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    Entenda como funciona o estudo que projeta a evolução de casos de Covid-19 em Blumenau

    Cálculo é feito para auxiliar a gestão de crise da prefeitura em curto prazo

    22/05/2020 - 16h40 - Atualizada em: 22/05/2020 - 20h43

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    Bianca
    Por Bianca Bertoli
    Até esta quinta-feira (21), 550 blumenauenses já haviam contraído a doença
    Até esta quinta-feira (21), 550 blumenauenses já haviam contraído a doença
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    Toda sexta-feira a prefeitura de Blumenau divulga a projeção da evolução dos casos confirmados do novo coronavírus para os próximos 15 dias. As possibilidades - principalmente em relação à ocupação hospitalar - assustam a muitos e até o momento não se confirmaram. No estudo da semana retrasada, por exemplo, a projeção mais otimista indicava 614 contaminados até o próximo sábado (23), com 31 deles podendo parar em Unidades de Terapia Intensiva (UTI). Nesta quinta-feira (21), havia 550 blumenauenses contaminados e três deles hospitalizados em estado mais grave, ou seja, 10% do imaginado para este período.

    Estar longe do esperado em relação às internações é um bom sinal, mas não quer dizer que a cidade deva relaxar com os cuidados e tampouco significa um grande erro nas projeções, explica o secretário da Saúde, Winnetou Krambeck. O modelo matemático de projeção a curto prazo adotado pela equipe responsável pelo estudo (uma união de esforços entre prefeitura, Furb e Unimed) é exponencial.

    Traduzindo: já que a quantidade de infectados cresce de um dia para o outro de maneira desordenada, muitas instituições têm escolhido esta forma de projetar a evolução da doença. O programa é alimentado diariamente com o número de casos confirmados e "aprende" com esses dados ao longo do tempo, multiplicando o número de infectados com a taxa diária de crescimento exponencial, resultando na tendência de evolução.

    Todo o cálculo é fundamentado no teorema de Bayes, conforme o cientista de dados Rodrigo de Lima Oliveira, um dos integrantes da equipe que elabora o documento probabilístico semanalmente. Com as projeções em mãos (sempre divididas em três categorias: otimista, mediana e pessimista) o grupo calcula 10% de ocupação em leitos de enfermaria e 5% em UTI. E aí, ainda que a realidade em relação aos números de casos normalmente permaneça dentro do projetado (entre a hipótese otimista e mediana), a quantidade de internados sempre fica muito abaixo do anunciado.

    — A gente pode chegar nesses cenários, não significa que vá acontecer, é uma projeção. Adotamos essa posição mais conservadora para termos margem em planejar as ações (para evitar lotações em hospitais) — defende o secretário de Gestão Governamental, Paulo Costa.

    Costa diz isso porque, apesar do cálculo projetar 5% das pessoas confirmadas em UTI, desde o começo do mês o percentual mais alto de ocupação não passou de 2%. Porém, essa "gordura" serve para dar margem de segurança ao planejar as ações. Entre as que já foram tomadas com base no estudo, o secretário cita a contratação de servidores da saúde, a ampliação na quantidade de leitos, que vem sendo discutida com as unidades, e o monitoramento dos infectados para que eles mantenham o isolamento social.

    — A grande questão do coronavírus é o impacto no sistema de saúde. Enquanto o que o H1N1 impactaria em meses (em relação a internações), por exemplo, o coronavírus impacta em semanas. É muito rápida a disseminação — ressalta Krambeck.

    Em alguns países que também enfrentam a pandemia, a taxa média de internação hospitalar chega a 14,5%, lembra Cinthia Assis, da Diretoria Municipal do Escritório de Projetos. Mesmo que Blumenau não tenha evoluído para este cenário, isso pode acontecer em um intervalo muito curto de tempo, por isso, por enquanto, a equipe prefere usar uma taxa mais alta. O objetivo é evitar uma surpresa desagradável à gestão de crise e ela não ter tempo para combater o crescimento desenfreado. No entanto, nada impede que o grupo, ao observar durante semanas a baixa ocupação hospitalar, decida diminuir a taxa de 5% para 3%, por exemplo.

