nsc
    nsc

    publicidade

    Antiguidade

    Em Rancho Queimado, posto de gasolina dos anos 1950 resiste à modernidade

    Posto da Texaco mantém estrutura da metade do século passado e ainda abastece os veículos da região

    27/04/2018 - 04h27 - Atualizada em: 27/04/2018 - 12h18

    Compartilhe

    Por Redação NSC
    (Foto: )

    A paisagem bucólica de Taquaras, localidade do município de Rancho Queimado, na Grande Florianópolis, esconde edificações que pararam no tempo. A modernidade dos veículos automotores chegou neste cantinho catarinense no anos 1950, quando acreditava-se que o que viria a ser a rodovia BR-282 passaria por ali. No final daquela década, Teófilo Schütz decidiu fechar seu antigo posto de combustíveis — que funcionava com bomba manual —, inaugurado 10 anos antes, para assinar contrato com a companhia norte-americana Texaco e inaugurar o mais moderno ponto de parada da região, em 1959. Ali, os caminhões de reboque carregados de toras de madeira, feitos pela Fábrica Nacional de Motores (FNM), paravam para abastecimento e reparos. Ao lado havia um hotel, caso os motoristas quisessem tirar uma pestana antes de seguir viagem rumo ao litoral.

    — Na época, era um posto super equipado. Tem rampa de lavação, espaço para engraxar os veículos e oficina mecânica. Era "O" posto, tinha muito movimento. Agora, a cidade ficou no esquecimento — conta o engenheiro civil Luciano Schütz, neto de Teófilo.

    Luciano Schütz
    Luciano Schütz
    (Foto: )

    O esquecimento a que se refere é a baixa do fluxo de carros, caminhões e ônibus, que, desde 1986, passou para a BR-282, distante a 7,5 quilômetros do posto. Agora, o parco movimento se limita aos moradores e aos turistas que visitam a região.

    — Quando me criei, esse posto já estava aqui, estamos acostumados com esse visual, mas a gente sabe que é uma coisa diferente, que chama a atenção de quem não conhece. Tem muita gente que vem tirar fotos — comenta o funcionário público municipal Dirceu Weiss, de 62 anos, mais conhecido como Teca.

    Dirceu Weiss
    Dirceu Weiss
    (Foto: )

    Mas as fotos não rendem "royalties" à família Schütz, apesar das constantes brincadeiras sobre essa possibilidade. Nem o valor de R$ 4,19 no litro da gasolina e de R$ 3,45 no litro do diesel são suficientes para o funcionamento do estabelecimento.

    — Esse posto de gasolina só está aí por insistência do meu pai. Economicamente ele não é mais viável, mal e mal paga a despesa dele mesmo. É triste, infelizmente. O capitalismo é selvagem — avalia Luciano.

    A família Schütz nunca abriu um processo de tombamento do imóvel como patrimônio histórico. Além de evitar burocracia, o local sofreu algumas modificações para se adequar às normas da Agência Nacional do Petróleo (ANP), como a troca das bombas de gasolina e dos tanques de armazenamento. Já houve uma tentativa para instalar uma cobertura no posto, mas todas elas descaracterizariam o espaço e, por isso, foram descartadas.

    — Adoramos aqui. A mãe quer reformar, dar uma nova pintura, mas eu sempre digo: "tem que manter a raiz" — afirma Teófilo Neto, de 33 anos, irmão de Luciano.

    Téofilo e Luciano Schütz
    Téofilo e Luciano Schütz
    (Foto: )

    Hotel histórico

    Ao lado do posto fica um hotel ainda mais antigo. É a morada de Luciano Schütz desde que se separou da esposa e saiu de São Paulo para voltar à cidade natal. Dentro da casa, móveis entalhados à mão dão ar de antiquário, apesar do contraste com a modernidade do computador e da televisão.

    — Essa construção é mais antiga, originalmente é da virada do século (passado). Nos anos 1950, meu avô comprou e ampliou um pouco. Os móveis e o relógio foram feitos por um entalhador que fazia os móveis da família Matarazzo — conta Luciano.

    (Foto: )

    Rancho Queimado tem se consolidado, recentemente, como destino de turismo rural. Fábricas de chocolate, plantações de morango, rios e pequenas corredeiras, cavalos e gado no pasto fazem parte do cenário. No caminho entre o centro e o distrito de Taquaras, hortênsias azuis chamam atenção de quem passa pela pequena estrada de terra, especialmente na primavera. Pouco antes de chegar ao posto, está a casa de campo do ex-governador Hercílio Luz, hoje transformada em museu.

    — A região está virando polo turístico, mas se comparar com outras regiões, como o interior de São Paulo ou o sul de Minas Gerais, não temos a mesma estrutura — avalia Luciano.

    Casa de campo do governador Hercílio Luz
    Casa de campo do governador Hercílio Luz
    (Foto: )

    Família pioneira

    O tino para a modernidade da família Schütz não se expressa apenas no posto, que já foi o mais moderno da região. O pioneirismo vem de muito antes, talvez do ímpeto da matriarca da família, Felícia Hatky Schütz, a avó de Luciano, Téofilo, Tiago, irmão gêmeo de Téofilo, e Luciane, de 43 anos.

    — Minha avó foi uma pessoa muito pra frente de sua época. Veio da Alemanha quando jovem, tem um livro publicado (chamado "Uma mulher do século passado"). Foi também a primeira mulher de Santa Catarina a ter carteira de motorista profissional — revela Luciano.

    Felícia e Teófilo Schütz
    Felícia e Teófilo Schütz
    (Foto: )

    O sobrenome da família, Schütz, significa "atirador" — originalmente, essa palavra era usada para definir a função do arqueiro que era o guardião dos moradores de uma cidade. Pois foi esse o caminho que o bisavô de Luciano trilhou na Alemanha.

    — Meu bisavô, Felix, foi aviador na Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Pilotava um avião que mais parecia o 14 Bis. Depois da guerra veio para o Brasil, mas um dos seus filhos começou a causar problemas e eles voltou para a Alemanha em 1938. O que aconteceu no ano seguinte? Passou por outro suplício na Segunda Guerra Mundial.

    Se Felix voltou para a Alemanha, Teófilo, avô de Luciano, ficou no Brasil — mais precisamente em Rancho Queimado. Três gerações depois, a família carrega o sobrenome Schütz e, com ele, a incumbência de ser a guardiã da memória de tempos em que o novo era um posto de combustível com bomba semi-automática e uma rampa para lavação.

    (Foto: )

    Leia mais notícias da Grande Florianópolis

    Deixe seu comentário:

    publicidade

    publicidade

    publicidade

    publicidade