Hormônios e neurotransmissores trabalhando de forma equilibrada, bem-estar psicológico e profissional e sintonia com o parceiro são apenas alguns dos fatores que envolvem a libido feminina. Para a mulher, problemas emocionais afetam o desejo tanto quanto os biológicos. Esse foi um dos principais motivos da demora para se criar um medicamento que atuasse na disfunção sexual feminina, o que ocorreu há pouco mais de um mês, com a aprovação do flibanserina pela Food and Drugs Administration (FDA), agência que regula medicamentos nos Estados Unidos.

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Enquanto o Viagra – comercializado desde 1998 – trata da disfunção erétil (ou seja, da excitação), aumentando o fluxo de sangue em direção ao pênis, a nova droga atua nos neurotransmissores da mulher. O medicamento dosa o nível de elementos químicos no cérebro, como a serotonina e a dopamina, agindo no desejo feminino.

– Para a mulher, não adianta tratar somente a excitação, estimulando o clitóris. Ela precisa ser influenciada psicologicamente para ter vontade de transar. Agir na extremidade do corpo, como é no homem, é bem mais fácil de controlar. Trabalhar com o sistema nervoso é mais complexo – opina Carmita Abdo, coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade da Universidade de São Paulo (USP).

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Agência de medicamentos nos EUA aprova primeiro “viagra feminino”

Do latim, a palavra libido significa “luxúria” ou “desejo”. Para a psicanálise, é a energia que move os instintos de vida, usada por Freud para descrever “a manifestação dinâmica da sexualidade”. Desde então, o termo virou sinônimo da disposição sexual. Quem está com falta ou pouca libido não percebe estímulos eróticos em situações rotineiras, não tem desejo sexual que brote espontaneamente e, em estágios mais avançados, não consegue responder às investidas do(a) companheiro(a).

Por ter a testosterona como um dos principais hormônios atuantes, a libido funciona de forma distinta entre homens e mulheres. Conforme Heitor Hentschel, ginecologista, sexólogo e professor da Faculdade de Medicina da UFRGS, enquanto eles têm uma produção constante da substância e, portanto, são permanentemente ativos, a delas é cíclica:

– Biologicamente, o macho nunca sabe quando vai encontrar a fêmea fértil, e então, está sempre pronto. Entre os animais, as fêmeas é que determinam o momento da cópula, quando vão aceitar o macho, no período em que estão férteis. Nós, humanos, somos um pouco diferentes, porque queremos o subproduto do sexo, o prazer, e não só a reprodução. Então, o queremos em outras horas.

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O período fértil na mulher ocorre na metade do ciclo menstrual. É nesse momento, quando há um aumento da produção da testosterona, que o desejo e a satisfação sexuais são maiores. A libido tem, portanto, um impulso biológico, ligado à preservação da espécie, e é a primeira fase da resposta sexual humana – seguida de excitação, orgasmo e resolução (leia mais ao lado). Entretanto, segundo Hentschel, ainda se sabe pouco sobre o que faz esse desejo despertar.

– Muito provavelmente envolva fatores mais primitivos, como o cheiro – conclui.

Mais perto do próprio corpo

Mesmo com esse empurrãozinho da biologia, estar com os hormônios em níveis normais não necessariamente significa que uma mulher terá desejo. A libido feminina é muito mais complexa e pode ser influenciada por diversos fatores, desde problemas psicológicos (como a depressão ou um trauma) até emocionais (estresse no trabalho ou atritos em relacionamentos).

– A mulher precisa estar saudável física e emocionalmente. Alimentar-se de forma balanceada, não ter vida sedentária, evitar beber em excesso, não usar drogas, não fumar e administrar o estresse e as horas de sono ajudam a retardar o aparecimento de doenças e repercutem positivamente no sexo – recomenda a sexóloga Carmita Abdo, da USP.

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O desejo feminino também sofre influência cultural e da educação familiar. A sexóloga Jaqueline Brendler, diretora da Associação Mundial para Saúde Sexual, destaca que, enquanto o homem é estimulado desde cedo a gostar de sexo e se identificar como um ser sexuado, a mulher é educada a adiar sua iniciação sexual e a reprimir sua libido.

