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José Eduardo Fiates 

Crônicas de um Futuro Possível: curtindo a vista do centésimo andar

Apesar de não serem cidades industriais, Balneário Camboriú e Itajaí tinham muito a ver com tudo o que se preconiza ser a 4ª Revolução

26/06/2019 - 05h55

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Por Tech SC
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Fiates
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Capítulo V: O ano é 2025. O local: são dois! Balneário Camboriú e Itajaí, mais precisamente vistas do centésimo andar de uma recém-inauguradas torre de negócios. Os personagens: José João, Fernanda e Erich, que simbolizam mais de mil empresários, políticos locais, lideranças comunitárias e personalidades da cidade, do Estado, do Brasil e do mundo, que prestigiam a inauguração de dois complexos empresariais simultaneamente: as torres Cambojaí I e II, em Balneário Camboriú, e as outras duas torres Itariú, em Itajaí. Mas, para entender um pouco melhor esse momento é importante retroceder cinco anos no tempo.

No final de 2019, os municípios de Itajaí e Balneário Camboriú decidiram fazer algo que parecia já óbvio há muitos anos: unir forças para empreender projetos capazes de reposicionar as duas cidades como polos econômicos, empresariais e tecnológicos da nova economia, a chamada 4ª Revolução Industrial. Apesar de não serem cidades industriais, as duas tinham muito a ver com tudo o que se preconiza ser a 4ª Revolução: trabalhar com velocidade e amplitude, atuar sistemicamente com uma visão global, buscar o máximo de eficiência em todos os processos, inclusive os de logística e os processos empresariais. Tradicionalmente, as duas cidades tinham vocações bem definidas. Balneário Camboriú, uma cidade de veraneio que evoluía como centro de realização de eventos de negócios e turismo, em função do recém-inaugurado complexo de eventos que abria toda uma nova perspectiva para consolidação da cidade como grande polo de negócios de turismo e negócios. Do outro lado do morro, quase como uma mesma cidade, ficava Itajaí, com seu já reconhecido porto e todo um complexo de transporte e logística vinculado a empresas de diversos setores que contavam com sua eficiência para serem mais competitivos no mercado internacional.

No entanto, faltava à “Balneário Camboriú dos eventos” uma complementariedade para se tonar mais forte em direção à economia dos negócios, e faltava à “Itajaí do Porto” a mesma complementariedade para se posicionar numa nova economia global organizada e altamente tecnológica. A tendência natural seria construir um parque empresarial e tecnológico com área suficiente para atrair novas empresas, o que não era tão trivial, considerando as limitações territoriais que dificultavam a expansão para oeste, mesmo atuando em parceira com outros municípios, como Penha, Camboriú, Itapema, Porto Belo e Tijucas. Ficava evidente que as cidades localizadas mais a oeste que compunham a grande região liderada por Balneário Camboriú e Itajaí tinham todo o potencial para receber o parque tecnológico com características mais industriais em função da disponibilidade de terra e do potencial de crescimento viabilizado com o excelente Anel Viário entre Piçarras e Tijucas. Projetado em 2019 e inaugurado em 2024, o anel viário abriu toda uma nova fronteira de desenvolvimento e promoveu um enorme aperfeiçoamento da logística naquela grande região de Santa Catarina, tornando-a uma espécie de hub logístico para todo estado.

Por outro lado, as duas cidades do litoral, Itajaí e Balneário, não dispunham de espaço para um grande parque tecnológico e de inovação que pudesse abrir oportunidades para novos setores. Foi então que Balneário e Itajaí fizeram o que Barcelona fez por ocasião das Olimpíadas de 92. Praticamente 30 anos depois que a cidade catalã mostrou ao mundo como se renovar e revitalizar, alinhando negócios, turismo, cultura e mar, as duas cidades realizaram um pacto e criaram um projeto integrado de reorganização e desenvolvimento em direção ao mar viabilizado pela implantação de um ambicioso complexo empresarial de inovação em cada um dos municípios: na ponta sul da praia de Balneário Camboriú e na ponta norte da praia de Cabeçudas, em Itajaí.

Dois polos de um mesmo projeto: um grande, inovador, moderno e surpreendente parque empresarial e de inovação. Os mais altos do mundo com esse propósito e possivelmente os mais privilegiados em termos de paisagem e visual.

