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Entrevista

"A proliferação de fake news não é um fenômeno do acaso", diz jornalista Sônia Bridi

Repórter especial do Fantástico, da TV Globo, a catarinense Sônia Bridi fala sobre a carreira, a vida familiar e os desafios do jornalismo profissional

21/12/2019 - 12h30 - Atualizada em: 25/12/2019 - 19h47

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Everton
Por Everton Siemann
Sônia Bridi, jornalista da Rede Globo
Sônia Bridi: "Aliás, se é fake não é news, não é notícia. É apenas uma mentira"
(Foto: )

Jornalista, escritora, mãe, avó... Aos 56 anos, na correria do dia a dia Sônia Matilde Bridi se divide em diversos papéis para cumprir a rotina. Natural de Caçador, na região do Contestado, a menina que não tinha ideia de que o Brasil era um país tropical cresceu e se tornou uma das mais respeitadas jornalistas do país.

Correspondente internacional por muitos anos, viveu em diversos países, conheceu muitas culturas, vivenciou diversos fatos e contou inúmeras histórias. Repórter especial do programa Fantástico, da TV Globo, no momento está no ar com a série de reportagens "A Jornada da Vida - Rio Ganges", que contar a história do rio indiano, fonte de abastecimento para 400 milhões de pessoas.

Na entrevista a seguir, fala dessas experiências, das lembranças de Caçador, sobre fake news, da questão climática e social ao redor do mundo, da intolerância, dos desafios do jornalismo e da vida familiar.

Qual é a primeira coisa que vem em sua mente ao lembrar de Caçador, a sua cidade natal?

Frio. Geada e cerração. Quando era pequena, eu não tinha ideia de que o Brasil era um país tropical. O frio era o nosso normal.

Como correspondente internacional, você viveu muitos anos fora do Brasil e em diversos países, é uma cidadã do mundo. O que você carrega de especial de cada experiência?

Cada lugar é diferente e eu era uma pessoa diferente em cada momento. Em Londres, foi muito rápido, fiquei poucos meses e fui transferida para Nova York.

Foi em Nova York que amadureci como repórter. Tratei de muitos assuntos diferentes, o que me obrigou a estudar muito, ler alucinadamente sobre ciência.

Eu acompanhava desde a descoberta de planetas fora do nosso sistema solar até o mapeamento do genoma humano, da crise dos mercados internacionais a entrevistas com artistas lançando novos filmes. Nova York é um intensivão de vida. Pequim teve toda a descoberta de uma cultura nova, nova simbologia, novos jeitos de encarar a vida. E foi muito intenso na convivência familiar, porque estávamos sozinhos do outro lado do mundo. Isso nos uniu muito. E poder estar por perto do filho pequeno quando não estava viajando foi um privilégio nessa fase da vida dele. Já o período de Paris era uma cultura mais conhecida, menos desafiadora. Mas meu repertório na cozinha melhorou muito!

Vivemos em um mundo cada vez mais conectado, em que a informação se espalha em grande velocidade. Ao mesmo tempo, as fake news têm ganhado espaço. Nesse contexto, qual é a importância do jornalismo profissional para combater a desinformação?

A proliferação de fake news não é um fenômeno do acaso. Quando a imprensa denuncia corrupção, com base em investigações, geralmente da polícia e do Ministério Público, é mais fácil atacar o jornalismo do que provar uma inocência que não existe.

Quando a imprensa denuncia más práticas eleitorais é a mesma coisa. Os criminosos que espalham fake news são estelionatários políticos, atentam contra a democracia porque induzem as pessoas a decidir votos com base em mentiras. Aliás, se é fake não é news, não é notícia. É apenas uma mentira. E quem compra uma mentira está sendo enganado, prejudicado. Quem compra mentiras de gente que afirma, por exemplo, que mudanças climáticas não existem, pode não perceber, mas está se prejudicando.

O nosso papel é trazer as informações bem apuradas, completas, contextualizadas. Não deixar de reportar o que é relevante, porque este setor ou aquele vai nos atacar nas redes sociais. O jornalismo precisa ser claro e preciso. E entender que o nosso papel é levar as informações relevantes para que as pessoas tomem decisões informadas sobre suas vidas, seu futuro. Nem sempre essas informações são populares.

Sônia Bridi, jornalista da Rede Globo
Sônia Bridi em uma de suas reportagens especiais da "Jornada da Vida", na TV Globo
(Foto: )

Você percorre o mundo em busca de histórias curiosas para contar e respostas para perguntas inquietantes. Nessa caminhada você já descobriu que tempo é esse que estamos vivendo, do ponto de vista climático e também social?