    Atualização: nesta sexta-feira (22), a equipe decidiu diminuir o percentual de 5% para 3%, que é a média de internação em UTI em Blumenau se somados os números de internados desde o começo da pandemia até o momento. Clique aqui para ver a nova projeção.

    Projeção x Realidade

    Projeção do dia 8 de maio
    Projeção do dia 8 de maio
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    Na projeção da semana retrasada, conforme o gráfico acima, o programa previa de 614 a 1.146 casos para este sábado (23). Nesta quinta-feira (21), segundo o último balanço divulgado até o fechamento deste texto, eram 550 blumenauenses infectados. Ou seja, a cidade está entre o cenário otimista e mediano.

    Ainda de acordo com a mesma estimativa, esses números poderiam implicar em 31, 39 ou 57 internações em UTI, respectivamente. Como informado no começo da reportagem, até o fim da tarde desta quinta havia três pessoas em UTI. O estudo mais recente, divulgado na semana passada, indica 149 internações até o dia 30: 99 em leitos de enfermaria e 50 em UTI. No cenário mediano, com 1.241 infectados, a quantidade aumenta para 187 (com 62 pessoas em UTIs). Já no pessimista, seriam 225 hospitalizados, 75 deles em UTI.

    Projeção do dia 15 de maio
    Projeção do dia 15 de maio
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    Nesta atualização, o município está abaixo do melhor cenário desenhado (eram esperados 611 infectados para esta quinta-feira, 61 a mais do que os testes confirmaram). Nesta sexta-feira (22), o estudo deve indicar um número menor de crescimento, já que as taxas não têm subido absurdamente.

    E os recuperados?

    As projeções não diferenciam os números de infectados e recuperados. Ou seja, todo o cenário inclui aqueles que já venceram a doença e aqueles que provavelmente vão se contaminar. É como se o estudo apontasse: até este sábado (23), 614 blumenauenses terão o coronavírus, mas parte deles já terá passado pelos 14 dias de tratamento. Nesta quinta-feira, por exemplo, quase 50% dos 550 diagnosticados estavam livres dos sintomas.

    E os internados vindos de outras cidades?

    O estudo não considera a evolução da doença em cidades vizinhas, ainda que isso possa impactar o sistema de saúde de Blumenau, que recebe pacientes da região. Mas isso não quer dizer que o monitoramento não ocorra. Até esta quinta-feira, sete pessoas de outras cidades haviam sido internadas por conta da Covid-19 em Blumenau. O número é pequeno e por enquanto não preocupa a gestão. Projeções do Médio Vale do Itajaí são feitas paralelamente para uma análise mais precisa da situação no Vale.

    Situação confortável em Blumenau?

    O pico da curva de contaminação ainda não aconteceu, segundo especialistas do país inteiro. Blumenau, por sua vez, não está em uma bolha. Por enquanto, a evolução da doença está "sob controle", e muito disso se deve ao isolamento dos idosos e à suspensão de aulas presenciais e circulação do transporte coletivo.

    — A projeção dá um indicativo, mas uma boa maneira de ter um parâmetro é olhar a quantidade de óbitos e os casos em UTI. Não tivemos nenhuma explosão nesses números e estamos em uma situação mais confortável em relação ao número de leitos em comparação a outros estados. Olha como está São Paulo, por exemplo — analisa o médico e professor da Furb, Ernani Tiaraju de Santa Helena.

    Na avaliação de Ernani, a decisão de proibir a circulação do transporte coletivo e fechar as escolas contribuiu positivamente para o cenário que o município - e o estado - vivem até o momento. A projeção ajuda a compreender a velocidade em que a contaminação pode evoluir e esse é um ponto importante, segundo o professor. Até surgir a vacina contra a Covid-19, o desafio é fazer com que a população se infecte o mais lentamente possível para não sobrecarregar a rede de saúde.

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