nsc
    dc

    TRANSTORNOS MENTAIS 

    Convivendo com problemas mentais em casa

    O efeito total da pandemia sobre as pessoas que lidam com transtornos mentais só se tornará claro com o tempo, declararam especialistas, e provavelmente vai variar amplamente para cada indivíduo

    05/05/2020 - 17h22

    Compartilhe

    Por The New York Times
    problemas mentais
    (Foto: )

    *Por Benedict Carey

    O pânico vem de algum lugar da barriga de Connor Langan, e tão rapidamente que seu rosto muda; seus olhos ficam agressivos, seu lábio superior treme e ele às vezes soca a parede, frustrado. Tais episódios fizeram com que Connor, de 17 anos, recebesse licença do ensino médio no fim do ano passado, e no início de março ele concordou em participar do Mountain Valley, um programa residencial de New Hampshire conhecido por lidar com problemas de ansiedade nos jovens.

    Mas, em 27 de março, em resposta à crescente ameaça do coronavírus, a instituição suspendeu temporariamente as operações e começou a enviar para casa mais de vinte adolescentes e jovens adultos. Seus terapeutas criaram conexões virtuais para continuar fornecendo suporte para alguns indivíduos, mas a mudança foi abrupta para todos.

    "Na noite anterior, tive um ataque de pânico, quase uma psicose completa, e no dia seguinte eu realmente queria falar sobre isso. Havia muita incerteza, eu sabia que seria difícil levar os problemas de novo para a família", disse Connor, que agora está de volta à casa dos pais em Bedford, New Hampshire.

    Seus pais conhecem a situação. "Estávamos nervosos, para dizer o mínimo. Esse programa deveria ser a ponte para levá-lo de volta à normalidade em que ele quer estar. Agora há um grande buraco no meio, e ele tem de passar por cima – enquanto está em casa", afirmou seu pai, Stephen Langan, que trabalha com serviços financeiros.

    Em todo o país, a pandemia de coronavírus afetou os serviços de saúde mental, forçando milhares de pessoas com sofrimento psíquico incapacitante, e suas famílias, a se ajustarem repentinamente.

    No fim do mês passado, o governo Trump afrouxou as regulamentações sobre enfermarias psiquiátricas, permitindo que os leitos fossem realocados para lidar com pacientes da Covid-19, à medida que os prontos-socorros em Nova York e outras áreas atingidas ficavam sobrecarregados. Ambulatórios e clínicas comunitárias tiveram de fechar as portas e muitas das centenas de programas residenciais do país, como o Mountain Valley, restringiram as admissões, barraram as visitas ou suspenderam totalmente as operações.

    "A capacidade do programa está encolhendo e os funcionários estão sendo demitidos. As famílias precisarão receber seus integrantes que estejam passando por condições de saúde mental agudas e complexas e aprender a lhes dar suporte", disse Virgil Stucker, ex-diretor do CooperRiis, um programa terapêutico residencial perto de Asheville, na Carolina do Norte, que agora tem uma clínica de consultoria privada.

    Nenhuma família interna com facilidade um ente querido para um tratamento de longo prazo, público ou privado; o momento muitas vezes ocorre com uma gota d'água. Dois pais que foram entrevistados para este artigo pediram posteriormente que não fossem envolvidos, com medo de represálias de um filho adulto que está fora de controle agora.

    "Eles literalmente temem pela própria vida, algumas dessas famílias", observou Brad Richards, defensor da saúde mental em Nova York que ajuda as famílias a encontrar lugares para parentes em crise. Muitos pais estão por conta própria, disse ele, com vários outros filhos e pouca capacidade de controlar situações destrutivas.

    Connor teve sorte, disse ele – os Langan são uma família íntegra e próxima. Na manhã seguinte ao pânico, ele entrou no carro com a mãe, deixando para trás o terapeuta, os novos amigos e a rotina diária altamente regimentada em Mountain Valley. Ele voltou para uma casa apertada, com os pais, dois irmãos mais velhos e o namorado tcheco da irmã, que estava preso nos Estados Unidos por restrições de viagem. Os dois agora dividem um quarto.

    Connor ficaria em Mountain Valley até junho, disse seu pai. "Mas agora, com todo o rigor de sua rotina no passado – bem, qualquer um vai voltar um pouco aos velhos hábitos, ficar acordado até tarde, levantar tarde e passar um tempo no XBox. Como pais, precisamos ser abertos e reflexivos sobre nosso papel na ansiedade dele. É muito difícil separar um garoto de 17 anos de alguém que tem essa ansiedade severa. Ele com certeza não gosta que as pessoas lhe digam o que fazer, e estamos enfrentando resistência, isso é certo."

