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    A questão não é se você foi exposto ao vírus, e sim quanto foi exposto

    Algumas pessoas são transmissoras generosas do coronavírus; outras transmitem bem pouco

    03/06/2020 - 12h56

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    Por The New York Times
    médicos
    (Foto: )

    *Por Apoorva Mandavilli

    Quando os especialistas recomendam usar máscara, manter distância de pelo menos um metro das outras pessoas, lavar as mãos com frequência e evitar espaços cheios de gente, o que eles realmente estão dizendo é: tente minimizar a quantidade de vírus ao seu redor.

    Algumas poucas partículas virais não são suficientes para deixá-lo doente – o sistema imunológico derrotaria os invasores antes que eles o adoecessem. Mas qual é a quantidade de vírus necessária para uma infecção se enraizar? Qual é a dose mínima eficaz?

    É impossível obter uma resposta precisa, porque é difícil capturar o momento da infecção. Os cientistas estão estudando furões, hamsters e camundongos em busca de pistas, mas, obviamente, não seria ético se eles expusessem pessoas a diferentes doses do coronavírus, como fazem com os vírus de resfriados mais leves. "A verdade é que realmente não sabemos. Acho que não podemos fazer nada melhor do que dar palpites", disse Angela Rasmussen, virologista da Universidade Columbia, em Nova York.

    Vírus respiratórios comuns, como o da influenza e outros coronavírus, devem dar algumas dicas. No entanto, os pesquisadores encontraram pouca consistência.

    Para a síndrome respiratória aguda grave, ou Sars, causada também por um coronavírus, a dose infecciosa estimada é de apenas algumas centenas de partículas. Para a síndrome respiratória do Oriente Médio, ou Mers, a dose infecciosa é muito maior, da ordem de milhares de partículas.

    O novo coronavírus, Sars-CoV-2, é mais semelhante ao vírus da Sars e, portanto, a dose infecciosa pode ser de centenas de partículas, explicou Rasmussen. Contudo, o vírus tem se mostrado habilidoso em desafiar previsões.

    Geralmente, as pessoas que abrigam altos níveis de patógenos – sejam de influenza, de HIV ou de Sars – tendem a apresentar sintomas mais graves e são mais propensas a transmitir os patógenos a outras pessoas.

    Porém, no caso do novo coronavírus, as pessoas que não apresentam sintomas parecem ter cargas virais – isto é, a quantidade de vírus presente no corpo – tão alta quanto as que apresentam sintomas graves, segundo alguns estudos.

    E os pacientes com coronavírus são mais infecciosos nos dois a três dias que antecedem os sintomas, o que diminui depois que a doença realmente ataca.

    Algumas pessoas são transmissoras generosas do coronavírus; outras transmitem bem pouco. As chamadas superespalhadoras parecem ser particularmente talentosas em transmiti-lo, embora não esteja claro se isso é por causa de sua biologia ou de seu comportamento.

    Para a pessoa que recebe o vírus, o formato de suas narinas e a quantidade de pelos e muco presentes em seu nariz – bem como a distribuição de certos receptores celulares nas vias aéreas que o vírus usa para se agarrar – podem influenciar na quantidade de vírus necessária para infectá-la.

    Uma dose mais alta é certamente pior, o que pode explicar por que alguns profissionais de saúde mais jovens ficaram doentes, embora o vírus geralmente atinja as pessoas mais velhas.

    A dose crucial também pode variar, dependendo se ela foi ingerida ou inalada. Pode-se pegar o vírus ao tocar em uma superfície contaminada e, em seguida, colocar as mãos no nariz ou na boca. Mas, segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças, "talvez essa não seja a principal forma de propagação do vírus".

    Essa forma de transmissão pode exigir milhões de cópias a mais do vírus para causar uma infecção, comparada à transmissão por inalação.

    Tossir, espirrar, cantar, falar e até mesmo expirar fundo pode resultar na expulsão de milhares de pequenas e grandes gotículas respiratórias portadoras do vírus. "Está claro que não é preciso estar doente, tossir e espirrar para que a transmissão ocorra", observou Dan Barouch, imunologista viral do Centro Médico Beth Israel Deaconess, em Boston.

    Gotas maiores são pesadas e caem rapidamente – a menos que haja uma brisa ou uma corrente de ar-condicionado – e não são capazes de penetrar nas máscaras cirúrgicas. Mas gotículas com menos de cinco mícrons de diâmetro, chamadas de aerossóis, podem permanecer no ar por horas. "Elas viajam mais longe, duram mais e têm o potencial de se espalhar mais do que as gotas grandes", explicou Barouch.

    Três fatores parecem ser particularmente importantes para a transmissão via aerossol: a proximidade da pessoa infectada, o fluxo de ar e o timing.

    Um banheiro público sem janelas e com um grande trânsito de pessoas é mais arriscado do que um banheiro com janela ou um banheiro que é raramente usado. Uma rápida conversa ao ar livre com um vizinho usando máscara é muito mais segura do que qualquer um desses cenários.

    Recentemente, pesquisadores holandeses usaram um bico de pulverização especial para simular a expulsão de gotículas de saliva e, em seguida, rastrearam seus movimentos. Eles concluíram que o simples ato de abrir uma porta ou uma janela pode eliminar os aerossóis. "Mesmo uma fraca brisa causará algum efeito", comentou Daniel Bonn, o físico da Universidade de Amsterdã que liderou o estudo.

    Observações em dois hospitais de Wuhan, na China, publicadas em abril na revista "Nature", apresentaram a mesma conclusão: mais partículas em aerossol foram encontradas em áreas de banheiros sem ventilação do que em salas de pacientes mais arejadas ou em áreas públicas cheias de gente.

    Isso faz sentido, dizem os especialistas. Mas eles observaram que os aerossóis, por serem menores do que cinco mícrons, também conteriam muito menos vírus, talvez milhões de vezes menos, do que gotículas de 500 mícrons. "São realmente necessárias muitas dessas gotículas de um dígito de diâmetro para impor risco", afirmou o dr. Joshua Rabinowitz, biólogo quantitativo da Universidade de Princeton.

    Além de evitar espaços fechados e cheios de gente, a coisa mais eficaz que as pessoas podem fazer é usar máscara, disseram todos os especialistas. Mesmo que a máscara não o proteja totalmente de gotículas carregadas com o vírus, ela pode reduzir a quantidade de vírus que chega até você, talvez a níveis inferiores à dose infecciosa. "Não basta lavar as mãos para eliminar esse vírus. Temos de limitar as aglomerações e usar máscara", observou Rabinowitz.

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