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Conheça a história de prédios públicos que estão "abandonados" em Joinville 

"AN" visitou construções que já abrigaram escolas, gerências regionais e até um fórum para ver como estão e descobrir o destino que receberão 

30/09/2017 - 05h00 - Atualizada em: 30/09/2017 - 06h27

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Por Redação NSC
Antigo Fórum Governador Ivo Silveira, que está desativado há nove anos
Antigo Fórum Governador Ivo Silveira, que está desativado há nove anos
(Foto: )

Patrimônios públicos com estruturas imponentes, em lugares nobres e carregados de histórias, mas que hoje têm como retrato mais fiel o abandono. Essa é a realidade de pelo menos seis imóveis que já abrigaram órgãos estaduais e municipais na região central de Joinville e atualmente encontram-se inutilizados. O futuro dessas edificações é motivo de interesse para os joinvilenses, e a reportagem de “AN” percorreu esses locais em busca de respostas.

Dentro de um espaço de até quatro quilômetros foram listados, em situações de desuso e deterioração, o Centro de Educação Infantil Padre Carlos e a Escola Estadual Conselheiro Mafra, além dos antigos edifícios da Escola de Educação Básica Professor Germano Timm e do Fórum Governador Ivo Silveira. O Ginásio Ivan Rodrigues e a ex-sede da Companhia Catarinense de Águas e Saneamento (Casan), que, posteriormente, foi base da Gerência Regional de Educação (Gered), também foram mapeados.

Das seis propriedades, cinco estão sob responsabilidade do Estado, e uma, da União. O levantamento aponta que, em pelo menos quatro delas, o destino ainda é incerto e mudanças devem demorar a acontecer. Tudo depende do desenrolar de tratativas e de propostas. Nos dois casos mais avançados, os imóveis já têm futuro pretendido: um será vendido e terá o dinheiro revertido à Secretaria da Saúde e o outro será demolido, dando lugar a um novo empreendimento.

A situação não é muito diferente da encontrada por “AN” há dois anos. Na ocasião, foram listados cinco prédios públicos abandonados no Centro de Joinville, entre eles, o da antiga Prefeitura, localizado na rua Max Colin. À época, o futuro da edificação era incerto e o espaço chegou a ser utilizado como depósito. Um ano depois, o edifício voltou a ser ocupado pelo município e hoje abriga a Secretaria de Planejamento Urbano e Desenvolvimento Sustentável (Sepud).

ESCOLA CONSELHEIRO MAFRA E CEI PADRE CARLOS

Construídos um ao lado do outro na rua Conselheiro Mafra, no Centro de Joinville, o CEI Padre Carlos e a Escola Conselheiro Mafra ajudaram na formação educacional de milhares de alunos ao longo de décadas. Agora, restam apenas lembranças de quem passou por ali, além das estruturas que ainda estão de pé, mas acumulam avarias provocadas pelo tempo.

CEI Padre Carlos está com a estrutura bastante danificada
CEI Padre Carlos está com a estrutura bastante danificada
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Desativada em 2012, a mais antiga das escolas estaduais de Joinville, a Conselheiro Mafra, foi erguida no lado direito do terreno, há quase 106 anos, e é tombada pelo Patrimônio Histórico. Até hoje, aguarda a revitalização. O prédio, pertencente ao governo do Estado, está fechado por telas metálicas, que escondem o acúmulo de mato, desgaste nas paredes e corrosão do teto. No ginásio ao lado, parte da estrutura de ferro do empreendimento também está recoberta de arbustos.

Uma das únicas instituições de ensino do município há algumas décadas, o colégio fez parte da história de vida de famílias inteiras, como a da joinvilense Mirtes Prachthäuser, que estudou no local entre 1966 e 1969. Ela, a sua mãe, irmãos e primos passaram pela escola. Segundo Mirtes, do ambiente escolar restam lembranças e a revolta pelas condições atuais da construção. Outra preocupação, para ela, é quanto ao destino de arquivos históricos dos antigos alunos.

Mirtes foi aluna na Escola Conselheiro Mafra nos anos de 1960
Mirtes foi aluna na Escola Conselheiro Mafra nos anos de 1960
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– A escola era muito importante naquela época e só tenho lembranças boas porque ali era o começo da vida da gente, dos estudos, dos amigos, alguns que ficaram até hoje. Me revolta ver a situação em que a Conselheiro se encontra, porque como pode um prédio importante desses e nessa localização passar por este descaso? – questiona.

