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Protestos

Cineastas brasileiros em Cannes criticam o "golpe" e fim do Ministério da Cultura

Nomes como Kleber Mendonça Filho, Sônia Braga e Eryk Rocha deram declarações 

17/05/2016 - 04h13 - Atualizada em: 17/05/2016 - 05h08

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Por AFP
(Foto: )

Cineastas brasileiros, jovens e consagrados, aproveitaram o espaço no Festival de Cannes para expressar repúdio ao que chamam de "golpe de Estado" de Michel Temer, com o afastamento de Dilma Rousseff para o julgamento do processo de impeachment, e denunciar um retrocesso para o país.

— O que está acontecendo é um golpe de Estado — disse o diretor Kleber Mendonça Filho antes da exibição nesta terça-feira de Aquarius, protagonizado por Sônia Braga, filme que está entre os 21 que disputam a Palma de Ouro.

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O cineasta de 47 anos reencontrou em Cannes a atriz de seu filme, que mora em Nova York e que ele não via desde o fim das filmagens em Recife, em setembro do ano passado.

— Eu moro nos Estados Unidos, mas também no Brasil, tenho família e amigos lá e penso que o que está acontecendo, a manipulação da tomada do poder, tem que ser exposto ao mundo inteiro — afirmou Sônia Braga.

— Uma das coisas que mais me preocupa é como o Brasil está dividido. Nunca havia visto o meu país tão dividido — disse a atriz.

De acordo com a estrela, de 65 anos, "tudo o que se fez desde o fim da ditadura, desde a abertura do Brasil, fizemos juntos. Temos que entender que em dois anos, de todas as formas, vamos votar para presidente. Temos que voltar a fazer as coisas juntos".

Rocha e o Cinema Novo

O diretor Eryk Rocha apresentou em Cannes Cinema Novo, um documentário poético sobre o movimento cinematográfico, um dos mais importantes da América Latina e que revolucionou a criação artística nos anos 1960 e 1970.

— O Brasil está entrando em um novo momento, extremamente grave e de incerteza. Como cidadão, sinto uma profunda impotência e angústia com o que está acontecendo: o Brasil está vivendo uma ruptura muito grave no processo democrático.

— Há um golpe de Estado contra uma presidente que foi eleita por milhões de pessoas, que não tem nenhuma ilegalidade demonstrada, e quem a acusa são políticos comprovadamente corruptos — disse.

Eryk Rocha criticou em particular o fim do ministério da Cultura pelo governo Temer e sua fusão com o ministério da Educação.

— É um reflexo do grande retrocesso que está acontecendo no Brasil. Filho de Glauber Rocha, um dos fundadores do Cinema Novo, o diretor disse que, aos 38 anos, sentiu a necessidade de rodar o documentário para "voltar às raízes cinematográficas do país, observar sua história política e perguntar por quê faço cinema hoje".

A nova geração

Eryk Rocha destacou que o cinema Novo, que contou com cineastas consagrados como Nelson Pereira dos Santos, Joaquim Pedro de Andrade e Ruy Guerra, entre outros, "tinha outra ideia da coletividade".

— Havia projetos coletivos e, apesar da diversidade do movimento, o que o unia era olhar o país e comprometer-se com ele. É necessário reconstruir esta ideia do coletivo para transformar o mundo — disse o cineasta, que fez questão de afirmar não ser "nem lulista nem petista", e sim um "artista independente".

— O cinema pode criar outra voz, outros olhares e outra percepção da realidade, do que está acontecendo — disse.

Isabel Penoni e Valentina Homem são duas jovens diretoras brasileiras que começaram a fazer cinema nos últimos anos.

Em Cannes elas apresentaram, na mostra Quinzena dos Realizadores, o curta-metragem "Abigail", sobre a viúva do antropólogo Francisco Meireles, conhecido por seu trabalho com as comunidades indígenas nos anos 1940 e 50.

A visão de ambas sobre o que está acontecendo no Brasil também é muito crítica.

— Do ponto de vista de quem faz cinema e quem trabalha com arte é terrível, porque havia conquistado algumas coisas graças às políticas de cultura, sobretudo com o governo Lula, que democratizou a cultura. Agora a tendência é ter muito menos investimento regular na produção — disse Penoni.

Valentina Homem observou que quase todos os filmes brasileiros exibidos em Cannes este ano - incluindo o próprio, o de Kleber Mendonça Filho, o de Eryk Rocha, assim como curta aplaudido na Semana da Crítica "O Delírio é a Redenção dos Aflitos", de Fellipe Fernandes - foram produzidos em grande parte com dinheiro público canalizado por iniciativas dos governos anteriores.

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