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30 ANOS DA QUEDA DO MURO DE BERLIM

Conheça Bonn, a capital que foi o berço da Alemanha democrática

Repórter do Diário Catarinense que morou na capital da Alemanha Ocidental conta como é o município de 329 mil habitantes

09/11/2019 - 16h50

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Cristian Edel
Por Cristian Edel Weiss
Universidade de Bonn.
Universidade de Bonn.
(Foto: )

Desconhecida especialmente pelos mais jovens, Bonn é pouco menor do que Blumenau. Mas a cidade de 329 mil habitantes, situada no estado de Renânia do Norte Vestfália, o mais populoso e rico da Alemanha, é uma terra de memórias e coadjuvante da reunificação do país.

Bonn foi de 1949 até a década de 1990 a capital provisória da República Federal da Alemanha (RFA), o lado ocidental, enquanto Berlim era o centro da República Democrática da Alemanha (RDA), a porção oriental. Como sede de governo desde o Reino da Prússia, em 1701, Berlim era simbólica e foi partilhada entre o bloco capitalista, formado por EUA, França e Reino Unido, e o comunista, da União Soviética. Mas ficava totalmente dentro da RDA. A Berlim capitalista, portanto, estava isolada, como uma ilha num território dominado pelos soviéticos.

Era preciso que a capital da Alemanha Ocidental ficasse longe da fronteira comunista, para se resguardar em caso de conflitos. Para isso, Bonn era estratégica, fica a apenas 75 quilômetros da fronteira com a França. Numa disputa com Frankfurt, Bonn venceu e foi escolhida capital. Mas, no fundo, a geografia era apenas um pretexto. A cidade de 2 mil anos, onde nasceu o compositor Ludwig van Beethoven, era terra predileta de Konrad Adenauer. Nascido na metrópole vizinha, Colônia, onde chegou a ser prefeito na década de 1930, ele foi um dos mentores do que viria a ser a Alemanha de hoje.

Ruas de Bonn.
Ruas de Bonn.
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O primeiro chanceler da RFA foi o grande fiador da unidade do país e defensor dos valores social-democratas que são marca de todos os governos alemães pós-reunificação. Adversário do nacional socialismo, usou seu carisma e capacidade de diálogo para reconciliar o país com a França no pós-guerra, promover o bem-estar social e a democracia e evitar o avanço do bloco comunista. Foi também um conciliador quando os aliados capitalistas quase se desentendiam sobre os rumos da nação. Era também um visionário: ensaiou com França e Itália os traços de uma Europa em comum, embrião do que viria a ser a União Europeia.

Há algumas semanas, retornei de um período residindo em Bonn. Desde o primeiro dia na cidade, foi impossível não lembrar dessa relação com o passado. Ainda no trem, no dia da chegada, enquanto me apontava para as plantações de uva nas colinas e as paisagens do Rio Reno, a professora Kerstin contava como era viver neste lado do país. Ela nasceu na RDA e, apesar de simples, tinha por lá uma vida confortável. Mas a reunificação provocou rupturas. Ela se mudou para Bonn porque onde nasceu e cresceu não há mais empregos.

Essa mesma realidade presenciei meses depois ao visitar Cottbus, do tamanho de Tubarão, situada a 100 quilômetros de Berlim e na fronteira com a Polônia. Desde 1990, a cidade perdeu 25% da população. Após a reunificação, fábricas fecharam, empresas se mudaram para o leste e, com elas, famílias se foram em busca de oportunidades em outros centros. Mas o sentimento local é de esperança e esforço para desenvolver as comunidades e encontrar novas fontes econômicas. Resquícios dos tempos soviéticos estão apenas nas fachadas das construções e no design dos carros antigos que ainda circulam.

Repórter Cristian Weiss morou em Bonn por três meses.
Repórter Cristian Weiss morou em Bonn por três meses.
(Foto: )

Na noite de 3 de outubro, data em que se comemora, de fato, o Dia da Unidade Alemã desde 1990, vi em Berlim uma população que tomou as ruas e se conectou em frente ao Portão de Brandemburgo, cartão-postal do país, para celebrar. Unidade, justiça e liberdade – verso da primeira estrofe do hino alemão – eram palavras repetidas com frequência.

De volta a Bonn, as ruas respiram qualidade de vida e liberdade. Hoje, ela é internacional. Com duas grandes universidades, uma delas bicentenária e formadora de oito personalidades premiadas com o Nobel, recebe com respeito imigrantes e refugiados. Há ruas onde se vê mais árabes, africanos e asiáticos do que alemães, e o idioma de Goethe passa a ser minoria. Até o prefeito é filho de um indiano.

Embora mais de direito do que de fato, Bonn seguiu como capital até 1999, quando o Bundestag, o parlamento alemão, se transferiu para Berlim. Mas um pouco daquele centro pensante do passado permanece. Muitos edifícios federais continuaram na cidade, como a sede das Nações Unidas, o complexo da empresa de logística DHL, seis ministérios, a empresa pública de comunicação Deutsche Welle, algumas embaixadas e sedes de multinacionais. A terra predileta de Adenauer se orgulha do passado e de servir de modelo para a Alemanha que a ajudou a reconstruir.

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