A ideia se viabilizou basicamente pela criação de uma operação urbana, implementada numa lógica de parceria público-privada partindo de um projeto de urbanístico, liderado pela urbanista Fernanda, que já sonhava há anos com a grande ação estruturante, e que previu toda a ampliação, saneamento e engordamento das praias de Cabeçudas e de Balneário Camboriú, numa faixa de 200 metros de areia, isso assegurava a balneabilidade das águas e, a viabilidade do negócio de turismo por muitos e muitos anos. Complementando o projeto, um grande sistema viário e equipamentos de lazer, entretenimento e mobilidade para alavancar o turismo e os serviços aos cidadãos em ambas as praias. Especificamente no caso de Balneário, destacava-se também, ao lado das Torres na Ponta Sul, um belo complexo náutico junto à barra do Rio Camboriú. Por outro lado, em Itajaí, o esforço foi pela modernização e o desassoreamento na entrada do Porto de Itajaí, também atendendo o Porto de Navegantes, o que tornou o complexo ainda mais competitivo, produtivo e com possibilidade de crescimento por muitos e muitos anos.

O recurso que viabilizou todo esse conjunto de obras de ampliação da praia, infraestrutura viária, equipamentos públicos e empresariais foi basicamente fruto de dois “puxadinhos” de areia, cada qual com cerca de 50 mil metros quadrados, algo como uma grande praça.

Aliás, o projeto base implantado em cada cidade era exatamente o de uma praça tendo em seu centro duas torres de 100 andares e 5 mil metros quadrados de projeção perfazendo um total de 1 milhão de metros quadrados de área disponível para implantação de escritórios, lojas comerciais, hotel, centro de inovação, laboratórios, universidades e o que mais coubesse na região de Itajaí e Camboriú.

O complexo de Itajaí passou a ser chamado de Centro Empresarial de Inovação de Itariú e o complexo de Balneário Camboriú passou a ser chamado de Centro Empresarial de Inovação de Cambojaí.

Os dois prédios se inspiraram, de certa forma, no complexo do World Trade Center de Barcelona, dois prédios estratégicos que geraram um novo espaço para atividades empresariais e desenvolvimento de negócios na área revitalizada do antigo Porto da cidade.

O modelo de negócios para viabilizar tudo isso foi muito simples: o investimento projetado nas obras urbanísticas, melhoria do porto, das áreas náuticas e das praias foi calculado em R$ 1 bilhão em cada município. Os cálculos financeiros e técnicos mostraram que a empresa que assumisse o negócio construindo as duas torres poderia auferir num resultado suficiente para implantar todo investimento de obras públicas e ainda obter um excelente resultado econômico-financeiro pela dimensão do negócio. Isso tudo, naturalmente, se houvesse uma articulação adequada dos cidadãos, da comunidade e especialmente das empresas, para ocupar os dois empreendimentos.

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A Construtora de José João venceu a concorrência para implantar o projeto. Era uma empresa sólida financeiramente e altamente competente do ponto de vista técnico. Tinha todas as condições para implantar um empreendimento daquela envergadura e propor as soluções tecnológicas e investimentos necessários ao conjunto de obras, equipamentos e soluções urbanísticas que envolviam recursos de mais de 4 bilhões de reais. O projeto foi viabilizado por meio da captação de recursos privados nacionais e internacionais, no instrumento de natureza similar ou fundo imobiliário, o que deu transparência, segurança jurídica e viabilidade ao modelo de negócios. José João foi o entusiasta de projeto desde o primeiro momento, envolveu-se pessoalmente no empreendimento. Para concretizar a façanha, ele contratou a empresa do engenheiro Erich, que fez uma pesquisa nos projetos mais avançados do mundo e selecionou soluções arquitetônicas e de engenharia referência em todos os setores. Desta forma, a orla das praias das duas cidades ganhou efetivamente um conjunto de equipamentos e soluções extremamente modernos e icônicos do ponto de vista estético e arquitetônico. Além disso as duas torres em cada cidade ganharam tecnologias avançadas de geração de energia por meio de placas solares que revestiam as laterais dos prédios, novas soluções de paredes e divisórias à base de madeira de alta tecnologia do ponto de vista acústico, estrutural e de design, tudo isso integrado ao sistema de última geração, monitoramento e controle que tornavam as torres um exemplo de swart building e uma referência para os projetos de cidade inteligente que já estão sendo implantados no próprio espaço da orla revitalizado. As duas torres possuem uma superestrutura de madeira, que confere maior flexibilidade e sustentabilidade ao projeto, substituindo a estrutura metálica ou de concreto. José João e Erich formaram uma dupla inseparável durante toda implantação do projeto e do empreendimento e se comprometeram pessoalmente com planejamento e execução de uma obra ousada, mas ao mesmo tempo econômica e inteligente.

