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O históriador do século

Eric Hobsbawm fez síntese de sua época no livro "Era dos Extremos"

Escritor morreu nesta segunda-feira num hospital de Londres, onde tratava uma pneumonia

01/10/2012 - 11h48 - Atualizada em: 12/10/2012 - 08h48

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Por Redação NSC
Hobsbawm em visita a Porto Alegre
Hobsbawm em visita a Porto Alegre
(Foto: )

Caso raro de escritor erudito que se torna campeão de vendas no final da vida, o britânico Eric Hobsbawm (1917 _ 2012) morreu nesta segunda-feira num hospital de Londres, onde tratava uma pneumonia. O historiador celebrizou-se ao publicar Era dos Extremos, monumental e até certo ponto imbatível síntese do século 20.

Hobsbawm nasceu em Alexandria, no Egito, então província otomana sob mandato britânico. Seus pais eram judeus _ ele, britânico, e ela, austríaca _ e se transferiram para a Áustria e, depois, para a Alemanha, mas emigraram para a Grã-Bretanha após a ascensão de Hitler ao poder. A leitura de Marx levou o jovem Hobsbawm simultaneamente à militância no Partido Comunista e ao estudo de história. A partir de 1934, já em solo inglês, converteu-se também ao jazz ao assistir ao vivo à big band de Duke Ellington.

Sua primeira experiência docente foi em 1947, como professor de história no Birkbeck College, em Londres, onde lecionou até se aposentar. Antes de Era dos Extremos, ao qual se seguiram outras obras sobre história contemporânea, Hobsbawm havia adquirido sólida reputação como historiador do mundo do trabalho, do capitalismo e das tradições. Um de seus livros mais influentes foi a trilogia Era da Revolução (1962), Era do Capital (1975) e Era dos Impérios (1987).

O sucesso de seus livros transformou-o no principal historiador britânico vivo e rendeu-lhe amplo reconhecimento, tanto do público como dos meios oficiais. Em 1998, o então primeiro-ministro Tony Blair _ cujo Novo Trabalhismo havia sido influenciado pelas ideias de Hobsbawm nos anos 1980 _ deu-lhe o título honorífico de Companheiro de Honra.

O autor também viajou pelo mundo inteiro. Em 1992, a convite do então prefeito Tarso Genro, esteve em Porto Alegre. Ontem, o governador afirmou:

_ Tive o prazer de ouvir e conviver com Eric Hobsbawm algumas vezes. Conheço sua obra e posso afirmar que se trata de um dos maiores historiadores de nosso tempo, que renovou a teoria da história, originário diretamente dos textos de Hegel e Marx. Foi um dos grandes humanistas do século passado, que deixa um legado extraordinário no sentido de compatibilizar a democracia com as grandes conquistas sociais de nosso tempo.

Em 2003, Hobsbawm participou da primeira edição da Festa Literária de Paraty (Flip). Luiz Schwarcz, editor da Companhia das Letras, disse que o Brasil era o país em que Hobsbawm tinha o maior número de leitores (leia declaração na página 3).

Com 95 anos completos em 9 de junho, o historiador estava havia meses hospitalizado para tratamento de uma pneumonia. Ele morreu às 6h (3h no horário de Brasília). Apesar da idade avançada, o escritor continuava prolífico. No ano passado, a Companhia das Letras, que publicava seus livros no Brasil, lançou Como Mudar o Mundo, coletânea de ensaios sobre mais de 150 anos de atividade socialista.

Hobsbawm foi casado duas vezes. A primeira união, com Muriel Seaman, durou de 1943 a 1951. Uma relação ao longo dos anos 1950 resultou em seu primeiro filho, Joshua Benathan. Em 1962, ele se casou novamente, com Marlene Schwarz, com quem teve dois filhos, Andrew e Julia. Teve também sete netos e um bisneto.

>> Veja entrevista do historiador ao Segundo Caderno, concedida em dezembro de 1992

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