    Connor concordou. "Tive alguns episódios de ansiedade desde que voltei. Fiquei frustrado com a escola on-line e com meus pais em algum momento."

    problemas mentais
    (Foto: )

    Para indivíduos como ele, algum apoio vem por meio de serviços de vídeo como Zoom e VSee, na forma de teleterapia, embora as diretrizes federais que restringem a prática de cruzar fronteiras estaduais esteja limitando seu uso em algumas regiões. "Temos trabalhado com as famílias para conectá-las a terapeutas locais e, para alguns residentes, desenvolvemos um programa virtual", explicou Timothy DiGiacomo, diretor clínico do Mountain Valley.

    Em casa, Connor tem sessões virtuais com um terapeuta, e seus pais estão recebendo apoio on-line também. A isso se soma muito compartilhamento pessoal em um espaço apertado. "Nossas sessões têm sido boas, mas minha esposa e eu as fazemos em um quarto, e parece que todos na casa podem ouvir o que estamos dizendo", disse Langan.

    O efeito total da pandemia sobre as pessoas que lidam com transtornos mentais só se tornará claro com o tempo, declararam especialistas, e provavelmente vai variar amplamente para cada indivíduo, dependendo da gravidade do problema, do apoio familiar e dos recursos. Ser perseguido por um inimigo invisível certamente mortifica aqueles com um medo obsessivo-compulsivo de germes, e aprofunda a angústia de muitos que experimentaram ondas de ansiedade incontrolável antes da epidemia. Indivíduos que desenvolveram habilidades para gerenciar seus humores provavelmente se sairão bem, afirmaram especialistas. Algumas pessoas com impulsos suicidas podem se sentir mais desesperadas; outras mudarão para o modo de sobrevivência e deixarão de lado os instintos autodestrutivos à sombra de uma ameaça mais ampla.

    Por enquanto, o deslocamento é o que está sendo sentido mais agudamente por pessoas que deixaram programas residenciais. Os telefonemas para grupos de auxílio em todo o país aumentaram acentuadamente. A Crisis Text Line, que oferece aconselhamento gratuito nas crises por meio de mensagens de texto, informou no início deste mês que dois terços de seus usuários em todo o país estão descrevendo sensações mais intensas de depressão e ansiedade ligadas à disseminação da Covid-19 – quase o dobro da intensidade relatada antes do surto, de acordo com uma análise dos termos usados nas mensagens.

    "As chamadas para nossa linha direta aumentaram 60 por cento nas últimas duas semanas de março. Não acho que seja um exagero classificar como trauma o que algumas pessoas estão enfrentando agora", declarou Matt Kudish, diretor executivo da NAMI-NYC, a filial da cidade da Aliança Nacional para a Saúde Mental, organização sem fins lucrativos.

    Jennifer Eve Taylor, consultora educacional terapêutica na Área da Baía, na Califórnia, relatou que seu filho John Hendrick, de 19 anos, que tem autismo, ansiedade e depressão leve, estava indo muito bem em um programa de transição para jovens adultos em Burlington, Vermont. Ele tinha uma equipe de quatro conselheiros, incluindo terapia ocupacional, vida assistida e apoio social. Estava fazendo cursos universitários, até que o programa também suspendeu as operações, e ele foi para a Flórida para ficar com seu pai.

    "Jovens adultos como esses, oh, meu Deus, eles não encaram bem a transição. Conseguem evitar a vida com a tecnologia e se refugiar em videogames e em programas de streaming. Já estamos vendo isso com o John. Não temos equipe para apoiá-lo", disse Taylor.

    Hendrick, contatado por telefone na Flórida, afirmou que a perda de sua vida estável e controlada em Vermont foi tão repentina que ele estava tentando se recompor quando se juntou ao pai. "As mudanças causam muito estresse para mim, é isso. Mas depois de algum tempo costumo começar a me sentir bem, sabe? Realmente, gosto de ter uma agenda organizada – preciso manter uma organização."

    Seu pai, Bud Hendrick, disse que começou a planejar a possível mudança de seu filho assim que o coronavírus se tornou uma epidemia crescente no início de março. "Na primeira semana em casa, deixei que ele se ajustasse o máximo possível. Mas, depois disso, realmente tive de começar uma agenda diária que replica o máximo possível a que ele tinha em Burlington. Isso ajudou enormemente."

    Em New Hampshire, Connor contou que, até agora, seus ataques de pânico – muitas vezes em resposta à pressão acadêmica – estão basicamente sob controle em casa, em parte porque sua família passou a entender melhor seus ataques ocasionais. "O efeito físico mais perceptível é meu lábio superior tremendo."

    "Tenho muita sorte, sei disso. No caso de várias pessoas que conheço, não acho que voltar para casa seja a melhor coisa para elas."

    Pelo menos para alguns deles, a estada em casa pode acabar em breve: o Mountain Valley anunciou no último fim de semana que planeja reabrir em 18 de maio, adotando novas precauções, incluindo desinfecção diária de todas as superfícies e controle de lavagem das mãos.

    The New York Times Licensing Group – Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times.

    Deixe seu comentário:

    Últimas notícias

    Loading... Todas de Saúde

    Colunistas