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    Alimentação 

    Aproveitando o tempo em que estamos em casa para melhorar os hábitos alimentares da família 

    A crise da Covid-19, que vem mantendo as pessoas longe de restaurantes, limitando empreendimentos em supermercados e fazendo com que mais pessoas cozinhem em casa, resulte em melhores hábitos alimentares

    13/04/2020 - 12h31

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    Por The New York Times
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    *Por Jane E. Brody

    Tento ver o lado bom das coisas durante a desastrosa tempestade viral pela qual estamos passando. Talvez, apenas talvez, a crise da Covid-19, que vem mantendo as pessoas longe de restaurantes, limitando empreendimentos em supermercados e fazendo com que mais pessoas cozinhem em casa, resulte em melhores hábitos alimentares.

    Os americanos têm muito a fazer antes de começar a consumir alimentos que possam prevenir doenças crônicas e promover uma longevidade saudável.

    Como uma pessoa que sempre vê o lado bom, eu deveria ter ficado mais animada com o último relatório que apontou que a dieta das crianças americanas melhorou significativamente desde a virada do século.

    No entanto, fiquei consternada com a conclusão do estudo de que mais da metade das crianças de dois a dezenove anos ainda tem uma dieta que fica muito abaixo das recomendações atuais sobre o que devemos ingerir para ter uma boa saúde, agora e no futuro.

    Quando a coleta de dados para o estudo se iniciou, em 1999, 77 por cento das crianças dos Estados Unidos, incluindo a maioria das que tinham acesso a comidas melhores, tinham uma dieta nutricionalmente ruim. Na pesquisa mais recente, concluída dezoito anos depois, a proporção de crianças com uma dieta ruim havia caído para 56 por cento.

    Os dados vieram de nove pesquisas sucessivas do Exame Nacional de Saúde e Nutrição, que incluíram 31.420 jovens. A qualidade da dieta foi medida em relação a três recomendações principais: duas orientações atuais da Associação Americana do Coração e uma baseada no Índice de Alimentação Saudável de 2015, que mede a conformidade às Diretrizes Nutricionais para Americanos.

    "As coisas estão melhorando, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido. É assustador ver que as crianças ainda estão longe de onde precisam estar. Esse resultado é decepcionante, mas não surpreendente, uma vez que a maioria dos alimentos disponíveis em supermercados e restaurantes não atende às diretrizes nutricionais", disse o dr. Dariush Mozaffarian, um dos autores do estudo.

    Mozaffarian, reitor da Escola Friedman de Ciência e Política Nutricional da Universidade Tufts, continuou: "A melhora nos últimos vinte anos não foi tão grande quanto esperávamos que fosse. Daqui a vinte ou trinta anos, estaremos nos afogando na diabetes tipo 2. Se os atuais hábitos alimentares forem mantidos, uma em cada duas crianças nascidas agora desenvolverá a doença. Não podemos esperar mais vinte anos para consertar isso. Trata-se de um trem de carga de doenças crônicas que está descarrilando."

    O estudo, dirigido por Junxiu Liu, epidemiologista da Tufts, revelou algumas pequenas mas encorajadoras melhoras. Atualmente, os jovens americanos estão consumindo mais frutas in natura, menos sucos de frutas e mais grãos integrais. Embora estejam consumindo menos leite, o consumo de iogurte e queijo está aumentando, assim como o de carne de aves, e a quantidade de bebidas adoçadas com açúcar e outras fontes de adição de açúcar agora é metade do que era em 1999.

    Mas houve pouco progresso na redução do consumo prejudicial de carnes processadas, grãos refinados e sal, e no aumento do consumo de vegetais, peixes, frutos do mar e proteínas vegetais saudáveis. Nos dias de hoje, a ingestão média de frutas e legumes está em apenas 1,8 porção por dia, não as quatro ou cinco porções recomendadas, apontou o estudo. Em vez de três porções diárias de grãos integrais, as crianças estão consumindo menos de uma.

