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Exclusivo: a primeira seleção do técnico caxiense Tite

Nada de Neymar, Thiago Silva, Douglas Costa ou algum jogador do Corinthians

02/07/2016 - 03h20 - Atualizada em: 02/07/2016 - 05h04

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Por Redação NSC
Em cima, da esquerda para a direita: Raimundo Demore, Leocir, Zelfino, Antonio Dall Pizzol, Lauri, Nico, Buda, Marquinhos, Renato, Serafina, Bastião (massagista) e Marcelo. Agachados, a partir da esquerda: Sabão, Mário Bassani, Délio, Chemello, Júlio Cezar, Ferreira, Dejair, Cabecinha (com a neta Maísa), Luis Damasceno (roupeiro), Tadeu e Israel
Em cima, da esquerda para a direita: Raimundo Demore, Leocir, Zelfino, Antonio Dall Pizzol, Lauri, Nico, Buda, Marquinhos, Renato, Serafina, Bastião (massagista) e Marcelo. Agachados, a partir da esquerda: Sabão, Mário Bassani, Délio, Chemello, Júlio Cezar, Ferreira, Dejair, Cabecinha (com a neta Maísa), Luis Damasceno (roupeiro), Tadeu e Israel
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Nada de Neymar, Thiago Silva, Douglas Costa ou algum jogador do Corinthians. A primeira seleção de Tite começa com a segurança do goleiro Lauri, passa pelo volante de qualidade Mário Bassani, tem a elegância de Marquinhos com a camisa 11 e as pedaladas de Ferreira com a 9. Há 24 anos, o caxiense Adenor Leonardo Bachi era um técnico em início de carreira no Veranópolis e na equipe da Marcopolo, onde selecionava os melhores funcionários-boleiros para o tradicional Campeonato do Sesi.

— Fizemos uma reunião de diretoria da associação dos funcionários da Marcopolo e decidimos ali que iríamos convidar o Tite. Era um cara bem quisto por todos, precisava de dinheiro e o chamamos para trabalhar com a gente — lembra Raimundo Demore, diretor da empresa na época e que depois virou presidente do Juventude de 2012 a 2015.

Engana-se quem acha que a Marcopolo era apenas um bico para Tite em 1992.

— O Veranópolis tinha dificuldade e mal pagava ele direito. Aqui na Marcopolo ele recebia direitinho todo mês, se dedicava muito e exigia o máximo daquele time — revela o ex-atacante Ferreira, ídolo do Juventude em 1990 e 1991.

O principal problema para Tite era conciliar a função dupla de treinador em razão da distância entre Veranópolis e Caxias do Sul. Na parte da tarde, treinava os profissionais do VEC no Estádio Antônio David Farina e, depois, saía a milhão na Fiat Panorama com os quatro pneus quase carecas.

Tinha menos de uma hora para chegar às 18h no Estádio Ody J. M. Britto, sede campestre da Marcopolo, às margens da Rota do Sol. Muitas vezes, chegava atrasado e o irmão Miro Bachi, que era o auxiliar técnico da equipe, comandava o treino até Tite estacionar e descer do carro.

A primeira Seleção Brasileira de Tite vai ser anunciada em agosto, para os jogos contra o Equador, no dia 2 de setembro, e a Colômbia, no dia 6, pelas Eliminatórias Sul-Americanas para a Copa do Mundo de 2018. Porém, a verdadeira primeira seleção de Tite foi a da Marcopolo de 1992.

— Quando ele chegou aqui, tinha uma base de time, mas começou a observar muitos outros funcionários da empresa. Via todo mundo, os que eram indicados ou os que diziam que jogavam bem. Aí, ele botava todo mundo no treino e selecionava os melhores. Antes dos jogos, fazia uma lista de convocados e fixava na parede — conta o ex-meia-atacante Marquinhos, que foi jogador profissional e ainda trabalha como supervisor de qualidade da Marcopolo.

Aquela seleção de laranja, branco e preto ganhou de quase todo mundo. É considerada uma das melhores equipes da história da empresa e a de maior invencibilidade. A única frustração daquela época foi perder a final do Campeonato do Sesi para o time da Randon com um gol mal-anulado, em setembro de 1992, no empate de 0 a 0 no Estádio Centenário.

Fora isso, risadas, brincadeiras e muitas histórias para contar, como eles fizeram em um encontro inédito 24 anos depois no campo onde foram comandados pelo atual técnico da Seleção Brasileira de futebol.

