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    Dia da Mulher: conheça a história de quatro mulheres que se destacam na construção civil de SC

    Elas ocupam importantes espaços entre o canteiro de obras e a produção de relevantes projetos autorais e mostram o crescimento da presença feminina neste mercado

    06/03/2020 - 15h50

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    Por Janaína Laurindo
    Rafaela, Angeita, Luise, Milene conquistaram espaço e são referências no meio em que atuam
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    Transformar tijolos, cimento, ferros, madeiras, barro e incontáveis outros materiais brutos em obras que se tornam lares, ou o negócio da vida de alguém, por muito tempo foi uma atividade predominantemente masculina. Mas, com 109.006 trabalhadoras registradas em 2007 e 239.242 em 2018, de acordo com o IBGE, a presença de mulheres na construção civil cresceu 120% nestes 12 anos no Brasil, onde ocupam importantes espaços entre o canteiro de obras e a produção de relevantes projetos autorais.

    Angelita, Rafaela, Milene e Luise são quatro mulheres que literalmente construíram suas trajetórias profissionais sob alicerces familiares. Mas, com muita dedicação, profissionalismo e personalidade, elas conquistaram seus espaços e estabeleceram bases sólidas num mercado ainda visto como território masculino: a construção civil. Todas conheceram a paixão e vocação para o setor ainda muito novas e, mesmo tendo que driblar uma ou outra dificuldade, hoje atuam com autoridade no assunto e se destacam na Grande Florianópolis, isso sem nunca deixarem de lado seus projetos pessoais.

    O quarteto formado por engenheiras e arquitetas confirma as estatísticas e todas convivem, desde sempre, num universo masculino. Seja circulando ainda criança no ambiente profissional familiar de mãos dadas com os pais; seja durante todo o processo de formação acadêmica; seja hoje em dia, atuando da fundação até os detalhes finais de cada empreendimento, elas foram conquistando voz e ganhando espaço. Somadas, estiveram presentes em mais de 60 projetos, entre obras entregues e em fase de construção, e comprovam que lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive com as mãos na massa.

    — Meu pai, um ser iluminado, com uma história de vida desafiadora, de uma visão única e inovadora, me deu a oportunidade, há 37 anos, de ingressar num mundo que era, na época, muito masculino. Sou muito grata por isso, ele foi minha melhor escola — conta Angelita Emília Koerich, que acompanha o pai desde antes mesmo do surgimento da construtora da família, há 30 anos. Ela fez faculdade de Arquitetura e Urbanismo aos 33 anos, quando já era mãe de Bernardd — que a acompanhava em sua rotina profissional desde bebê.

    Angelita Koerich formou família trabalhando na construção civil
    Angelita Koerich formou família trabalhando na construção civil
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    — Agora já conto com uma equipe alinhada, filho adulto que é formado em engenharia e trabalha conosco na empresa, e tudo fica mais leve. Claro que com a maturidade profissional, a responsabilidade de tarefas frente à empresa aumenta, mas a ajuda dos colaboradores é gradativa — explica ela que ainda fez MBA em Gestão de Obras e consegue dividir seu período de lazer em três miniférias por ano, uma estratégia para descansar e reciclar as ideias sem deixar lacunas de ausência na empresa.

    Super atuante também nas funções de esposa, filha, irmã, mãe e avó, quando perguntada sobre a relação da mulher com a construção civil, Angelita deixa clara sua impressão positiva de que o mercado está absorvendo por capacitação, o que contribuiu nesta realidade do aumento do número de mulheres na área e, inspiradora, ressalta a importância da capacitação:

    — Hoje há cursos técnicos oferecidos à profissionais de todos os setores da construção civil seja como auxiliar de escritório, almoxarifado, e demais ocupações administrativas, ou no preparatório para coordenadores, chefes de equipe e trabalhadores de campo nas suas variadas funções, o que é uma grande oportunidade para as mulheres conquistarem com competência seu espaço neste mercado.

    Competência e toque feminino determinam o caminho

    Rafaela Karen Espíndola da Silva, engenheira civil desde 2011, que também atua na construtora da família, conta como conquistou o respeito e o espaço na empresa familiar, que nasceu com DNA dos seus avós que eram: um empresário do ramo dos materiais de construção, e o outro carpinteiro.

    — Na empresa temos cerca de 100 funcionários diretos, sempre tive muito respeito por eles, e sempre tive um retorno muito bom. Tenho colaboradores que estão com meu pai há mais de 30 anos, e acho que por sermos uma empresa familiar, eu consigo ter um contato muito próximo, chamo todos pelo nome, penso que isso gera respeito e um vínculo diferente.

    A jovem engenheira Rafaela precisou enfrentar alguns obstáculos para ganhar respeito no mercado que ainda é predominantemente masculino
    A jovem engenheira Rafaela precisou enfrentar alguns obstáculos para ganhar respeito no mercado que ainda é predominantemente masculino
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    Rafaela atua principalmente nas definições de materiais e acabamentos que serão utilizados, e análise das plantas arquitetônicas pensando sempre na otimização de espaços e bem estar dos clientes, aliás, esse toque de carinho feminino também tem inspirado projetos de revitalização de áreas públicas pela construtora.

