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Opinião

Andreia Evaristo: Ciclo da moda

"Mesmo sem querer, somos levados a crer que as vantagens que alguém tem podem estar relacionadas às coisas que ele tem, usa, faz ou come"

06/08/2016 - 04h01

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Por Redação NSC

E a moda? Por mais que eu seja uma apaixonada por roupas e sapatos (e bolsas e cintos e acessórios...), não é sobre isso que eu pretendo falar. O que me pega hoje é esse sentimento coletivo e generalizado que as pessoas têm de pertencer a um grupo que faz, usa, come e pensa as mesmas coisas, e de como a moda, enquanto um sistema de usos e costumes compartilhados por pessoas do mesmo grupo, é cíclica.

Quando a gente começa a se entender por gente, a saber o que quer para si mesmo, começa a observar quem nos rodeia. Mesmo sem querer, somos levados a acreditar que as vantagens que alguém tem na vida podem estar relacionadas às coisas que ele tem, usa, faz ou come. Gabriel é popular. Deve ser porque ele usa essas calças maneiras da Imitation ou esses tênis da Mike. Então, como a gente quer ser popular como Gabriel, vai atrás de comprar e usar as calças Imitation ou os tênis Mike. Mas, enquanto adolescentes, muitas vezes não temos dinheiro para tais coisas. A gente se frustra e passa vontade - e, se não consegue ser popular como o Gabriel, continua acreditando que ser interessante e querido pelas pessoas tem a ver com a moda.

Os anos passam e a gente começa a trabalhar. A moda muda, as calças Imitation e os tênis Mike saem de moda. Até que, dez ou quinze anos depois, a moda dá uma reviravolta e essas coisas que a gente tanto valorizava quando era adolescente voltam a ser produzidas pela indústria. Mas agora há uma diferença: a gente trabalha, já tem o próprio dinheiro e pode realizar os sonhos de consumo frustrados da adolescência. Então, a gente compra as calças Imitation e os tênis Mike que replicam os ícones de popularidade dos nossos tempos perdidos.

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É exatamente nesse ciclo de moda que eu penso quando vejo adultos correndo pelas ruas, empunhando smartphones, caçando Pokémons ou aglomerados em pokéstops, em transe total. Eles vivem, em realidade aumentada, o sonho infantil de ser um herói como Ash. Já os mais novos vivem a modinha atual de colecionar Pokémons, sempre em busca do mais raro, para tentar ser o cara popular como o Gabriel das calças Imitation e dos tênis Mike - mudam os sonhos de consumo e os ícones de desejo, mas a modinha continua. E, cíclica como é a moda, daqui a dez anos veremos novamente uma legião de pessoas caçando Pokémons pelas ruas, com uma nova roupagem.

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