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Após crise, agroindústria catarinense busca retomada em 2019

Setor prevê recuperação nas exportações e crescimento no faturamento para este ano. Expectativa é de aumento entre 1,39% a 3% nas produções de frango e suíno

11/01/2019 - 14h06 - Atualizada em: 11/01/2019 - 14h24

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Darci
Por Darci Debona
(Foto: )

O ano de 2019 começa positivo para 1,1 mil trabalhadores que a partir do próximo dia 14 deste mês retornam as suas funções na BRF, em Chapecó. Eles estavam no sistema de lay-off (afastamento do funcionário por um prazo determinado que vai de dois a cinco meses, em que ele continua à disposição da empresa) desde julho do ano passado.

Estes e outros empregados do setor sofreram com o reflexo dos embargos e as operações policiais em torno da agroindústria ocorridas desde 2017 e que desencadearam na interrupção de abates, fechamento de empresas, férias coletivas e demissões. Além do retorno desses empregados, a BRF anunciou a retomada do segundo turno de perus em abril, o que vai gerar mais 700 vagas.

A retomada do setor começou a ser observada já no final do ano passado, com a empresa Jaguafrangos, do Paraná, assumindo a unidade de Ipuaçu e retomou os abates, o que acabou preservando 600 empregos. No final do ano, o México anunciou a habilitação de 26 novas plantas, uma delas a de Ipuaçu (SC). Em novembro, a Rússia reabriu o mercado para o Brasil.

— A gente vê que acertou em aceitar o lay-off, pois isso garantiu o direito aos trabalhadores num momento difícil e agora os funcionários voltam ao trabalho com seus empregos e seus direitos garantidos — afirmou o presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Carne de Chapecó e Região, Jenir de Paula.

Ele está com uma visão otimista de 2019, como um ano de recuperação da produção, o que vai movimentar a economia.

Cenário positivo na economia para 2019

Segundo o analista do Centro de Socieconomia e Planejamento Agrícola da Epagri, Alexandre Giehl, o cenário para a agroindústria em 2019 é otimista, após um crescimento positivo no segundo semestre do ano passado.

— Em maio chegou a ter uma queda de 35% na produção, devido à greve dos caminhoneiros. O primeiro semestre foi muito ruim devido a isso, aos embargos e à sobretaxações chinesa. Foi um ano que ninguém morreu de tédio, foram fortes emoções. Mas no segundo semestre (2018) a gente visualizou um cenário positivo — avaliou Giehl.

O especialista disse que as boas exportações em Santa Catarina permitiram um crescimento estimado em 5,9% no abate de suínos, que fechou o ano com mais 1,18 milhões de toneladas. No entanto, no caso do frango, devido à suspensão dos cortes em várias unidades, a produção registrou uma queda de 10%, de 2,15 milhão de toneladas para 1,95 milhão.

Para entidades da agroindústria, outros fatores devem influenciar positivamente no setor, como o aumento na importação de proteína animal de frangos, suínos e bovinos por parte da China, uma previsão de 400 mil toneladas.

— O Brasil é um dos países que tem condições de atender esse mercado. A perspectiva é muito boa — disse o presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Francisco Turra.

Salto de qualidade e redução de custos

Depois de fechar 2018 com números negativos, a Associação Catarinense de Avicultura (Acav) prevê um crescimento de 1,39% na produção de frango e, de 2% a 3%, na produção de suínos, para 2019.

O presidente da entidade José Antônio Ribas, disse que as dificuldades de 2018 serviram para o setor se aprimorar.

— O aumento nas exigências serviu para nós produzirmos com ainda mais qualidade e diminuir custos. Mesmo nas dificuldades continuamos as expansões, aumentamos nossa participação no mercado e mostramos que Santa Catarina é um case de sucesso — disse Ribas.

Outro fator que contribuiu para o otimismo foi China que mostrou um apetite voraz, aumentando em 10% a compra de frango e 250% a carne de suíno. China e Hong Kong responderam por metade das exportações de suínos. A queda no preço do milho e da soja, além da previsão de uma safra recorde, o que reduz custos de produção, também trouxe confiança para agroindústria.