Ex-atacante Ferreira (camisa 25) reuniu os jogadores de 1992, como Júlio Cezar (D)
Ex-atacante Ferreira (camisa 25) reuniu os jogadores de 1992, como Júlio Cezar (D)
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Vice-campeão imbatível e com futebol de luxo

Tite já era um técnico diferenciado em 1992. No entanto, ainda não tinha conquistado nada, o que o deixava em dúvida sobre o sucesso na carreira. Não foram poucas vezes em que ele pensou em desistir. Tanto que naquela década de 1990 chegou a trabalhar de comentarista da Rádio Caxias. Foi só a partir de 2000, com o título gaúcho do Caxias, que Tite embalou de vez e não parou mais de ser campeão. Em 1992, ele viveu uma das maiores frustrações como treinador: perdeu a decisão do Sesi sem ser derrotado e com erro fatal de arbitragem.

— Foi um gol mal-anulado. Eu dei a casquinha de cabeça para trás e o Ferreira pulou de peixinho, com a bola no mínimo dois metros na frente dele. O árbitro deu o gol, mas o bandeira inventou. Era o último minuto do segundo tempo da prorrogação e o jogo estava 0 a 0. Imagina a confusão e a briga que deu no final. O time da Randon era muito bom, mas essa final foi um crime — relembra o ex-jogador Sabão.

Por ter vencido o segundo turno, a Randon tinha a vantagem do empate e jogou com o regulamento embaixo do braço. Mas o vice-campeonato não tirou o brilho da equipe da Marcopolo.

— Nosso time era muito superior aos demais, tinha um monte de ex-profissionais. E, inclusive, surgiu um fato inusitado naquela época. Teve um jogo contra a Gethal que o nosso diretor Raimundo Demore desceu lá da cabine, falou com o Tite e mandou segurar. A gente estava ganhando de 14 a 0 e com gás ainda. Caxias e Juventude, com times reservas, juniores ou juvenis, vinham fazer jogo-treino aqui e só dava nós. Nosso time dava chocolate em todo mundo — gaba-se Sabão.

— Era uma equipe semi-profissional. E o Tite não se contentava com pouco, sempre queria mais. No início, a gente treinava duas vezes por semana, e aí o Tite dizia "vamos treinar mais". Passamos para três dias e o Tite falando "vamos treinar mais". Quando a gente se deu conta, treinávamos quatro vezes por semana em nível quase profissional. E trabalhávamos oito horas antes do treino — complementa o ex-volante Mário Bassani.

Ex-volante Mário Bassani (camisa 15) lembrou de várias histórias sobre a passagem de Tite pela Marcopolo
Ex-volante Mário Bassani (camisa 15) lembrou de várias histórias sobre a passagem de Tite pela Marcopolo
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Jogadas ensaiadas, confiança e o tapão no peito

Não é muito diferente o que Tite fazia em 1992 na Marcopolo para o que faz agora em 2016. Tratamento igual com todos, educação, conhecimento prático e teórico, filosofia de futebol moderno.

— Uma característica que o Tite não mudou: ele não mencionava um jogador, falava no grupo. E alguns conceitos são os mesmos, como marcação em cima. Ele mandava a gente tirar os espaços. Era um time competitivo, que roubava a bola para ficar com ela. O que mudou é que hoje ele tem mais recursos, estrutura, uma equipe de profissionais na comissão técnica — comenta Mário Bassani.

Algumas coisas eram até difícil de interpretar naquela época.

— Às vezes, o Tite colocava os jogadores mais fracos no mesmo time nos treinos e pilhava os caras. Era meia dúzia que não era tudo aquilo contra os "bam-bam-bam". Moral da história: ele dizia para o time mais fraco que era possível, dava as coordenadas e falava que ganhar seria um mérito. Daí, todo mundo ganhava confiança, o que jogava mais e o que jogava menos — fala o ex-meio-campista Júlio Cezar.

E tinha recado no pé do ouvido para quem gostava da noite:

— Ele falava assim: "se resolver dentro de campo, não tem problema" — recorda o ex-meia Dejair.

O camisa 5 Mário é quem mais lembra da passagem de Tite pela Marcopolo. Cita até uma jogada ensaiada:

— Nosso primeiro gol surgiu de uma jogada ensaiada que treinávamos sempre e que ele faz até hoje. Bola na meia direita, o Sabão rolou, o Cabecinha pisou nela, eu bati por fora e saiu o gol. Fomos todos abraçá-lo na casamata.

E não esquece do apoio final, que virou marca antes dos grandes jogos dos times do treinador caxiense:

— Sabe uma coisa que o Tite começou a fazer aqui e nunca mais parou? Aquele tapão no peito: um em cada atleta antes de entrar em campo. Dizia "vamos, vamos, vamos!!!"

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