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    Comunidade luta por estrada ecológica na Vargem Grande, em Florianópolis

    Mesmo com reivindicação de especialistas e ativistas, prefeitura lançou edital para pavimentar a via sem estudos ambientais e investindo R$ 6,5 milhões

    10/04/2019 - 16h00

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    Por Dayane Bazzo
    Via é usada por pedestres e também passeios a cavalo
    (Foto: )

    No bairro Vargem Grande, no norte da Ilha de SC, há uma estrada de chão com 3,4 quilômetros que liga a comunidade ao bairro Rio Vermelho. A Estrada Cristóvão Machado de Campos fica em meio a montanhas e uma extensa área verde. Por ser de terra, não é todo mundo que se arrisca a passar por ela, principalmente em dias de chuvas, por causa da lama e dos buracos. Há cerca de 20 anos, especialistas, ativistas e moradores estudam e lutam pela construção de uma estrada ecológica, que melhore as condições da via sem causar danos ao meio ambiente.

    Rita de Cássia Sampaio Araújo, 62 anos, membro da Associação dos Moradores da Vargem Grande (Amvagra), comenta que há pelo menos dois anos aumentou o fluxo de veículos na região, incluindo de caminhões. Sem sinalização e lombadas, o número de animais atropelados também cresceu. Tatus, lagartos, cobras e macacos já apareceram mortos na estrada.

    — Isso é terrível. Nós que vivemos aqui vemos todos os dias o que está acontecendo — salienta.

    Por isso, a associação, moradores e especialistas como biólogos, engenheiros, arquitetos, agrônomos e advogados se uniram para achar uma solução. Eles desenvolveram o projeto da Estrada Parque Vargem Grande e Rio Vermelho, uma via ecológica que prevê preservação ambiental e melhores condições de tráfego.

    — A mobilidade, sem dúvida, é importante. Hoje está ruim para os moradores e animais. Porém, a gente entende que é preciso fazer uma estrada ecológica, adaptada para que os animais não continuem morrendo, e humanizada, com espaço para ciclistas, para as cavalgadas que ocorrem nos fins de semana, e para o pedestre. Uma estrada que ressalte a vocação ecológica da região, com ganho para os moradores e que não se transforme apenas em uma passagem que vai aumentar o trânsito — explica Rita.

    Rita de Cássia é ativista na luta pela Estrada Ecológica
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    O movimento pela estrada ecológica existe, segundo Rita, há mais de 20 anos. Mas foram nos últimos dois meses que se destacou, após a comunidade saber que a prefeitura estava desenvolvendo um projeto para asfaltar a via. A comunidade procurou a Secretaria de Infraestrutura e a Amvagra enviou oficio à prefeitura pedindo informações sobre a pavimentação, mas não foram atendidos nem tiveram retorno.

    Faixas sobre a estrada ecológica foram penduradas ao longo da via. Alunos e professores da Escola Albertina Madalena Dias fizeram uma manifestação em apoio a ecoestrada e, nesta semana, o Observatório de Áreas Protegidas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) divulgou apoio à criação da Estrada Parque.

    Na sexta-feira (5), com apoio da Câmara de Vereadores, foi marcada uma audiência pública na sede da associação da Vargem Grande para apresentar o projeto desenvolvido por especialistas e comunidade e ouvir a Prefeitura, mas nenhum representante do município compareceu. A Amvagra também procurou o Ministério Público de Santa Catarina, que acompanha o caso, e as associações de moradores de bairros vizinhos.

    — É um momento em que as iniciativas estão se fortalecendo no sentido de se contrapor a essa política inaceitável, devastadora e comprometedora de toda fauna, flora e recursos hídricos.

    O que prevê a Estrada Parque

    A Estrada Cristóvão Machado de Campos sai da Rodovia Armando Calil Bulos (SC-403) e vai até a Rodovia João Gualberto Soares (SC-406). Parte dela já é asfaltada, mas 3,4 quilômetros ainda são de chão batido.

    O projeto da Estrada Parque prevê pavimentação em paver e não em asfalto. Rita explica que o paver é permeável, o que permite o escoamento da água da chuva e evita alagamentos, comuns na região por reter a água que desce do morro. Além disso, o material diminui o ruído dos pneus e ajuda a evitar a alta velocidade dos veículos, pois a proposta da estrada não é ser alternativa para desafogar o tráfego, e sim favorecer o turismo ecológico com aproveitamento da paisagem e passeios de pedestres e ciclistas.

    Calhas nas laterais da via ajudariam a evitar que o paver se mova, além de escoar a água. Uma faixa multiuso também é contemplada pelo projeto, que poderia ser usada por pedestres, ciclistas e cavalos. Instalação de pórticos nas duas entradas limitaria a altura dos veículos, para evitar que as copas das árvores fossem destruídas, prejudicando os macacos e outros animais.

