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    Escritórios pós-pandemia querem fluxo de ideias, não do vírus

    A discussão sobre como reconfigurar o local de trabalho americano está se realizando em todo o mundo dos negócios, desde pequenas startups até empresas gigantes de Wall Street

    20/05/2020 - 17h47

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    Por The New York Times
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    *Por Matt Richtel

    San Francisco – O escritório corporativo moderno é conhecido pelos espaços de trabalho abertos e colaborativos, cafés internos e mesas para trabalhar de pé, com espaço para dois monitores de computador gigantes. Em breve, pode haver um novo recurso fundamental: o protetor de espirro.

    A barreira de plexiglas que pode ser instalada nas mesas é uma das muitas ideias que estão sendo aventadas pelos empregadores que contemplam o retorno ao local de trabalho após a quarentena do coronavírus. As reformas pós-pandemia podem incluir desinfetantes para as mãos embutidos nas mesas, que por sua vez serão posicionadas em ângulos de 90 graus ou isoladas por divisórias de plástico translúcido; filtros de ar que empurram o ar para baixo e não para cima; espaço de reunião ao ar livre, para permitir a colaboração sem transmissão viral; e janelas que realmente se abrem, para um fluxo de ar mais livre.

    A discussão sobre como reconfigurar o local de trabalho americano está se realizando em todo o mundo dos negócios, desde pequenas startups até empresas gigantes de Wall Street. As firmas de design e de móveis que foram contratadas para as reformas dizem que o vírus pode até estar levando o local de trabalho de volta ao conceito do qual estava se afastando desde a era Mad Men: privacidade.

    A questão é se alguma das mudanças que estão sendo contempladas resultará de fato em locais de trabalho mais seguros.

    "Não somos especialistas em doenças infecciosas, somos simplesmente o pessoal dos móveis", disse Tracy D. Wymer, vice-presidente de trabalho da Knoll, empresa que fabrica móveis de escritório e que está sendo contratada por clientes ansiosos, incluindo algumas das maiores corporações do país, para encontrar maneiras de tornar os locais de trabalho menos arriscados para a saúde.

    Os verdadeiros especialistas em doenças dizem que um ambiente de escritório sem vírus é um sonho. O dr. Rajneesh Behal, médico de medicina interna e diretor de qualidade da One Medical, rede de atendimento primário que recentemente realizou um webinar para empresas sobre como reabrir, disse: "Uma mensagem central é: não espere que seu risco caia para zero."

    Muito do que se sabe sobre a transmissão de doenças no local de trabalho vem de estudos sobre a transmissão da gripe, que compartilha algumas semelhanças com o novo coronavírus, explicou a dra. Lisa Winston. "Sabemos que a gripe se espalha nos locais de trabalho entre trabalhadores saudáveis", afirmou ela. Uma análise de 2016 de vários artigos de pesquisa de todo o mundo descobriu que cerca de 16 por cento da transmissão da gripe ocorre em escritórios.

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    A pesquisa também mostra que uma das melhores formas de prevenir a transmissão não tem nada a ver com móveis ou layout, mas sim com a permanência em casa de funcionários potencialmente doentes, para que não se sintam pressionados a comparecer ao trabalho. Manter pessoas contagiosas em casa pode reduzir os números de transmissão em até um terço.

    Segundo Winston, outro passo básico para reduzir o risco é simplesmente ter "menos gente no mesmo espaço".

    Esse é um conceito que vai contra o espírito do local de trabalho das últimas duas décadas. A adoção de áreas abertas remonta ao primeiro boom das empresas ponto-com no fim dos anos 1990. Essa disposição foi tida como essencial para a colaboração e a criatividade, mas é também, naturalmente, um modo de colocar mais pessoas em espaços caros, uma situação que – hoje todos percebem – criou condições semelhantes às da placa de Petri.

    Wymer afirmou que tinha mudado seu objetivo: em vez de tornar os escritórios livres de vírus, o que é impraticável, reformá-los para que os trabalhadores se sintam mais seguros. "Não podemos pedir aos funcionários que voltem ao mesmo escritório. As empresas sentem que temos de lidar com o medo", comentou ele.

