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    Atrás da direção, em uma sinuca de bico

    A indústria do esporte automobilístico vem se esforçando para combater a percepção de que não apoia o sexo feminino – criando comissões e programas de diversidade –, mas mudanças tangíveis não têm se processado de fato

    03/03/2020 - 11h24

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    Por The New York Times
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    *Por Roy Furchgott

    Jackie Heinricher, uma pilota de corrida profissional e executiva de biotecnologia, iniciou, há alguns anos, a criação de uma equipe feminina de corrida de alto nível.

    Ela sabia que seriam necessários milhões de dólares para gerir uma equipe de forma adequada, mas disse que se sentia confiante em que empresas pertencentes a mulheres, ou administradas por mulheres, ou interessadas em comercializar seus produtos para mulheres, assinariam rapidamente todos os contratos de patrocínio de que sua equipe precisasse.

    "Nessa altura, achei que o carro estaria coberto de anúncios de absorventes e produtos de higiene feminina ou coisas do tipo, mas não recebi proposta alguma", disse ela.

    Em vez disso, a empresa que ofereceu o maior suporte foi a Caterpillar, fabricante de equipamentos de construção. Esse apoio financeiro foi suficiente para que seu sonho se realizasse e, no fim de janeiro de 2019, a Heinricher Racing estreou na classe GT Daytona de corridas de carros esportivos na Associação Internacional de Esportes Automobilísticos. Nos 50 anos de história da associação, a equipe foi a primeira a completar uma temporada usando somente pilotos do sexo feminino – e terminou a temporada em outubro entre as dez melhores.

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    Quando Heinricher visitou a Caterpillar em setembro para discutir planos para esta temporada, no entanto, foi informada de que a empresa havia decidido que não patrocinaria mais sua equipe. Como a temporada de 2020 já começou, Heinricher correu contra o relógio para encontrar um patrocinador e, assim, manter sua equipe unida.

    Mas outra equipe convenceu suas pilotas a sair, deixando Heinricher sozinha para encarar as mudanças como a única dona da equipe e, pelo menos nesta temporada, que não estará atrás do volante.

    O automobilismo já evoluiu bastante desde a década de 70, quando os homens ameaçavam boicotar corridas se as mulheres pudessem competir. Há mulheres altamente qualificadas pilotando os carros, nos boxes e nas equipes de engenharia, em quantidade jamais vista. Mas encontrar patrocinadores dispostos a desembolsar de US$ 3 milhões a US$ 6 milhões para financiar as equipes, que sempre foi uma parte difícil das corridas, tem sido uma barreira para as mulheres, que são frequentemente tratadas como truques de marketing e não como concorrentes sérias. "Truque de marketing. Odeio esse termo", disse Heinricher.

    Ela disse que quis montar uma equipe só de mulheres "para mostrar que elas podem competir em pé de igualdade com os homens e vencer se tiverem apoio legítimo". Isso deveria ter atraído patrocinadores. Entre suas pilotas estava Katherine Legge, dona de um recorde na celebrada pista de Laguna Seca, no norte da Califórnia, e Simona De Silvestro, que conseguiu um pódio na série IndyCar, que inclui a corrida Indianapolis 500.

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    E tem também Heinricher, fundadora e presidente da BooShoot, empresa pioneira na produção comercial de bambu. Ela foi a primeira mulher a competir no Lamborghini Super Trofeo. Em 2017, ela e Pippa Mann formaram a primeira equipe cem por cento feminina da série Trofeo, ficando em terceiro lugar no evento que contava com pilotos profissionais e amadores.

    A equipe Heinricher Racing estreou na Rolex 24, em Daytona, uma corrida anual de resistência, no fim de janeiro de 2019. As duas primeiras equipes formadas somente por mulheres competiram lá em 1966. Elas pilotaram pequenos Sunbeam Alpines azuis após receberem o patrocínio de uma empresa de óleo, que as chamou de "Moças com Motor e sem Anel".

