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    Susto que vem do Oriente

    Especialistas avaliam impacto da turbulência chinesa

    Mundo se sobressalta com desaceleração do país asiático e dificuldade de manter crescimento que ajudou na estabilização da crise global

    29/08/2015 - 09h01

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    Por Redação NSC
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    Se é até clichê falar em hermetismo da economia, essa máxima se amplia como tudo quando se trata de China. E é isso que ocorre neste momento: o gigante asiático, pivô das melhores notícias financeiras com seu mercado ávido, de 1,3 bilhão de pessoas, agora dá sinais preocupantes.

    A alardeada abertura econômica chinesa não tirou o ferrolho de uma ditadura. A regra é a imprevisibilidade. Os anúncios oficiais só se dão com fatos consumados. Exemplo: aquela sinalização de que os juros devem subir, existente aqui e principalmente nos Estados Unidos, lá não ocorre.

    Os temores em relação à China abalaram os mercados internacionais. Na segunda-feira passada, o maior susto: a bolsa de Xangai mergulhou 8,4%, a maior queda diária desde o auge da crise global em 2008. E arrastou outros mercados. A apreensão se intensificou na medida em que analistas cogitavam a possibilidade de que a desaceleração poderia ser maior do que mostram dados oficiais. Somaram-se iniciativas do governo chinês para dar suporte à economia, como a desvalorização do yuan.

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    Ainda assim, especialistas como Oliver Stuenkel, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), não veem uma bolha e, apesar de reconhecer o efeito na diminuição do crescimento chinês, evitam um discurso catastrofista. Stuenkel identifica a redução de uma expectativa antes exagerada.

    - A queda tem sido significativa, mas é mais uma correção do que uma bolha. É menor do que a de 2008, por exemplo. Por enquanto, acho que é mais uma percepção. A China passa por um processo de popularização da compra de ações. O governo incentiva cidadãos a comprar ações. Algumas pessoas tiveram de revendê-las para pagar suas dívidas - explica Stuenkel.

    É preciso levar em conta a volatilidade da bolsa chinesa. Cerca de 80% dos investidores são pessoas físicas, muitas delas inexperientes. Assim como outros investidores em bolsa, agem como rebanho, mas ainda mais assustado.

    Um ponto, ao menos, é pacífico: o crescimento chinês, visto como compensação de problemas de Brasil e outros emergentes, deve arrefecer ainda mais. Em 2007, a China chegou a crescer 13%. Em 2010, 10,4%. Em seu mais recente relatório, o Fundo Monetário Internacional (FMI) previu que a China deve ter, em 2015, sua menor taxa de crescimento em 25 anos: 6,8%.

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    É considerado improvável que a China volte a ostentar crescimento anual como os anteriores a 2010. O perfil da economia transita de um modelo exportador para a ênfase ao consumo interno. O FMI entende o momento como de "ajuste necessário", com objetivo de dar sustentabilidade à expansão. Ou seja, trata-se de movimento para acomodar uma situação antes exagerada, reforça Stuenkel.

    - O crescimento chinês será menor do que o de costume. Mas vejo apenas a correção de um otimismo exagerado. É cedo para dizer se haverá algo mais profundo. Não há evidências.

    Outro especialista tem análise semelhante à de Stuenkel, mas com diferença semântica. O embaixador Luiz Augusto de Castro Neves, que serviu na China e preside o Conselho Curador do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), vê uma "bolha".

    - A bolha ocorre quando há crescimento desmesurado. Mas passamos por crises piores - diz. - É de se prever que diminua a demanda por commodities, mas pode haver oportunidade para países como o Brasil, porque a China é hoje um país mais próspero, mais urbano e com classe média maior. Os chineses vão comer mais, não só soja. Cabe ao Brasil ter competitividade.

    A China está importando menos produtos básicos como soja, açúcar e petróleo. O Brasil e outros países, que têm nessas transações um suporte desde a crise de 2008, precisarão se adaptar. O governo acendeu a luz amarela. O ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, indica que há prioridade em reduzir a volatilidade do câmbio.

    Em meio ao debate sobre haver ou não uma bolha chinesa, o economista Alexandre Cabral, MBA em Finanças e mestre em mercado financeiro pelo Ibmec, sustenta que a bolha começou a estourar e "está virando bola de neve", levando de roldão as bolsas.

    Tanto Stuenkel quanto Castro Neves, porém, identificam reações do governo chinês. Já houve refinanciamentos de empréstimos e compras de ações de pequenas e médias empresas para aumentar a liquidez. E há medidas de longo prazo. A informação extraoficial de que se cogita terminar com a norma do filho único seria uma das medidas em estudo. Stuenkel vê uma tentativa de ampliar a população ativa em meio a um envelhecimento geral. Castro Neves avalia que tal restrição até já está em desuso.

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