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Naufrágio

Família de pescador desaparecido no mar em Barra do Sul mantém a esperança de reencontrá-lo

Mesmo com as buscas interrompidas pelos bombeiros, amigos e parentes de Jonathan Luiz Fagundes de Freitas continuam a procura

04/09/2013 - 03h39

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Por Redação NSC
Nelceline e o filho Luiz Miguel no aguardo por informações
Nelceline e o filho Luiz Miguel no aguardo por informações
(Foto: )

Eram 10h30 de sábado e Nelceline Soares Tavares, 18 anos, tinha recém-almoçado. Ansiosa por notícias do marido, que naquele horário normalmente já teria ligado, resolveu dormir para aquietar a preocupação. Logo depois, o telefone tocou.

- Assim que ouviu o celular, eu já não senti o meu corpo - diz Nelceline.

Do outro lado da linha, um homem perguntou se ela estava em casa e, em seguida, se o marido dela, o pescador Jonathan Luiz Fagundes de Freitas, de 24 anos, havia dado notícias. Nelceline respondeu que não. Instantes depois, ele iria até a casa dela, no bairro Piçarras, em Guaratuba (PR), para contar do naufrágio.

A informação que o desconhecido trazia era de que no amanhecer de sábado, por volta das 5 horas, o barco camaroeiro, do qual Jonathan era o encarregado, virou a 17 quilômetros da costa em Balneário Barra do Sul. E um dos três pescadores que estavam nele desapareceu.

- Pensei logo no rapaz que foi criado comigo (Claudinei Silva de Lima), porque nunca tinha visto ele nadar - lembra a jovem dona de casa, que logo saberia que o desaparecido era o marido dela.

Desde então, Nelceline vê os dias passarem sem informações de Jonathan.

- Na tarde de segunda, estava sentada na casa da minha mãe e vi a fisionomia dele bem certinha, ele estava sem boné e pedia por socorro. Sinto que ele está bem - conta.

Sentada no pátio da casa que havia alugado com Jonathan pouco antes de ele ir para o mar pela última vez, Nelceline embala o filho Luiz Miguel, dois anos, e lembra do que o pequeno disse para ela no sábado.

- Ele levantou, olhou para mim e disse: ?Mãe, o pai está bem e está voltando? - lembra a jovem, reafirmando a esperança de reencontrar o marido.

Nelceline acredita que Jonathan decidiu deixar os dois companheiros, que estavam sobre o barco, se jogar no mar e nadar em busca de ajuda porque se sentia responsável por eles, em especial por Claudinei, que era irmão de criação dela e que pela segunda vez saía para pescar.

- Antes de eles irem, o Jonathan quis que ele (Claudinei) fosse se despedir da mãe e disse para ela: ?Não se preocupe, eu cuido do seu filho?. Ele é assim, quando vê alguém passando necessidade, ele não pensa nele, pensa apenas nos outros - disse.

Jonathan, chamado pelos amigos de Bicudo, saiu de casa no fim da manhã de quarta-feira com a previsão de voltar na madrugada de domingo. Ele é pescador há sete anos.

Tudo aconteceu muito rápido, diz sobrevivente

Ainda estava escuro e a pesca transcorria normalmente. Após um hora navegando em direção ao Norte, Claudinei Silva de Lima, de 19 anos, foi descansar, enquanto os companheiros Jonathan Luiz Fagundes de Freitas, 24 anos, que era o encarregado do barco, e Maurício Cardoso da Conceição, 24 anos, faziam a curva de retorno para o Sul. De repente, eles sentiram que algo começou a puxar a embarcação.

- Acredito que pode ter sido uma arraia-jamanta ou um baleote (filhote de baleia), porque uma vez isso aconteceu com um tio meu, e o barco começou a seguir a direção do animal - conta Maurício, um dos sobreviventes.

O pescador lembra que em questão de instantes o cabo que sustenta a rede de pesca do lado esquerdo passou sobre a embarcação e quebrou, fazendo o barco virar para trás.

- Na hora que começou a entrar água e o barco foi virando, a gente já foi se agarrando para subir nele. Quando eu e o Jonathan conseguimos sentar no casco, coloquei a mão na cabeça e pensei, o Claudinei vai morrer, porque ele não vai conseguir sair, mas em seguida ele apareceu - recorda Maurício.

Os três ficaram sobre o barco das 5 horas até as 7 horas. Quando amanheceu, Jonathan decidiu pular na água e pedir ajuda.

- Deve ter feito isso porque era o encarregado. Eu e Claudinei chamamos, mas não teve jeito. Depois, ele começou a berrar, mas não dava para entender se era pedindo socorro, se era para a gente ver ele - conta Maurício.

Os dois permaneceram sobre o casco da embarcação por mais duas horas, vivendo momentos de aflição, já que pelo menos três embarcações passaram por eles, mas não os viram.

- A gente gritava, acenava com a camiseta e nada. Falei para ele (Claudinei) que nós iríamos morrer porque depois de um tempo não passava mais nada - recorda.

Foi então que o tripulante de uma embarcação distante, que estava usando binóculos, avistou uma caixa-d?água azul e achou estranho, começou a olhar em volta e viu outros objetos boiando, até que encontrou a embarcação com os pescadores em cima.

Amigos continuam procurando

O Corpo de Bombeiros de Barra do Sul encerrou as buscas ao meio-dia de terça-feira, após seguir o protocolo de 72 horas de procura. Segundo a corporação, os trabalhos só continuariam caso as equipes tivessem uma ideia de que direção as correntes poderiam estar na hora do naufrágio.

Mas a região em que Jonathan desapareceu é de mar aberto, o que dificulta ainda mais o trabalho. Conforme o dono do barco em que Jonathan estava, Ronaldo Cabral da Silva, 29 anos, os pescadores, parentes e amigos continuam procurando o corpo do colega.

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