    Uma dessas pilotas, Janet Guthrie, viria a se tornar a primeira mulher a competir na Daytona 500 e na Indianapolis 500. Mas a campanha de 1966 "foi vergonhosa", disse ela em entrevista por telefone, uma vez que as mulheres não tinham esperança alguma de competir de igual para igual com carros tão fracos como aqueles. As equipes femininas terminaram as provas em antepenúltimo e último, mas à frente de 26 carros que nem sequer terminaram.

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    Naquela época, usar as mulheres para atrair atenção era considerado uma jogada inteligente de marketing. No entanto, em 2016, Bernie Ecclestone, executivo-chefe da Fórmula 1 na época, disse à rede canadense TSN que pilotas do sexo feminino "não seriam levadas a sério". Isso foi anos depois que Danica Patrick venceu uma corrida da IndyCar e conquistou a pole position no Daytona 500. Patrick, que se aposentou em 2018, recebeu bastante patrocínio e atenção da mídia, mas uma grande parte disso veio por conta de sua beleza e não por sua habilidade como pilota.

    A indústria do esporte automobilístico vem se esforçando para combater a percepção de que não apoia o sexo feminino – criando comissões e programas de diversidade –, mas mudanças tangíveis não têm se processado de fato. Em junho, por exemplo, quando a Heinricher Racing se candidatou à prova 24 Horas de Le Mans, um dos eventos de maior prestígio do esporte, foi recusada.

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    Questionada sobre o motivo em uma entrevista à BBC, Michelle Mouton, presidente da Comissão de Mulheres do órgão regulador das corridas, disse ter sido informada de que uma equipe feminina era o limite. "Foi a resposta que recebi: 'Podemos ter apenas uma'", explicou Mouton.

    A equipe escolhida, Kessel Racing, foi apresentada como um exemplo de como as corridas tinham se tornado igualitárias. Um artigo no site da LeMans trazia a manchete: "Kessel Racing prova que o automobilismo não é apenas para homens".

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    Mais tarde, a Caterpillar enviou um e-mail a Heinricher, explicando que uma das razões para o encerramento do contrato de patrocínio foi o fato de que sua empresa não conseguiu colocar um carro na LeMans. "Uma equipe feminina foi convidada e competiu na LeMans, portanto agora não será mais a primeira que a promoveremos", dizia o e-mail.

    As entidades que governam a LeMans negaram a existência de discriminação sexual, e Heinricher encolheu os ombros.

    "Você poderia chamar isso de machismo, falar que é discriminação, dizer muitas coisas, mas o fato é que não estamos reservados na sala", disse ela à BBC.

    Em entrevistas, Heinricher analisa cuidadosamente o que diz, preocupada com o fato de que ser franca possa prejudicá-la como dona de uma equipe que precisa atrair patrocinadores. Ela expressou reservas a respeito de ser entrevistada para este artigo e comentou: "Não quero que isso se torne uma controvérsia."

    A Caterpillar não respondeu a vários pedidos de comentário sobre Heinricher e a decisão de deixar de patrocinar sua equipe. A falta de patrocinadores na reta final custou caro para Heinricher: suas pilotas foram recrutadas por outra equipe nesta temporada.

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    Heinricher continua sendo a única dona de equipe na Associação Internacional de Esportes Automobilísticos, uma das principais organizadoras de corridas de automóveis, e a Exxon Mobil, em janeiro, se comprometeu com a equipe, embora todos os pilotos sejam homens.

    Ela disse que não se intimidou ao tentar atrair mais mulheres para as principais vagas das corridas e que é atualmente a mentora de Loni Unser, uma pilota de 22 anos da quarta geração da dinastia Unser, que está correndo em uma categoria inferior nesta temporada.

    "O que quero é atrair pessoas realmente talentosas. Estou de olho em pilotas jovens, mas não basta simplesmente ser mulher. Você tem de ser uma pilota que vence", concluiu Heinricher.

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