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    E, embora o consumo de bebidas açucaradas tenha caído significativamente, "o açúcar adicionado, proveniente de outros alimentos, não diminuiu. Ainda há muito açúcar adicionado nos cereais matinais, biscoitos, bolos e doces nas dietas infantis", argumentou Mozaffarian.

    Considerando a má qualidade da nutrição juvenil antes da Covid-19, temo que a pandemia possa piorá-la ainda mais, especialmente no que se refere a crianças de famílias de baixa renda, que podem estar sendo privadas de refeições devido ao fechamento de escolas ou cujos pais estão sem renda alguma. Infelizmente, as comidas menos nutritivas disponíveis para os americanos também são as mais baratas.

    Ainda assim, compartilho a esperança de Mozaffarian – e de outros especialistas em nutrição – de que, durante o isolamento forçado a que muitos de nós estamos sendo submetidos, as famílias americanas descubram, ou redescubram, a cozinha, envolvendo as crianças na preparação de alimentos e fazendo com que adultos e crianças se sentem juntos para comer os mesmos alimentos.

    A dra. Suanne Kowal-Connelly, pediatra do Centro de Saúde Qualificado Federal de Long Island, em Roosevelt, no estado de Nova York, trabalhou arduamente para ajudar as crianças a desenvolver preferências alimentares saudáveis. Em uma entrevista, ela explicou que a maioria das preferências é aprendida nos dois primeiros anos de vida e isso é muitas vezes explorado de maneira negativa em anúncios e no posicionamento de produtos com deficiência nutricional em lojas.

    Você já reparou que os cereais infantis com açúcar estão quase sempre nas prateleiras mais baixas e que doces e biscoitos são frequentemente colocados perto dos balcões do caixa?

    "Deveríamos ajudar as crianças a desenvolver um gosto por alimentos saudáveis e desencorajar alimentos salgados, açucarados e gordurosos nos primeiros anos de vida", recomendou Kowal-Connelly. Lembro-me de colocar legumes na bandeja da cadeirinha de meus filhos como petiscos e, alguns anos depois, deles mastigando aipo cru e cenouras mergulhadas em um molho leve enquanto o jantar estava sendo preparado. Não havia batata frita, doces ou refrigerantes em casa.

    "Os pais deveriam servir às crianças os mesmos alimentos que ingerem, mas em porções menores, e não oferecer outra coisa, dizendo, por exemplo: 'Tem nuggets de frango no freezer se você não quiser comer os brócolis que fiz.' As crianças nos admiram; imitam nosso comportamento e percebem do que gostamos", explicou Kowal-Connelly.

    E acrescentou: "Os pais podem falar sobre as cores bonitas de vários alimentos e por que eles são bons para nós – transforme a refeição em um jogo de aprendizado. Um novo alimento pode precisar ser introduzido várias vezes – doze ou treze – apenas para que as crianças o experimentem."

    Ao comer fora, os especialistas desaconselham a opção de menu infantil. "Por que eles precisam de seu próprio cardápio e por que tem de ser uma porcaria? Parte dos US$ 160 bilhões que o governo gasta atualmente somente com a diabetes tipo 2 deveria ser direcionada para a melhora dos alimentos, especialmente aqueles que as famílias de baixa renda podem pagar", disse Mozaffarian.

    Os lanches representam mais um impedimento para melhorar a qualidade da dieta das crianças, afirmaram os especialistas. É raro ver uma criança em um carrinho sem um pacote de lanche industrial que, mesmo não sendo doce ou salgado, geralmente é feito com um carboidrato refinado. Uma geração inteira está sendo criada com uma necessidade perpétua de gratificação oral, que é um mau presságio para os esforços atuais e futuros na tentativa de conter a epidemia de obesidade.

    "Neste momento de crise, a alimentação saudável é mais importante do que nunca. Alimentos saudáveis podem reforçar o sistema imunológico e ajudar pessoas de todas as idades a combater infecções respiratórias", completou Mozaffarian. Para pessoas que não conseguem comprar legumes frescos ou que não têm acesso a eles, ele e Kowal-Connelly afirmaram que versões congeladas ou mesmo enlatadas são uma boa alternativa.

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