Na questão climática, vivemos um tempo decisivo. Ou fazemos a coisa certa ou não tem volta. Nós cuidamos dos filhos, investimos em escola, mas permitimos a deterioração climática que vai impactar profundamente a vida deles no futuro.

Nós fazemos seguro de carro, mas fazemos apostas perigosas com relação ao planeta, que é o único onde podemos viver. Não há um choque entre duas visões diferentes de ciência. Há a ciência de um lado, com consenso perto de 100%, e um lobby de interesses do outro. Infelizmente, muita gente bem intencionada cai no conto dos “negacionistas”. Do ponto de vista social é ainda mais complicado. Por mais que se diga que vivemos em um mundo polarizado, na verdade há polos muito barulhentos, muito ruidosos, que gritam muito e não ouvem. Mas o mundo é mais complexo do que isso. Há mais de uma solução para o mesmo problema, quando se fala de questões sociais. Hoje vemos em várias partes do mundo uma reação a avanços conquistados no século 20: igualdade racial, direitos das minorias, respeito e oportunidades iguais às mulheres. Será que essas forças vão sufocar os avanços ou seria apenas o último suspiro de um pensamento reacionário? O tempo vai dizer.

A gente vive um momento polarizado no Brasil, marcado por episódios de intolerância, especialmente nas redes sociais. Como você lida com isso no dia a dia?

Não respondo individualmente a manifestações de intolerância.

Mas quando vejo que alguém tem uma dúvida legítima, seja sobre o assunto que for, e essa pessoa se manifesta nas minhas redes, tento responder. Somos tão bombardeados por mentiras, que é difícil mesmo separar o joio do trigo.

Já sofreu algum tipo de abuso ou agressão no exercício da profissão? Se sim, como lidou com o caso? Se não, tem medo que isso esteja próximo de acontecer?

Agressões acontecem volta e meia nas redes sociais, geralmente feitas por pessoas escondidas por trás de perfis falsos.

Sabemos como isso é operado. Basta lidar com um assunto polêmico. O jeito de lidar é se assegurar de que está fazendo o trabalho correto e seguir em frente. Não é agradável. É horrível ser xingado, ver a família ofendida. Mas não tenho medo. Tenho mais medo é de deixar de fazer meu trabalho, que é informar.

De tudo o que você fez ao longo da carreira, o que você mais tem orgulho?

De ter sobrevivido na reportagem. É o que me encanta nesse trabalho: ir aos lugares, falar com as pessoas, olho no olho. A reportagem é a alma do jornalismo, mas consome a gente.

E o que você voltaria atrás e faria diferente?

Teria trabalhado menos e passado mais tempo com meus filhos quando eram pequenos.

Jornalista, escritora, mãe, avó... como faz para conciliar esses papéis na rotina?

Fazendo uma coisa de cada vez. Quando estou trabalhando, me concentro no trabalho. Se estou escrevendo um livro, organizo o tempo de escrever e respeito a rotina que imponho a mim mesma. Sou pouco disciplinada, mas muito determinada, uma coisa compensa a outra.

Se me imponho uma tarefa, me preparo fisicamente, intelectualmente. E quando estou com meus filhos e netos, sou mãe e avó. Tento fazer o máximo do meu tempo com eles.
Sônia Bridi e equipe da Globo na China
A jornalista Sônia Bridi e equipe na China, onde gravaram especial "Jornada da Vida"
(Foto: )

Como é o relacionamento com os netos? Você é a vovó que leva para passear, cozinha comidas especiais e favoritas deles?

Claro, principalmente a Aurora, que já é mais velha. Se estou de folga, passeamos juntas, levo em festinhas de aniversário. Já fizemos uma viagem juntas, só nós duas. Eu brinco, jogo pra cima, boto pra dormir. Leio livros, conto histórias, ensino musiquinhas. E cozinho, sim. Faço macarronada caseira, como minha mãe e minha vó faziam, faço sopa de agnolini, que Aurora ama, faço panquecas americanas no café da manhã. Cozinhar para a Aurora é um jeito de brincar com ela, a minha assistente. Valentim ainda é pequeno, mas já criou os hábitos da casa da vovó. Chega e quer repetir tudo o que fizemos da última vez. Não tem nada mais maravilhoso na vida.

Se você pudesse resumir tudo o que viveu em uma frase, como seria?

Pode ser uma palavra? Eita!

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