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    Coronavírus desafia os nossos afetos

    Tecnologia pode ajudar a driblar as medidas restritivas necessárias para frear a transmissão do vírus, como aperto de mãos e abraços, em especial para os integrantes do grupo de risco

    21/03/2020 - 05h00

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    Por Ângela Bastos
    toque-do-coracao
    Elza Maria mata a saudade dos netos com chamadas por vídeo no celular
    (Foto: )

    Dizem que os avós são pais com açúcar. Isso por causa da forma doce – presentes, gostosuras, permissões – que costumam brindar os netos. Mas é na companhia e experiência de troca entre as gerações que a relação se torna significativa para o resto da vida. Um dos lados amargos da Covid-19 é interromper, ainda que temporariamente, este cotidiano. Principalmente quando envolve pessoas acima dos 60 anos e consideradas no grupo de risco pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

    A catarinense aposentada Elza Maria Piccoli, 61 anos, sentiu os efeitos da recomendação da OMS para ficar longe das crianças. Não só ela, mas também dona Argentina Helena Lovera Picolli, a bisa, 92 anos. Em férias em Santa Catarina, as moradoras de São Paulo foram surpreendidas com as informações sobre os riscos do conoravírus para pessoas mais velhas.

    – Foi uma decisão difícil. Mas concluímos que manter os contatos pelo celular foi o melhor a ser feito neste momento de pandemia – explicou Elza Maria.

    A orientação da Organização Mundial de Saúde leva em conta dois fatores. Além das pessoas a partir dos 60 anos serem as mais vulneráveis, as crianças e adolescentes são vetores da doença. O envelhecimento baixa o sistema imunológico e o organismo perde a capacidade de melhor responder a uma infecção.

    É por causa disso que infectologistas recomendam que as crianças fiquem longe dos idosos. A recomendação vale para qualquer cuidador, tenha ou não laços consanguíneos.

    Mas como trabalhar este afastamento sem que os pequenos se sintam abandonados e os mais velhos invadidos?

    O Conselho Federal de Psicologia divulgou recomendações para esse enfrentamento. O documento segue estudos da OMS e lembra que cada criança tem jeito próprio de expressar emoções, o que pode ser demonstrado através de jogos, desenhos, pinturas. O ideal é que não fosse necessário separar as crianças dos cuidadores. Mas como é preciso, é importante que os vínculos sejam mantidos. Celular e internet são aliados para manter a aproximação.

    Outra dica: preserve rotinas diárias em família tanto quanto possível, principalmente se as crianças estiverem confinadas em casa. Os pais devem conversar com elas sobre a Covid-19 com informações condizentes com a idade. Se a criança demonstra preocupações, os responsáveis devem buscar forma de refletir juntos sobre estes sentimentos para diminuir a ansiedade.

    “O vírus atinge diretamente nosso sistema de afetos”, diz antropóloga

    Com os idosos também é preciso atenção. Ainda que para eles seja mais fácil entender que este afastamento não significa o fim dos laços afetivos. É preciso conversar com informações simples sobre o que está acontecendo, e repassar de forma objetiva sobre os meios corretos de evitar a contaminação. Diante da necessidade de isolamento, é importante que os familiares ajudem o idoso a manter-se conectado (a) e com suas redes sociais ativas.

    Ainda assim é possível manter rotinas pessoais como preparar comidas, pinturas, leituras, dar caminhadas em locais livres e arejados. Em uma coisa todos concordam: a doença é coisa séria. Por isso é necessário que o distanciamento seja obedecido.

    Vale lembrar aquela história que quase todo mundo um dia ouviu da vovó quando o sapato fez uma bolha no pé: “Não estoure a bolha”. É correto mesmo deixar o bolsão de água desaparecer naturalmente. Há casos em que furar pode causar uma infecção muito grave. É assim também com o coronavírus.

    A psicóloga Mirella Alves de Brito, doutora em Antropologia pela UFSC, lembra de um verso de Carlos Drummond de Andrade: “Há duas épocas na vida, infância e velhice, em que a felicidade está numa caixa de bombons”.

    Esse fenômeno da Covid-19 parece ser um vírus que atinge diretamente o nosso sistema dos afetos. Sem beijos e abraços, sem colo ou qualquer proximidade física, exige que nos reinventemos na perspectiva de que vencer esse vírus implica pensarmos um todo, tal qual a filosofia umbuntu, vivemos em comunidade, portanto somos a comunidade – pondera Mirella.

    Para a antropóloga, se faz necessário imaginar como pensar as relações familiares entre idosos e crianças em um registro que os impede de aproximação física:

    – Tenho certeza que cada personagem dessa relação irá identificar o modo de vencer esse desafio, seja por mídias, seja por novos códigos de externalização dos afetos, como piscadas, sorrisos, acenos. Agora, nada mediado por objetos ou toques.

    “A gente precisa tocar o coração dos outros”, diz psicólogo clínico

    Minimizar os impactos da pandemia do coronavírus em nossas vidas se faz necessário. Sejam eles do ponto de vista físico ou emocional. Mas não é hora de refletir apenas sobre nós ou os mais próximos. É hora de pensar nas outras pessoas, já que os seres humanos são resultado de uma vivência coletiva. Afinal, o processo civilizatório que nos trouxe até aqui e no futuro irá nos manter neste planeta é resultado de estarmos unidos e pensando no coletivo.

    – Se a evolução tivesse ocorrido pelos mais fortes, quem estaria aqui seriam os Tiranossauros Rex. Quem venceu e vencerá não é o mais forte, mas o mais flexível, o mais adaptado e o que se uniu em torno do interesse comum. A gente precisa pensar no outro, no familiar, no amigo, no vizinho. Mesmo sem toque físico, a gente precisar tocar o coração dos outros pelas atitudes, por uma mensagem no celular, por um simples telefonema. Isso é o que vai nos salvar.

    A observação é de Rossandro Klingey, psicólogo clínico e escritor. Para ele, fenômeno das redes sociais, é hora de se pensar enquanto nação, mas também enquanto família. Buscar sites confiáveis e programas nas diferentes mídias que são esclarecedoras sobre medidas a serem adotadas, evitar as notícias falsas e alarmistas, conversar sobre o inimigo invisível.

    – O efeito manada é muito bom na natureza, ou seja, quando os animais se juntam para se proteger do predador. Na raça humana é o contrário: a gente perde a racionalidade e pode escolher o caminho errado.

    BBB caseiro

    O psicólogo lembra que os seres humanos são resultado de uma vivência coletiva. E acredita que a gente vai viver uma espécie de “BBB caseiro”.

    – Apesar de toda a dor e isolamento, podemos ter um ganho emocional. É uma ótima oportunidade da gente se recuperar como indivíduo e nos relacionamentos – sugere.

    Ainda que venha pela frente um incremento da solidão e o consequente aumento da depressão entre as pessoas, o psicólogo acredita que cada um ganha a oportunidade de pensar em atitudes que nos façam mais fraternos com os outros. E deixa uma pergunta que segundo ele pode ser pensada desde já no isolamento que social que a pandemia exige:

    O que restará em cada um de nós, nas famílias, nas nações depois que o vírus desaparecer? – questiona o especialista.

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