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    Reinvenção e mudança de planos

    Coronavírus: bares e restaurantes de SC buscam alternativas para lidar com a pandemia

    Entidade aponta impacto em 80 mil trabalhadores, entre contratos suspensos e demitidos 

    23/05/2020 - 13h50

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    Por Janaína Laurindo
    Empresário Thiago Steinhaus conta que mesmo adaptando as novas exigências viu o faturamento cair 80%
    Empresário Thiago Steinhaus conta que mesmo adaptando as novas exigências viu o faturamento cair 80%
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    Uma projeção apresentada pela Associação Brasileira de Bares e Restaurantes de Santa Catarina (Abrasel-SC), aponta que cerca de 50 mil trabalhadores do setor terão os contratos suspensos e cerca de 30 mil serão demitidos durante o período da pandemia de coronavírus. O impacto no setor – que representa 5% do PIB do Estado – foi avassalador, em um cenário em que 31,6% dos estabelecimentos já apresentavam dificuldades financeiras anterior a necessidade de isolamento social, conforme dados divulgados pela entidade.

    – A gente aguarda por linhas de financiamento do governo federal que ainda não chegaram. Esse atraso preocupa bastante porque as linhas que foram disponibilizadas até agora ou foram inacessíveis, ou o valor era muito abaixo da necessidade. Então, a grande maioria das empresas não conseguiu acessar este valor e frente a essa necessidade vêm lutando para sobreviver – aponta o Raphael Dabdab, presidente da Abrasel-SC.

    Neste cenário, empresários de bares e restaurantes precisam se reinventar para não fechar as portas e a adaptação é feita conforme os decretos têm sido revisados e alterados e também de acordo com a resposta do consumidor. Em Florianópolis, um bar mudou a operação algumas vezes desde o início do isolamento social. O proprietário Thiago Steinhaus conta que mesmo adaptando as novas exigências viu o faturamento cair 80%.

    – Em um primeiro momento de abertura tivemos que trabalhar “da porta”. Não éramos habituados a esse tipo de rotina e era algo incomum também aos nossos clientes. As primeiras semanas nesse sistema foram complicadas, as pessoas tinham muito receio de sair de casa. A segunda onda foi a partir da portaria de reabertura dos estabelecimentos, seguindo algumas normas para poder funcionar, como a obrigatoriedade da máscara e do álcool em gel, o distanciamento entre mesas e número reduzido de pessoas dentro do estabelecimento – pondera o empresário.

    O serviço de delivery tem funcionado para diversas empresas. A adaptação traz comodidade ao consumidor e garante as vendas de quem estava acostumado a trabalhar com atendimento direto ao público. Steinhaus conta que a venda de chope em garrafa pet teve resultado positivo e deve ser mantida após o fim da pandemia.

    Em Joinville, Sendy e Ruan Lindner, proprietários de um estabelecimento que costumava receber clientes em um ambiente de descontração com música ao vivo, adaptou o cardápio para o atendimento por delivery.

    Além de apostarem na divulgação pelas redes sociais, investiram também no cadastro em plataformas de pedido on-line. Mesmo com todo o esforço, toda a equipe de atendimento foi dispensada. Seguem um cozinheiro e uma funcionária da limpeza.

    – Estamos tentando nos manter enquanto for possível. Renegociamos boa parte com fornecedores, algumas contas e financiamentos estão sem pagamento – revelam os proprietários, que decidiram manter o espaço somente com entregas.

    – Optamos por não abrir e continuar somente com as entregas. Não achamos seguro, por se tratar de um local onde as pessoas não conseguem respeitar o uso de máscaras, justamente por virem comer e beber.

    Novo comportamento do consumidor exige mudanças

    Os empresários Sendy e Ruan Lindner acreditam que o comportamento do consumidor irá mudar após o controle do coronavírus.

    – Acreditamos que tudo vai ser diferente, tanto o comportamento do público como o mercado em geral. Boa parte pela mudança de atitude esperada e necessária e outra pela crise financeira que vai afetar muita gente.

    A pesquisa da Abrasel dos impactos econômicos e sociais da Covid-19 no setor revela que menos de 20% dos estabelecimentos terão condições financeiras próprias para retomar as atividades. Isso reflete-se na opinião dos empresários.