O sentimento de Mirtes é parecido com o de Luiz Vitório Júnior, morador do Costa e Silva, quanto ao estado atual do CEI Padre Carlos, onde permaneceu dos quatro aos seis anos de idade, nos anos de 1990. O centro educacional foi inaugurado em 1962 e está interditado desde 2009 por problemas como infiltrações e goteiras. De lá para cá, nenhum projeto de recuperação vingou.

Na Conselheiro Mafra, alternativas de uso são estudadas
Na Conselheiro Mafra, alternativas de uso são estudadas
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– Recordo que era tudo muito colorido, muito cheio de vida, tinha um pátio enorme, recheado de brinquedos. É uma tristeza e decepção ver que não foi lutado por uma instituição que já foi muito conhecida e importante para a cidade – lamenta Luiz.

Contraponto

Sobre a situação da Escola Conselheiro Mafra, a Agência de Desenvolvimento Regional (ADR) de Joinville explica que, para que seja dado um novo destino a ela, é necessária a modificação de uma cláusula na lei de doação do imóvel, celebrada entre os governos municipal e estadual. As benfeitorias são do Estado, mas o terreno ainda está em nome da Prefeitura.

Na cláusula citada, o acordo prevê que o imóvel deve ser doado ao Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), que abriu mão de utilizar a área devido ao custo elevado de restauro e reforma – projeto orçado em, no mínimo, R$ 2,5 milhões (2013). Mesmo com a desistência da instituição de ensino, a cláusula impede que o Estado faça a escritura em seu nome e destine a área para outro fim. O governo de Santa Catarina solicitou a retirada do artigo à administração municipal, que ainda não tem prazo para a continuidade do procedimento.

Quanto ao CEI Padre Carlos, a reforma do local, estimada em R$ 1 milhão, pode estar perto de ser realizada. Isso porque, na última quinta-feira, a Associação Universo Down, que atende a 63 pessoas, solicitou ao Estado a concessão de uso do imóvel. Uma vistoria do lugar deverá ocorrer na semana que vem. A secretária executiva da ADR, Simone Schramm, acredita que, vencida essa etapa, o caminho para a permissão de uso comunitário poderá ser rápido.

– Depois (da avaliação), vamos enviar um processo para a Secretaria de Estado da Administração e acredito que poderemos vencer as questões jurídicas e ceder o imóvel. Dessa maneira, a área pode voltar a ser utilizada pela comunidade – afirma.

Se a proposta for aceita, a própria entidade pretende fazer uma campanha para arrecadar os recursos necessários da revitalização. Atualmente, Joinville tem entre 850 e mil pessoas com síndrome de Down.

ESCOLA PROFESSOR GERMANO TIMM

Outro edifício tombado pelo Patrimônio Histórico de Joinville e que permanece sem restauro é a antiga sede da Escola de Educação Básica Germano Timm, localizada ao lado do Centreventos Cau Hansen e da Escola Bolshoi, no Centro. Fechada desde 2006, quando uma nova estrutura foi inaugurada no local, a obra octogenária completou dez anos de interdição em meio a propostas de revitalização que nunca chegaram a sair do papel.

Antiga sede da Escola Germano Timm ainda não foi restaurada
Antiga sede da Escola Germano Timm ainda não foi restaurada
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Enquanto isso, a estrutura exibe as marcas do tempo, visíveis no descascar das paredes, na falta de roçadas, na ferrugem das grades e no entulho, que começa a ganhar espaço no terreno (vidros, plásticos e madeira). Em um futuro próximo, não há nenhuma perspectiva de mudança no quadro atual do imóvel. A demanda pela restauração é contínua devido ao ambiente ser tombado pelo poder público.

Contraponto

Segundo a ADR de Joinville, existe um projeto com área prevista para reforma e restauro de 821 metros quadrados. O valor estimado é de R$ 1,8 milhão e foi orçado em 2015. Porém, o custo a obra também carece de atualização e a restauração de um espaço tombado custa até três vezes mais que uma reforma normal.

GINÁSIO IVAN RODRIGUES

O número 1.640 da rua Max Colin, no bairro América, guarda histórias de conquistas no esporte, na arte e na cultura joinvilenses. Elas começaram a ser contadas na década de 1970 com a inauguração do Ginásio Ivan Rodrigues. Passados mais de 40 anos, o mesmo ginásio guarda hoje materiais inservíveis do Hospital Municipal São José e da Secretaria Municipal da Saúde. O depósito provisório é composto por itens como macas hospitalares, cadeiras, fogões e geladeiras.

