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Como funcionam os colégios públicos com gestão militar, modelo defendido por Bolsonaro 

Gestão compartilhada, com funcionários da Polícia Militar em tarefas de disciplina e administrativas, foi adotada em escolas de Brasília 

28/02/2019 - 14h33

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Por AFP
Desde 11 de fevereiro, quatro escolas públicas de cidades-satélites da capital federal integram o projeto-piloto
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Em um colégio público no entorno de Brasília, um sargento explica a um grupo de cerca de 20 alunos de 13 e 14 anos que as regras mudaram: a partir de agora deve-se fazer fila para entrar em sala de aula, os meninos devem ter cabelo curto e as meninas, prendê-lo em um coque, no estilo militar.

O início das aulas no centro educacional CED 07, em Ceilândia, é também o começo de sua transformação em "colégio militar", um modelo elogiado pelo presidente Jair Bolsonaro, capitão do Exército na reserva.

O colégio vai adotar o modelo de "gestão compartilhada": funcionários da Polícia Militar (PM) assumem as tarefas de disciplina e administrativas, enquanto os professores respondem pela parte pedagógica.

— Estamos aqui para empoderar os professores — afirma o capitão da PM Newton de Araújo, vestindo um impecável uniforme celeste e azul marinho, enquanto organiza seus subalternos para que passem aos alunos as novas regras. — Chegamos para ser colaboradores e não usurpadores — esclarece.

Desde 11 de fevereiro, quatro escolas públicas de cidades-satélites da capital federal – com cerca de 7 mil estudantes – formam parte do projeto-piloto.

— A previsão é chegar a 40 até o fim do ano — explica Mauro Oliveira, assessor da secretaria de Educação do Distrito Federal.

Cabelo preso e uniforme: as regras dos colégios

— Máquina dois nos lados, quatro em cima — disse o sargento Nunes tocando a própria cabeça, para explicar a um aluno, que escutava atentamente, como terá que cortar o cabelo. Uma jovem, de cabelo comprido, também perguntava sobre o estilo a ser usado pelas meninas.

Formar fila para entrar em sala é a primeira novidade. Nos próximos meses, serão apresentadas outras determinações: os alunos usarão uniforme, os acessórios das meninas deverão ser "muito discretos", haverá uma cerimônia diária de hasteamento da bandeira nacional e terão aulas de cidadania.

— Através de princípios da cultura militar vamos aplicar regras como civismo, patriotismo, cidadania, ética — afirma o capitão Newton.

Para Lucas Monteiro, um aluno do CED 07 que aos 13 anos já participou de projetos educacionais militares, o novo modelo ajudará também a enfrentar os problemas de "agressão física e verbal entre os estudantes, como espancamentos e bullying".

Escolas militares
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Um modelo de sucesso... ou de exclusão

Os quatro colégios foram selecionados, entre outros fatores, pelos baixos índices de desenvolvimento humano e o alto índice de criminalidade – como tráfico de drogas – nos bairros onde estão localizados, acrescenta o capitão Newton.

O Distrito Federal se inspirou nos 120 colégios públicos no Brasil, a metade no vizinho Estado de Goiás, que já contam com esta metodologia há anos.

Bolsonaro afirmou durante a campanha eleitoral que "há um preconceito quando se fala sobre as escolas coordenadas por militares" e prometeu expandir o modelo.

— Já foi mais do que provado o sucesso deste modelo — declarou.

A proposta pretende melhorar a disciplina e o rendimento acadêmico, disse Newton.

A iniciativa escandalizou parte da comunidade educacional. A professora Carla Alcântara Souza é filha de militar, mas se opõe radicalmente ao projeto "imposto" no CED 07.

— Me preocupei muito quando nosso diretor de disciplina disse que aqueles que não se adaptarem a este modelo podem ir embora. Para um educador, escutar que "se você não se adaptar pode sair", é doloroso — afirma.

Para a professora, a personalidade dos alunos também será afetada.

— Vamos falar para um aluno negro com um penteado afro, que está começando a assumir sua identidade: "infelizmente, agora você terá que se adaptar a um padrão no qual este traço da sua personalidade não é mais aceita — acrescenta.

Alguns alunos estão preocupados.

— Tenho medo porque afetará nossa liberdade de expressão — disse Maria Eduarda Lacerda, 14 anos, lembrando que já não poderá se vestir como gosta.

O capitão Newton contrapõe:

— Muitos diziam que os policiais militares tomariam o lugar dos professores, que assumiriam o poder de decisão; a verdade é totalmente inversa. Queremos empoderá-los.

— Mas que modelo de sucesso é este? — questiona a professora Miriam Fábia Alves, da Universidade de Goiás, que pesquisou a expansão dos colégios militares no Estado nos últimos 20 anos.

— É possível conceder autoridade a outra pessoa? Isso não existe, não se faz transferência de autoridade, isso é um discurso falacioso. Essas escolas implantam uma lógica educacional extremamente conservadora — afirma.

Para pesquisadora, a gestão compartilhada "esconde" a entrega da gestão das escolas à Polícia Militar e aos Bombeiros. Uma modalidade que, ao que parece, se propagará com força durante o governo de Bolsonaro, cujo ministro da Educação, Ricardo Vélez, já prometeu criar uma subsecretaria para as escolas militares.

— Hoje os astros se alinham para isso (...). Não tenho dúvida, tudo isto favorece muito a expansão deste tipo de escola — prevê a educadora.

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