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    Por enquanto, isso pode significar que não há mais mesas compartilhadas (um conceito no mundo dos negócios conhecido como "hoteling"), assentos ou cafés contíguos onde as pessoas se reúnem para conversar sobre um projeto enquanto tomam um suco ou um café. Pode significar mais uso de materiais, como o cobre, que são menos receptivos aos germes, e a reconfiguração de sistemas de ventilação que fluem do teto para baixo, em vez de do piso para cima, o que é considerado mais seguro.

    A Mobify, empresa de Vancouver, na Colúmbia Britânica, que constrói vitrines on-line para grandes varejistas como Under Armour e Lancôme, tem 40 funcionários que dividem espaço com outras startups. É o epítome do local de trabalho do século 21, com mesas lado a lado em uma fileira sem divisórias, e espaço aberto para um total de cem pessoas em sua plena capacidade, para que se reúnam em uma conversa ou para jogar pingue-pongue e sinuca.

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    Agora, segundo Igor Faletksi, executivo-chefe da empresa, a ideia principal é a segurança, não a diversão. "Bufês enormes? Esqueça isso por enquanto", disse ele.

    Faletksi está pensando em permitir que mais funcionários trabalhem em casa e até mesmo em mudar a sede para um novo edifício com melhor circulação de ar e mais espaço ao ar livre. "As pessoas querem trabalhar de modo seguro", observou.

    Algumas empresas começaram a mencionar o retorno a um dos conceitos mais ridicularizados da história: o cubículo. Fala-se também do primo transparente do cubículo, conhecido como guarda-espirro.

    Eles estão sendo comercializados pela empresa californiana Obex P.E., em e-mails para possíveis clientes, como "telas de proteção contra tosse e espirro". "Muitas opções para se adequar ao seu estilo e às suas necessidades. Diminua o contato entre as pessoas. Pratique o distanciamento social", diz o e-mail.

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    Essas proteções já estão presentes em bancos e supermercados, mas estão recebendo um novo impulso no escritório corporativo.

    Adicionar painéis laminados altos a estações de trabalho é a sugestão de um relatório de 12 páginas de um arquivo Power Point chamado "Covid-19 e O Futuro dos Móveis", produzido pela CRBE, uma das maiores empresas imobiliárias comerciais do mundo.

    Barreiras plásticas mais altas nas mesas têm sido usadas há muito tempo em um escritório administrado por uma das maiores especialistas em doenças infecciosas do país, a dra. Susan Huang, diretora médica de epidemiologia e prevenção de infecções da Universidade da Califórnia, em Irvine. "As barreiras não foram projetadas para o coronavírus, mas sim para manter um senso de colaboração e, ao mesmo tempo, diminuir o ruído", explicou Huang. Agora, podem ter o benefício adicional de criar algum isolamento biológico.

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    Mas Huang disse que a segurança no local de trabalho exigiria mais do que barreiras plásticas. Na verdade, seu laboratório reabriu recentemente, e a primeira coisa que ela fez foi uma reunião para explicar as novas regras de higiene. Na sala de conferências, Huang deu a cada funcionário uma garrafa de desinfetante para as mãos e uma máscara. "Tive de dizer a eles que vai ser preciso usar máscara o dia todo e mostrar-lhes como fazê-lo direito."

    "E não toquem na máscara sem antes usar o desinfetante para as mãos", ela se lembrou de ter dito naquela reunião.

    No fim, a solução para muitos empregadores pode não ser gastar muito dinheiro para equipar seus novos escritórios, mas simplesmente fazer com que muitos funcionários continuem a trabalhar de casa, como uma maneira de alcançar dois objetivos: manter as pessoas seguras e economizar dinheiro.

    Este é o desfecho da história da transformação do escritório na pós-pandemia. Em nome da segurança, é provável que também haja uma maior valorização da contenção de gastos. Nesse caso, os objetivos podem se dar muito bem juntos.

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    "O trabalho remoto funcionou muito bem. Não dá para colocar esse gênio de volta na garrafa", afirmou Susan Stick, conselheira geral da Evernote, uma fabricante de programas de anotações digitais que tem 282 funcionários.

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