    – Minha visão não é muito otimista. Olhando pra frente vejo que o ano de 2020 está praticamente perdido. Estamos em maio e o inverno é a estação onde naturalmente nossas vendas caem bastante, portanto visando uma recuperação lá para outubro, fica complicado salvar o ano – comenta Thiago Steinhaus.

    Leia também: Pesquisa mostra queda da renda do consumidor e insegurança para ir a restaurantes

    Para reverter esse quadro, de uma forma geral em Santa Catarina, Steinhaus defende que o público valorize os produtos e os produtores locais. Ele também decidiu apostar no alinhamento das vendas com uma ação social. Junto à outra marca, o bar gerido por ele está arrecadando alimentos não perecíveis que serão doados para famílias em situação de risco e vulnerabilidade do Maciço do Morro da Cruz, na Capital.

    – Só no primeiro final de semana foram mais de 80 quilos de alimentos arrecadados – celebra o empresário.

    A gigante Ambev criou uma plataforma para contribuir na sustentabilidade de pequenos bares, o projeto Ajude um Buteco. Em SC, mais de 350 bares participaram.

    Hora de fechar as portas

    Os dados de estabelecimentos que estão fechando são muito dinâmicos. A cada semana que o setor passa sem receber a ajuda financeira das autoridades aumenta a probabilidade de demissões e de empresas encerrarem definitivamente as atividades. É o caso do empresário Guto Lima, proprietário de um conhecido ponto de encontro no Centro de Florianópolis. Ele se viu sem alternativas para manter o espaço aberto, depois de não conseguir renegociar o aluguel do imóvel no qual ocupava:

    – Fechar dói muito, pois o Tralharia é parte das nossas vidas. É como um lindo sonho virar pesadelo. Infelizmente os governos, principalmente federal, pouco tem feito para auxiliar os pequenos empreendedores. E hoje somos muitos no Brasil.

    Guto Lima se viu sem alternativas para manter seu estabelecimento aberto
    Guto Lima se viu sem alternativas para manter seu estabelecimento aberto
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    Guto conta que tentou minimizar os efeitos da pandemia para conseguir arcar com as contas, mas a característica do espaço não criou possibilidades para o negócio seguir.

    – Nosso perfil de negócio não é a venda pela venda. Nosso principal produto é algo que não é tangível nem possível de quantificar. Muito menos de precificar. Nosso principal produto é ser um espaço de interação social, de conversar e um lugar onde as pessoas se sentem bem. O que vendemos são acessórios, pois o principal são nossos clientes, que são amigos. Então, delivery para isso não é possível. Lançamos de toda forma venda de combos de consumo para quando tudo isso passar, lançamos rifa com nosso acervo de peças e também estamos vendendo peças do antiquário. Sempre fomos uma soma de café, bar e loja de antiguidades. Mas virou um espaço cultural de inteiração entre pessoas com pensamentos similares.

    Guto pensa em reabrir o espaço, mas vai esperar até que o momento seja seguro para que as pessoas possam voltar a interagir e ocupar o espaço do bar. No momento, segue com a venda das peças de acervo para quitar as dívidas:

    – Estamos intensificando a divulgação do acervo para estimular as venda e assim conseguirmos pagar parte das dívidas e das contas – explica Guto.

    Lei dá esperança aos micro e pequenos empresários

    Na última terça-feira, dia 19, o presidente Jair Bolsonaro sancionou a o projeto de lei que cria um programa de crédito para micro e pequenas empresas. No fim de abril, o Senado aprovou o projeto do senador catarinense Jorginho Mello (PL) que cria uma linha de crédito estimada em R$ 15,9 bilhões destinada a esses segmentos de empresas. O recurso será concedido por bancos, cooperativas e fintechs.

    Raphael Dabdab, presidente da Abrasel-SC, comemora a criação do programa, mas pondera vetos feitos pelo governo:

    – É uma ajuda potente e descomplicada, porém lamentamos que num primeiro momento foi retirada a carência de oito meses que o projeto original previa. Essa carência é muito importante nesse momento onde temos muitas empresas ainda fechadas e outras que reabriram, mas que estão com um volume de negócios muito baixo.

    Os bancos que fizerem parte do programa terão de operar com recursos próprios para conceder os créditos às empresas. No entanto, contarão com garantia aportada pelo Tesouro de até 85% do valor de cada operação.

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