Realizado em 2000, o Estudo do Comportamento Sexual (Ecos) do Brasileiro, organizado por Carmita, ouviu 2.835 pessoas maiores de 18 anos e mostrou que 92,1% das mulheres não se masturbavam frequentemente. Em 2008, Carmita coordenou outro estudo, chamado de Mosaico Brasil, que entrevistou 8 mil brasileiros e mostrou que cerca de 40% das mulheres nunca tinham se masturbado. Entre os homens, esse índice foi de apenas 3,4%. A especialista opina que isso afeta todos os estágios sexuais, inclusive a libido:

– Se um contingente enorme delas não se masturba, como vai saber do que gosta? E como vai explicar o que quer para outra pessoa se ela própria tem dificuldades com o corpo?

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Outro motivo da diminuição do interesse sexual também pode estar ligado ao(a) companheiro(a). Jaqueline afirma que, principalmente em relações duradouras, a sedução, muito associada a novas conquistas, deixa de ser uma preocupação, o que afeta a excitação. De acordo com ela, uma vida sexual prazerosa faz com que a mulher perceba estímulos eróticos no dia a dia.

– Um casal se beijando ao vivo ou em uma propaganda, por exemplo, é um estímulo. A mulher saudável também pensa no último amasso ou na última transa e sente desejo. Ela é uma pessoa sexuada, ou seja, vê o parceiro(a) como ser erótico e percebe seu próprio potencial sexual – esclarece.

Também na pesquisa Ecos, enquanto a principal disfunção sexual apontada pelo público masculino foi a erétil, caracterizada pela incapacidade de obter e manter uma ereção, a falta de desejo (chamada de Distúrbio do Desejo Sexual Hipoativo) ocupou o primeiro lugar no caso das mulheres – atingindo 34,6% delas, ante 12,3% dos homens.

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Tratamento em muitas frentes

A carência de libido é tratável, mas, para isso, é preciso procurar ajuda de especialistas. Segundo a sexóloga Jaqueline Brendler, as mulheres normalmente demoram anos para tentar resolver o problema, enquanto homens são mais ágeis, já que é muito difícil ter uma ereção sem libido.

– Para o homem, o problema é visível, mas a mulher consegue transar sem desejo, por obrigação. E muitas fazem isso por achar que o principal é dar prazer ao parceiro(a) para o relacionamento continuar. Elas adiam conversar sobre o assunto para não causar conflito – explica Jaqueline.

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O primeiro passo, então, é descobrir as causas da falta de desejo. Se o motivo for uma doença, como a depressão, é fundamental tratá-la – por mais que o medicamento afete a libido, se o problema inicial não for solucionado, o desejo também não melhorará. Se for alguma questão emocional ou a influência de fatores externos, sessões com um especialista podem ajudar – sendo o sexólogo o mais indicado. Independentemente do propulsor do problema, ler livros e contos eróticos ou assistir a filmes com cenas de sexo são boas formas de estímulo, de acordo com Jaqueline.

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A flibanserina foi o primeiro medicamento criado para tratar da falta de desejo sexual e também o primeiro destinado a qualquer distúrbio sexual feminino. O comprimido, que era pesquisado originalmente como um antidepressivo, é destinado para mulheres que ainda não chegaram na menopausa, têm a saúde física e mental intacta e estão felizes com seu relacionamento, mas apresentam desequilíbrio em certos neurotransmissores. A flibanserina deve ser ingerida diariamente, e os efeitos podem ser percebidos depois de cerca de quatro semanas de tratamento.

Apesar de os especialistas reconhecerem o avanço de se ter um medicamento para tratar da falta de libido feminina, sua eficiência ainda é questionada.

– Como é um problema sexual comum, acredito que vá ser bem vendido inicialmente. Mas, como a eficácia não é muito boa, as vendas devem cair depois de um tempo – projeta Jaqueline.

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