    Projeto da Estrada Parque desenvolvido por especialistas e moradores da Vargem Grande
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    Segundo Rita, para diminuir os impactos ambientais, o projeto pede que a estrada seja fechada à noite e aos domingos, para permitir também as cavalgadas, que reúne mais de 100 cavaleiros nos fins de semana.

    — O asfalto simples vai privilegiar apenas o carro e criar um problema maior com o fluxo de veículos que vai ficar parado aqui, pois com a ilusão de ter uma via rápida. Os carros vão sair do Rio Vermelho e quando chegar na Vargem Grande vão ficar parados. Não somos contra a pavimentação, mas defendemos uma estrada diferenciada, que não só privilegie o carro, mas que tenha espaço para as pessoas, cavalos, ciclistas, animais — argumenta Rita.

    Prefeitura já lançou edital para obra

    A prefeitura de Florianópolis lançou na semana passada o edital de licitação para contratar a empresa que fará a pavimentação asfáltica da Estrada Cristóvão Machado de Campos. O secretário de Infraestrutura Valter Gallina acredita que esta é a obra mais importante do norte da Ilha para melhorar a mobilidade urbana. Com a via pavimentada, os motoristas não precisarão pegar o trânsito dos Ingleses e poderão desviar pela estrada.

    Segundo Gallina, os moradores da Vargem Grande esperam por esta pavimentação há mais de 40 anos e é uma obra cara, orçada em R$ 6,5 milhões. O projeto da prefeitura prevê drenagem pluvial, asfalto e uma ciclorrota compartilhada. Para Gallina, o item mais reivindicado pelo grupo de moradores e especialistas que desenvolveram a Estrada Parque é com relação ao paver ao invés do asfalto.

    — Mas o tipo de pavimento é inegociável, não podemos mudar, vai ser asfalto. As pessoas não vão usar a estrada se for pavimento em paver. Se você ouvir a comunidade, quase todo mundo quer asfalto. A outra preocupação deles é com a drenagem, mas não precisam se preocupar, pois vai ter drenagem adequada — afirma.

    A obra não prevê calçada nem passagens para animais, mas segundo o secretário, algumas adequações poderão ser feitas no decorrer da obra, desde que esteja dentro do orçamento da obra.

    Gallina comenta que nunca recebeu projeto ou estudo de impacto ambiental. Sobre os pedidos de reuniões dos moradores e o ofício enviado pela associação, ele não soube informar o porquê não houve as reuniões, pois não chegou até ele.

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    Impactos ao meio ambiente

    Biólogo e consultor ambiental da Amvagra, José Olímpio da Silva Junior explica que a Estrada Cristóvão Machado de Campos passa por um corredor ecológico, local onde tem um grande fluxo de fauna entre os morros que vai desde o Rio Tavares até Ponta das Canas.

    Com a estrada asfaltada, como prevê o projeto da prefeitura, a rua se tornará uma barreira e aumentará o isolamento dos animais em cada lado da via.

    — Quando você aumenta essa fragmentação, a tendência é que os bichos diminuam o fluxo de trânsito entre as áreas remanescentes e se isolem, aumentando o que chamamos na biologia de consanguinidade, o cruzamento entre indivíduos aparentados, o que aumenta o risco de extinção de mais espécies por isolamento de populações — explica Olímpio.

    Além disso, segundo ele, o aumento da velocidade e o processo de ocupação mais acelerado que o asfaltamento propicia também causará o atropelamento crescente de animais.

    Outro impacto pontuado por Olímpio é com relação as características da região, que mudariam drasticamente com a via asfaltada, se tronando um atalho para fugir do trânsito.

    — Se todas as localidades da Ilha tiverem vias rápidas, as comunidades locais iriam perder suas características, deixando de ser pontos de encontro e de visitas para serem locais de passagem, interferindo na dinâmica de encontro das pessoas, no ritmo das comunidades locais. Não interessa à comunidade gerar uma alternativa de atalho, até porque fazer o asfaltamento é gerar uma demanda por maior velocidade, maior fluxo, sem resolver os gargalos que já existem e a falta de estrutura na parte que já tem asfalto — diz.

    Segundo o biólogo, a proposta da Estrada Parque tem um viés ecológico do ponto de vista natural e do ponto de vista humano e cultural. A solução, para ele, seria o pavimento não asfáltico com redutores de velocidades, passadores de fauna, que podem ser subterrâneos e/ou aéreos, desde pequenos viadutos até telas e redes que podem ser colocadas entre as copas das árvores, e assim melhorar a mobilidade pela lógica humanista, de respeito ao pedestre, ao ciclista, ao visitante que faz trilha, que faz cavalgada.

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