Ivan Rodrigues hoje serve de depósito provisório
Ivan Rodrigues hoje serve de depósito provisório
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A atual ocupação do empreendimento ocorre seis anos após sua interdição por problemas estruturais e contrasta com a época em que o Ivan Rodrigues se firmou como um dos espaços de integração mais importantes de Joinville. No passado, as arquibancadas eram lotadas, tanto em disputas de competições esportivas quanto em shows nacionais e até internacionais. Além disso, ele foi a casa do Festival de Dança de Joinville entre os anos de 1984 e 1997.

Segundo a Prefeitura, a utilização da estrutura interna para os descartes iniciou-se neste ano por meio de um termo de cessão da área para o uso do local. A medida foi tomada devido à necessidade de concentração dos materiais descartados em um único espaço. Já no lado de fora, os reflexos do tempo de inutilização também aparecem. Há vidros quebrados, paredes pichadas, parte da cobertura metálica descoberta e ferrugem.

Contraponto

Devolvida ao governo estadual pelo município em agosto (a doação previa utilização do local para finalidade esportiva), devido à inatividade, a construção ainda tem futuro incerto. Enquanto isso, a concessão do espaço para abrigar os bens inservíveis continua. De acordo com a ADR, foram finalizados os registros em cartório para envio da documentação à Secretaria de Estado da Administração, responsável por definir o destino da área de 1,1 mil metros quadrados. Ainda conforme o governo, não está descartado que o ginásio passe pelo processo de alienação, por venda, ou outra alternativa. Caso a primeira possibilidade seja escolhida, é necessária aprovação da Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc).

FÓRUM GOVERNADOR IVO SILVEIRA

Avaliado pela última vez em 2012 em aproximadamente R$ 4,3 milhões, o imóvel que já sediou o Fórum da Comarca de Joinville e outros órgãos públicos, entre as ruas Princesa Isabel e Dona Francisca, não tem outra alternativa além da demolição. O ambiente de 1,3 mil metros quadrados foi desativado há nove anos, após mais de 40 anos de uso. Desde então, chegou a ser usado como abrigo por pessoas em situação de rua e sofreu atos de vandalismo. Cercado e vazio, o empreendimento não oferece mais condições de utilização.

Prédio que abrigou o Fórum será demolido
Prédio que abrigou o Fórum será demolido
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O edifício foi repassado pelo município de Joinville ao Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4) por meio de uma permuta há dois anos e, segundo laudo técnico da engenharia-Seção Judiciária de Santa Catarina, o prédio deve ser demolido.

Contraponto

Conforme o TRF4, a demolição do prédio ainda não ocorreu devido à falta de verba orçamentária. A diretoria financeira do órgão destaca que está buscando recursos para realizar a ação. A intenção da Justiça Federal é de que no futuro seja construído um novo empreendimento no local para sediar a Subseção Judiciária de Joinville. Porém, não há previsão orçamentária, datas ou levantamento dos custos do projeto.

Nesta sexta-feira, a demolição da atual estrutura do terreno voltou a ser discutida em uma reunião entre o presidente do TRF4, desembargador federal Carlos Eduardo Thompson Flores, e uma comitiva de Joinville, em Porto Alegre. O plano é que a demolição do prédio seja realizada até o mês de março de 2018. A juíza federal Cláudia Dadico, diretora do foro da Seção Judiciária de SC, também participou do encontro.

EX-SEDE DA CASAN e GERED

O prédio de 1,9 mil metros quadrados que, entre os anos de 1990 e 2000 abrigou a Casan e, posteriormente, a sede da Gerência Regional de Educação (Gered), está interditado há seis anos. Localizado na rua Senador Felipe Schmidt, o imóvel está fechado por tapumes. Propriedade do governo do Estado, ele foi desocupado por causa de goteiras, rachaduras, infiltrações e problemas elétricos e não voltou a ser utilizado.

Vegetação já cobre parte do imóvel
Vegetação já cobre parte do imóvel
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Avaliado em R$ 5,1 milhões, o imóvel já não tem mais janelas ou vidraças, exibe paredes pichadas e descascadas e, de longe, buracos são avistados nas divisórias. O crescimento do mato é outra realidade. Apesar da situação, o prédio pode ganhar um novo destino ainda neste ano.

Contraponto

A Alesc autorizou, em junho, a venda do patrimônio por meio do PL nº 164/2015. Os recursos arrecadados serão destinados à Secretaria de Estado da Saúde e terá como finalidade contribuir para o atendimento de serviços essenciais à população. Em nota, o governo informa que “o edital de concorrência pública foi feito pela Secretaria de Estado da Administração (SED), está concluído e vai ser publicado para os interessados apresentarem seus lances e propostas”. A SED diz também que ainda não é possível dar prazos, mas a conclusão do processo está previsto para os próximos meses.

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