Um passado desafiador

O ano de 2018 foi de prejuízo para as agroindústrias catarinenses. As três principais empresas instaladas no Estado amargaram perdas consistentes. A BRF acumulou prejuízo de R$ 812 milhões no primeiro trimestre, R$ 1,5 bilhão no segundo trimestre e R$ 114 milhões no terceiro trimestre.

A JBS teve um bom início de ano, com sobras de R$ 500 milhões no primeiro trimestre, mas no segundo acumulou despesas de R$ 911 milhões e R$ 133 milhões no terceiro trimestre. A Aurora Alimentos também fechou o ano com um prejuízo de cerca de R$ 100 milhões.

— Foi um ano muito desafiador, a gente já vinha com dificuldades devido à operação Carne Fraca, a perda do mercado europeu fragilizou as exportações e corroeu as margens de lucro e com a greve dos caminhoneiros trouxe um prejuízo na cadeia que levamos 60 a 90 dias para nos recuperarmos — analisou Ribas.

Cronologia da crise na agroindústria

Março de 2017 - Operação Carne Fraca

A Polícia Federal investigou cerca de 30 frigoríficos por depoimentos e escutas telefônicas e afirmou que funcionários ofereciam propinas por certificados de qualidade adulterados.

Dezembro de 2017 - Suspensão da exportação russa

Rússia, que comprava cerca de 40% da carne de porco brasileira, suspendeu as compras, alegando presença de ractopamina na carne, substância utilizada na alimentação dos suínos que é liberada no Brasil e em outros países, mas proibida pelos russos.

Março de 2018 - Operação Trapaça

Nova operação policial, denominada Trapaça, que identificou fraude em laudos laboratoriais de salmonella de algumas empresas.

Abril de 2018 - Embargo europeu

O Ministério da Agricultura suspendeu, preventivamente, a exportação de alguns produtos para a Europa, tentando evitar um embargo por parte dos europeus. Mas não adiantou, o velho continente tirou da lista de exportação 20 empresas brasileiras, sendo três da BRF de Santa Catarina: Chapecó, Concórdia e Capinzal. Resultado: a indústria então anunciou férias coletivas na unidade de Capinzal.

Maio de 2018 - Greve dos caminhoneiros

A paralisação afetou diretamente o setor. Milhares de pintinhos foram sacrificados no campo e ovos descartados. A ABPA estima em R$ 1,5 bilhão os prejuízos após a greve.

Junho de 2018 - China sobretaxa frango

Governo chinês alegou que produtores do Brasil estavam praticando dumping - venda de produto com preço inferior ao do mercado internacional.

Desemprego atinge três pessoas da mesma família no Oeste

Em junho deste ano, quando a BRF começou a cogitar a suspensão dos abates e algumas demissões, Cesariana da Rocha, de 58 anos, que há 24 anos trabalhava na empresa em Chapecó, pensou em sair.

A família de Cesarina da Rocha
A família de Cesarina da Rocha
(Foto: )

Ela vivia uma rotina desgastantes de trabalhar no serviço de inspeção federal e ainda ajudar a cuidar da mãe, Angelina Vieira da Cruz, de 83 anos, que acabou falecendo posteriormente. Além disso já estava aposentada com um salário mínimo.

Mas o que ela não esperava era que o filho, Cristiano da Rocha, que trabalhava na equipe de higienização e a nora, Patrícia Fernandes, era monitora, também estivessem na lista dos demitidos.

— A minha rotina estava puxada e eu quis sair, mas eles levaram um choque, pois foram pegos de surpresa. Eles davam a vida pela Sadia. Ainda tem a prestação da casa que estão construindo, de R$ 700 por mês para pagar e usavam o FGTS para abater as parcelas. Às vezes até perco o sono — disse.

Há três meses Patrícia ficou grávida, o que trouxe alegria para a família, porém vem junto a preocupação com as despesas. Afinal, Patrícia não poderá voltar a trabalhar tão logo.