A estratégia de marketing também era clara: a ênfase do Complexo Itariú na ponta norte de Cabeçudas focaria nas empresas de serviços de importação e exportação, logística e em sedes de empresas que já atuavam no Porto de Itajaí e precisavam há tempo de espaços adequados para suas áreas administrativas e mesmo técnicas. Este complexo de empresas automaticamente atraiu interesse de empresas de serviços especializadas na área de contabilidade, direito e economia, que ocupariam todo o outro conjunto de unidades das duas torres do Itariú. Finalmente a presença de empresas na área de comércio exterior e logística, bem como de suporte a esses negócios seria também o suficiente para atrair empresas de tecnologia interessadas em estar próximas de um grande hub logístico e naval, que passava a se desenvolver também em função do desenvolvimento do complexo naval criado pela construção de embarcações e equipamentos direcionados à Marinha, iniciado em 2020. Empresas de logística e comércio, de serviços e suporte, de consultoria e de tecnologia criavam as condições para que empresas comerciais, desde restaurantes até hotéis, se instalassem nas torres. Foi o suficiente para que rapidamente os espaços fossem vendidos mesmo antes da conclusão da obra, um grande e absoluto sucesso mundial de empreendimento dessa natureza.

No outro lado do morro, na ponta sul da praia de Balneário, as duas torres do complexo Cambojaí estavam voltadas para aquilo que Balneário mais atrai: ser a sede administrativa e estratégica de todo conjunto de empresas da região do vale do Itajaí, cujos dirigentes e técnicos sonham residir na vibrante e atraente Balneário Camboriú, especialmente agora que dispunha de uma orla marítima absolutamente paradisíaca. A resposta foi rápida, em menos de dois meses todo espaço destinado a escritórios nas duas torres foi contratado para receber sede de empresas industriais e comerciais de toda região e mesmo algumas que passaram a se instalar em Santa Catarina. Novamente nesse caso a presença de sedes empresariais atraiu prestadores de serviços, empreendimentos comerciais, somado à implantação de um belo aquário digital, também se tornou um dos principais atrativos turísticos da cidade de Balneário.

Portanto, o projeto que foi lançado em 2020 para a construção de duas torres em Balneário e duas torres em Itajaí, com áreas totais de aproximadamente 1 milhão de metros quadrados de cada complexo, visando viabilizar uma infraestrutura, revitalização de orla, de criação de uma nova referência de crescimento e de autoestima para as respectivas cidades, se viabilizou em menos de um ano.

Já em 2023 as obras estavam a pleno vapor tendo sido concluídas a infra e os equipamentos urbanos públicos nas praias de Cabeçudas e Balneário. Assim, dois anos antes daquela inauguração em que José João, Fernanda e Erich celebravam com todos os outros valiosos atores sociais que comemoravam o extraordinário empreendimento a população já desfrutava dos benefícios da contrapartida social do projeto, contando com uma nova praia ampliada, com alta balneabilidade e uma orla devidamente urbanizada e atraente.

Foram necessários mais dois anos ainda para que as torres fossem concluídas e todos os serviços de adequação da infraestrutura de acesso e melhoria de mobilidade urbana em Balneário e Itajaí viabilizassem a inauguração de condições absolutamente operacionais, que é o que acontecia naquele dia. Em cada uma das torres no centésimo andar, podia se ver do alto a transformação positiva, experimentada pelas duas cidades, podia se vislumbrar ao longe os benefícios que isso traria para toda região e para todos os municípios do entorno. Cada uma das pessoas nas torres daquele centésimo andar erguiam um brinde com espumante catarinense: profissionais liberais, empresários, investidores, clientes, comunidade, empreendedores, projetistas e visionários que tinham construído em cerca de cinco anos, um projeto de referência, ao mesmo tempo grandioso e óbvio, criativo e natural, complexo e simples, complexo no desenvolvimento na estruturação e simples no conceito e na comunicação. Grandioso no tamanho do investimento e óbvio no conceito e na ideia, moderno na tecnologia e na estrutura, mas tradicional no respeito ao meio ambiente e às características das respectivas regiões, ousado na articulação dos diversos atores e humilde no reconhecimento da importância de cada um. Impossível para muitos e absolutamente possível e viável para alguns poucos. Parabéns, Balneário Camboriú. Parabéns, Itajaí.

* José Eduardo Fiates é diretor de Inovação e Competitividade da Fiesc e Superintendente Geral da Fundação CERTI. As crônicas de um futuro possível foram concebidas pelo autor para provocar a reflexão acerca de temas que se fundamentam em fatos e dados da realidade atual para explorar novas possibilidades e alternativas de futuro que estimulem e promovam a geração de novas ideias, mudanças de comportamento, conceitos criativos, tecnologias inovadoras e visões de futuro diferenciadas e inspiradoras.

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