    Mãe de duas filhas pequenas, Catarina de 3, e Isabela de 5 anos, ela tem em casa o importante apoio tanto do marido, quanto de uma auxiliar do lar, e tenta estar o máximo do tempo possível no ambiente familiar, embora, segundo ela; "em épocas como, por exemplo, entregas de obras e lançamentos, preciso me dedicar ainda mais à empresa, então eles (família) já entendem que preciso estar um pouco mais ausente".

    Embora na sua sala da faculdade havia mais homens que mulheres, no seu departamento na empresa atuam duas mulheres e um homem, o que traz pra sua realidade este posicionamento feminino na construção civil. Com um histórico de sete obras, entre já entregues e em construção, Rafaela tem nas suas figuras materna e paterna sua maior inspiração e, atualmente, usa da maternidade para se inspirar em carinhosas adequações estruturais.

    — Depois que me tornei mãe, vi a necessidade de criar espaços como fraldários nos condomínios, e dar mais atenção às áreas KIDS, onde costumo levar minhas filhas pra fazer test drive — conta ela, que completa dizendo:

    —Fico muito feliz em ver aumentar o número de mulheres na engenharia civil, e tenho muito orgulho da minha profissão.

    A família como base firme

    — As mulheres conseguem sempre um jeitinho de conciliar o trabalho com a casa e a família, e eu faço questão de passar o maior tempo possível com meus filhos e meu marido, quem me conhece sabe o valor que isso tem pra mim — defende Milene Hillesheim da Silva, engenheira civil e decoradora, que há 20 anos, praticamente metade da sua vida, dedica-se à empresa da família.

    Mãe dos gêmeos de 14 anos, Ronald e Maryah — o que considera seu melhor projeto — Milene visitava as obras junto com o pai quando era pequena e todo aquele curioso universo foi tornando-se cada vez mais interessante. Atualmente ela chega a trabalhar com uma variável de até 50 funcionários dependendo do estágio da obra, e diz:

    — A relação com os homens, ainda predominantes no setor, sempre foi muito tranquila.

    A engenheira e decoradora Milene Hillesheim é mãe de gêmeos
    A engenheira e decoradora Milene Hillesheim é mãe de gêmeos
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    Segundo ela, o respeito mútuo é a base de tudo, seja na diferença de sexo, ou idade, já que quando começou na empresa existiam funcionários que a conheciam desde criança, o que pode tornar mais difíceis algumas mudança de hábitos. No entanto, ela afirma confiante:

    — Com o tempo vamos conquistando nosso espaço e fica tudo entendido.

    Sua rotina agitada inclui visitas diárias às obras onde desenvolve projetos decorativos ficando responsável pela escolha de acabamentos, que vão desde luminárias, rodapés e maçanetas, passando por uma infinidade de detalhes, até mesmo todas as cores do empreendimento. Mesmo com o dia a dia desgastante, ela se orgulha de conseguir arrumar tempo para ler — foram 71 livros em 2019 —, ir ao cinema, cavalgar e nadar com os filhos.

    Envolvida atualmente em duas obras a serem entregues em 2020, sobre como o mercado da construção civil enxerga esta mescla das suas faces de profissional, mãe e mulher, ela diz:

    — Preconceito sempre houve, mas acho que está menor, pois há duas décadas as mulheres eram cerca de 10% cursando engenharia, e hoje temos proporções maiores que 30% de acadêmicas nas salas de aula — e completa com um exemplo prático:

    — Na nossa empresa somos quatro engenheiras mulheres e nenhum homem, ou seja, quem tem competência alcança uma posição independente de ser homem ou mulher.

    Espaço para desbravar

    — É preciso aproveitar os pontos fortes e habilidades, independente do sexo, para os diferentes papeis dentro da empresa, e assim buscar sempre produzir de forma assertiva e eficiente — é o que defende Luise Deschamps, que começou na empresa da família, há 11 anos, como estagiária e hoje assina como gerente de produtos, sendo uma das representes da terceira geração da família na construtora.

    Formada em Arquitetura e Urbanismo, com MBA em Gestão de Negócios imobiliários e da construção civil, e em Marketing, além de coordenar o Setor de Arquitetura e Projetos, Luise faz contato com projetistas externos, aplica treinamento técnico com equipes de vendas, e coordena o setor de marketing. Com três empreendimentos entregues só em 2019, mais três previstos para este ano, Luise chega a trabalhar com cinco a seis projetos simultaneamente onde sua presença é exigida com frequência. Mas, apesar da sua ampla atuação, a experiência de conviver com até 160 colaboradores diretamente, a maioria homens, a faz considerar a participação feminina no mercado da construção civil um assunto merecedor de mais atenção.

    — Acredito que como mulheres na construção civil, ainda temos muito que conquistar. O toque feminino na gestão, especificamente, tem visivelmente agregado em qualidade às empresas do setor e, apesar de ser um ramo bastante masculino, temos mais respeito e espaço que anos atrás — reflete ela.

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