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    Desemprego e clandestinidade: o impacto do coronavírus na reciclagem em Joinville

    A queda de resíduos que chegam às cooperativas chegou a reduzir pela metade entre março e agosto

    14/09/2020 - 09h39

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    Hassan
    Por Hassan Farias
    Com a redução da equipe, a cooperativa conseguiu manter um salário de aproximadamente R$ 1,5 mil por mês para cada cooperado
    Com a redução da equipe, a cooperativa conseguiu manter um salário de aproximadamente R$ 1,5 mil por mês para cada cooperado
    (Foto: )

    A pandemia do novo coronavírus tem impactado no trabalho e nos hábitos de toda a população mas, para quem trabalha com o lixo descartado nas casas, lojas e empresas, a adaptação tem sido ainda mais drástica. Os custos cresceram, a demanda caiu e os postos de trabalho foram reduzidos. Em Joinville, a queda de resíduos que chegam às cooperativas chegou a reduzir pela metade entre março e agosto.

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    O volume de material reciclado teve um aumento nas primeiras semanas da pandemia, mas não se manteve e logo começou a cair. Em uma das cooperativas, a Recicla, por exemplo, eram trabalhados 120 toneladas de resíduos por mês antes da pandemia. Agora, a média caiu para um patamar de 65 a 70 toneladas por mês. Em outra cooperativa da cidade, a Assicrejo, também foi registrada uma queda, apesar de ter sido menor.

    — Nós temos uma meta de 74 toneladas por mês e estávamos batendo ela. Hoje, estamos com uma média de 60 a 68 toneladas — conta o presidente da Assicrejo, Severino Tavares Nunes.

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    Essa também foi a percepção da Ambiental, empresa que realiza a coleta de lixo na cidade, e que cadastra as cooperativas regularizadas para recolher os recicláveis. Na Recicla, a equipe precisou ser reduzida pela metade. O presidente, Anderson Ramalho da Silva, afirma que 20 famílias precisaram ser desligadas da cooperativa. Atualmente, somente 19 continuam atuando no trabalho diário.

    — Ou tomávamos essa decisão ou toda a cooperativa seria penalizada. Tudo que entra na cooperativa é dividido entre todos e ainda pagamos R$ 9 mil de aluguel, água, equipamentos, taxas, impostos. No primeiro e no segundo mês teve gente que não levou R$ 100 para casa — conta.

    Iraide Ribeiro de Paula da Costa, 66 anos, trabalha há 15 anos na Recicla. No início da pandemia, precisou ficar em casa por mais de um mês por questões de segurança e pela falta de transporte público para se locomover até o trabalho. No retorno, ela viu a rotina mudar não só com os novos padrões de higiene adotados. Para ela, o desafio foi a falta de transporte coletivo, que causou um impacto grande nas finanças da família. Ela precisou desembolsar o pagamento do transporte por aplicativo para trabalhar diariamente, aumentando demais o gasto mensal.

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    Além disso, agora, o material que chega é depositado em um dos lados do galpão e permanece lá por 24 horas — no início da pandemia, eram sete dias. Apenas depois deste prazo é que os cooperados podem mexer no resíduo para fazer a separação e reciclagem.

    O período leva em consideração que, desde o descarte pelo morador em casa até a chegada na cooperativa, são cerca de quatro dias. De acordo com a Fiocruz, o vírus que se deposita sobre uma superfície, dependendo das características, podem permanecer viáveis por algumas horas até dias. A instituição afirma que um estudo descobriu que o vírus é viável por até 72 horas em plásticos e 24 horas em papelão.

    Crise levou à redução das equipes nas cooperativas

    Com a redução da equipe, a cooperativa conseguiu manter um salário de aproximadamente R$ 1,5 mil por mês para cada cooperado. Para Iraide, foi um momento de tristeza ver os colegas serem dispensados, apesar de entender a razão da medida.

    — Me machuca muito porque sabemos que a situação não está fácil e a maioria paga aluguel, tem filhos em casa para alimentar. Se fosse por mim, não faria isso, mas tem horas em que não podemos agir só com o coração, tem que se agir com a razão — comenta.

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    Segundo o presidente da Recicla, uma das explicações para a queda nos resíduos coletados e distribuídos às cooperativas foi o aumento dos clandestinos na cidade. O problema não é novo e apenas se agravou com a chegada da pandemia.

    — O desemprego levou mais gente para a coleta. Agora, tem mais pessoas nas ruas e a demanda diminuiu para nós — conta.

    Os clandestinos são aqueles que fazem o transporte dos resíduos individualmente, sem participar das cooperativas. Segundo o gerente regional da Ambiental, Marco Antônio Ávila, não existe uma legislação que proíba esse tipo de trabalho, mas a preocupação é com o depósito e o tratamento adequado dos resíduos.

    — Eles fazem a triagem e vendem aquilo que interessa, mas alguns acabam largando o excedente em terrenos vazios. Então, falta uma adequação do resíduo final — explica.

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