2017) levaram o título de campeão gaúcho para o interior do Rio Grande do Sul. A conquista fez Tite ficar conhecido no futebol brasileiro. Quando assumiu a seleção, Tite ligou para Alceu e disse ser grato a todos os gestores desde a primeira vez que trabalhou no clube.

CAXIAS DO SUL , RS ,BRASIL 15/06/2018. ESPORTE: Perfil do técnico da Seleção Brasileira. No estádio do Caxias - Vice-Presidente de futebol do Caxias quando o Tite foi treinador. Alceu Fassbinder, 70 anos.
Alceu Fassbinder Foto: Leo Munhoz / Diário Catarinense

Família de Tite na torcida

Caxias do Sul é a segunda cidade mais populosa do Rio Grande do Sul, com 480 mil habitantes, a 120 km de Porto Alegre, na Serra Gaúcha. Na véspera e no dia da abertura do mundial de seleções da Fifa, Caxias do Sul não vivia exatamente um clima de Copa. Também pudera. Entre tantos casacos, gorros e cachecóis necessários para suportar as temperaturas de um dígito na cidade, que obriga todos os seres a “lagartearem” no sol, fica difícil ostentar de peito aberto e desprotegido uma camiseta da Seleção. Ainda assim, a cidade tem orgulho e torce por Tite.

Mas não há torcida maior que na Avenida Rio Branco, no distrito de Ana Rech, em Caxias. É lá, nos fundos de um terreno com duas quadras de grama sintética e um bar com mais de 50 fotos e camisetas de clubes pelos quais Tite passou, que mora a mãe de Tite, a simpática Ivone Bachi, 82 anos. Difícil sair da casa sem ser convidado a um café. Quem cuida das quadras, desde a churrasqueira até o caixa e, claro, passando pelas fotos e faixas, é o irmão mais novo e melhor amigo de Tite, Altemir. Miro, para toda a cidade de Caxias, e Magrão, para o treinador da Seleção Brasileira.

A última vez que ele esteve na cidade foi em maio, para se despedir antes da Copa. Participou de um jogo, mas optou pelo anonimato de sempre, priorizando o chimarrão ou o café com a mãe. É lá também que joga partidas de tênis e, como na infância, fica grudado a qualquer transmissão esportiva – só de jogos, não é afeito a mesas redondas.

Miro se orgulha das conquistas do irmão, mas reconhece que a carreira teve altos e baixos. As idas e vindas nas categorias de base, a aposentadoria precoce por lesões, as demissões nos clubes em que o trabalho não engrenava. Mais recentemente, não ser convidado para assumir a Seleção em 2014, quando pensava estar preparado, também foi uma frustração.

– Ele foi forjado em muitas vitórias, mas também em muitas decepções. Isso fez ele ser mais estudioso, dedicado, responsável. Ele fica feliz nas vitórias, mas também quando consegue, por exemplo, mudar o comportamento de um atleta. Eu diria que hoje ele educa até torcedores, consegue mudar a visão que algumas torcidas já tiveram dele – avalia o irmão, que também é ouvido sobre jogadores monitorados por Tite. Para Miro, o defeito de Ade é ser focado demais no trabalho em detrimento de outras atividades de lazer.

Miro sempre cria um ritual novo em momentos importantes da carreira de Tite, até mesmo não ver o jogo. Neste domingo de estreia, ainda não decidiu o que fazer. Mas uma coisa é certa. Se tudo der errado na Copa, o orgulho da família que hoje espalha revistas com o rosto do filho famoso pela casa não vai diminuir. Mas eles poderão testar um sentimento que hoje causa desconforto.

– Se ele conseguir a gente vai ficar muito contente. Não é nem um sonho realizado, nem em sonho a gente pensava isso. Só que a família já aprendeu que os louros da vitória são uma coisa boa, mas coisa boa também é a simplicidade. Se ganhar ou perder, tu me olhares da mesma forma. Isso é o mais difícil para a gente. O olhar das pessoas quando não ganha. Machuca muito. Queria ser tratado igual – cobra o irmão, emocionado.

Mas se a torcida da família der resultado e tudo der certo, se o vestiário do estádio da final, Lujnikít, em Moscou, tremer como no Centenário no primeiro título de expressão com o Caxias, a irmã Bea acredita que de algum lugar o velho pai Genor estará orgulhoso com a nova conquista. Claro, virando o rosto de lado para fingir serenidade e disfarçar o sorriso.

– Na próxima vez que eu vir ele quero vê-lo passar aqui na frente em cima do caminhão de bombeiros, como campeão do mundo – conta.

Nós também, Bea.

CAXIAS DO SUL , RS ,BRASIL 15/06/2018. ESPORTE: Perfil do técnico da Seleção Brasileira.Mãe Ivone Mazzochi Bachi
Mãe de Tite, Ivone Bachi, e o irmão caçula, Ademir Foto: Leo Munhoz / Diário Catarinense
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Foto: Arte DC

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