Da família apenas o marido de Cesarina, Claudinei Schmitz, que continua empregado, como motorista de ônibus escolar. Com a saída da BRF, ela abriu mão do salário de R$ 1.694,00 e ficou apenas com a aposentadoria de R$ 954,00.

Com isso parou a construção de uma casa na chácara que possui na localidade de Água Amarela.

Para complementar a renda ela faz crochê e vende lingerie, com o que consegue cerca de R$ 200 por mês.

O filho e a Nora moram no porão da casa de Cesarina, no bairro Efapi, enquanto esperam que a casa fique pronta, o que está previsto para fevereiro deste ano.

Mesmo com a previsão da BRF de contratar mais 700 pessoas no próximo ano, Cristiano afirmou que não deve se candidatar. Ele demonstra ainda estar chateado com a demissão inesperada.

—Fiz um curso de vigilante e já tenho um emprego engatilhado. Espero voltar a trabalhar logo — disse.

Cesarina também está tentando um emprego de monitora de ônibus escolar, na empresa que o marido trabalha.

Mesmo com as demissões na família ela disse que ficou feliz com a notícia da retomada dos abates na empresa, pois tem muito amigos que trabalham na unidade. Além disso mais demissões iriam complicar o mercado de trabalho.

Avicultor de Chapecó volta a trabalhar

Depois de cinco meses com os dois aviários vazios, devido à suspensão temporária dos abates pela BRF de Chapecó, o avicultor Fernando Villani, de Nova Itaberaba, voltou a receber 16,6 mil pintinhos no dia primeiro de dezembro.

Fernando Villani (de boné) retoma as atividades em Chapecó
Fernando Villani (de boné) retoma as atividades em Chapecó
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— Quando ficou sem alojar teve noites que não conseguia nem dormir direito, a gente depende da avicultura e não sabia o que fazer. Foi muito bom que voltou e agora vou trabalhar dando risada por ver de novo os bichinhos no aviário — disse.

Com 31 anos de idade, o avicultor começou a cuidar o aviário de um vizinho desde os 18 anos. Há seis anos resolveu investir R$ 650 mil em dois viveiros, que tem ainda duas parcelas para pagar, o que dá cerca de R$ 100 mil de dívida.

Ele precisa produzir para pagar as contas. Villani conta que a empresa bancou uma ajuda de custo durante os cinco meses parados, o que dava cerca de R$ 88 por aviário/dia. Essa era a única renda dele e dos pais, com quem mora, numa propriedade de oito hectares.

— A nossa renda caiu cerca de 70% e a gente economizou onde dava. Agora estou feliz com a retomada e primeiro quero pagar as contas para depois fazer novos investimentos — falou.

Funcionária confiava na retomada da BRF

Há 12 anos e nove meses trabalhando na Sadia, que depois virou BRF, a funcionária do setor de refile de pernas de frango, Virte Vieira, disse que em nenhum momento se assustou com o anúncio de 1,1 mil funcionários da empresa entrariam em “lay-off”, que é a suspensão dos contratos de trabalho. Ela afirmou que não temia pela demissão caso o mercado não desse demonstrações de recuperação.

— Em nenhum momento tive esse receio. A gente trabalha aqui durante todo esse tempo e sei que a empresa é uma potência não é à toa. Confio nos gerentes e gestores e eles deixaram claro que era uma situação momentânea. Tinha certeza que iria voltar — disse Virte.

Durante o período de lay-off ela contou que aproveitou para fazer cursos obrigatórios para o pagamento do salário, que nesse período foi bancado pelo Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT).

— A gente aprendeu bastante coisa, um pouco de tudo, sobre os processos em geral, sobre orçamento, que pode ser aplicado tanto na empresa como na vida — destacou.

Apesar de receber apenas 80% do salário que recebia na empresa durante esses cinco meses, ela afirmou que não precisou cortar gastos, pois já tem um planejamento que permite uma sobra.

— Até gastei mais do que gastava, um dos motivos foi a formatura da minha filha em Administração — disse.

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